Em 1978 o futebol escocês tinha em filas aquela que era provavelmente a sua mais brilhante geração de sempre. A tal ponto que o seleccionador nacional prometeu, á partida para a Argentina, regressar com o título mundial. As semanas seguintes no entanto trataram de demonstrar o quão longe estavam os insulares da supremacia mundial numa sequência de histórias e episódios surreais que culminaram com mais uma eliminação precoce do maior torneio futebolístico do mundo.

A euforia da nação escocesa

O grito de guerra de Braveheart ainda não tinha estreado nas salas de cinema e o seu protagonista, Mel Gibson, era ainda um actor desconhecido. Mas na verdejante Escócia os gritos de liberdade e independência ecoavam para lá das Highlands. A um ano de celebrar um referendo que podia colocar um ponto final ao domínio inglês, os escoceses olharam para o Campeonato do Mundo como a oportunidade perfeita de desfraldar a bandeira nacional diante do resto do Mundo. O exército Tartan sentia-se invencível, a caminho de uma nova era de prosperidade como nação independente. Ninguém, em toda a Escócia, conseguia conter a emoção. Depois de vários anos de empates e derrotas, os homens de Ally MacLeod regressavam de Wembley com uma vitória debaixo do braço. Mudança de guarda, proclamavam os jornais a norte da fronteira. Dez anos antes, apenas um ano depois dos ingleses terem conquistado o seu Mundial, a selecção escocesa também viajou rumo a Londres e saiu vencedora.

Os adeptos invadiram o relvado, recolheram pedaços de relva e voltaram para casa reclamando para si o título não-oficial de campeões do Mundo. Semanas depois o Celtic de Glasgow sagrava-se campeão europeu em Lisboa. A primeira equipa britânica em lograr o feito, antes de qualquer clube inglês. E no entanto, quando o pontapé de saída para o Mundial do México teve lugar em 1970 os escoceses estavam em casa, a seguir o torneio. E os ingleses, campeões em título, procuravam revalidar o ceptro. Podia ter sido uma lição importante para acalmar as hostes eufóricas, dez anos depois. Mas a maioria dos adeptos preferiu ignorar o túrbio passado. O país olhava com optimismo para o futuro, para uma nova época de prosperidade social. Tinham razões para pensá-lo. Pela primeira vez em séculos existia a genuína possibilidade da Escócia caminhar para um modelo definitivo de independência, fora do controlo do Reino Unido. A pressão social e política dos escoceses e a atitude passiva do governo labourista em Londres lançaram as bases para a realização de um referendo histórico, agendado para 1 de Março de 1979.

A consulta visava determinar se existia um genuíno interesse na população escocesa em seguir um modelo de auto-determinação. Se o “sim” ganhasse, Londres permitiria a criação de um parlamento e um executivo legislativo próprio em Edimburgo, com poderes para desenhar um plano a médio prazo de independência. Era uma vitória depois de uma longa e dura batalha. Voltar a ter controlo sobre elementos básicos como a educação, saúde, política interna e serviços sociais era para os escoceses uma necessidade cultural. Inseridos no Reino Unido desde há vários séculos, o país tinha uma longa e histórica tradição como nação independente do domínio londrino e também como entidade futebolística.

Os pais esquecidos do jogo centro-europeu

Quase desde o baptismo, o futebol a norte e a sul da fronteira ganhou vida própria. O desenvolvimento do profissionalismo escocês antecipou o modelo britânico das escolas públicas e durante décadas os encontros entre ambas as selecções eram os únicos que podiam medir quem podia legitimamente reclamar para si o título mundial. Engolidos pelo império britânico em todos os aspectos da vida quotidiana, o futebol transformou-se na grande bandeira nacionalista do país. De Glasgow, Abardeen, Dundee e Edimburgo saíram verdadeiros profetas evangelizadores do modelo escocês. Encontraram no centro da Europa, no curso do rio Danúbio, a sua segunda casa. Em poucos anos os escoceses ensinaram aos distintos filhos do império austro-húngaro tudo o que sabiam. Checos, húngaros, austríacos, jugoslavos, alemães e italianos aprenderam em primeira-mão com os reverenciados professores escoceses. Rapidamente os alunos superaram os mestres. A escola danubiana ganhou uma nova pujança com o fim do império dos Habsburgos e a formação de novos estados independentes. Durante os anos vinte transformaram-se nas grandes potências continentais. Mas o respeito às suas origens permanecia e os duelos internacionais com os escoceses eram tratados como questões de estado. A fama dos homens do norte podia ter conquistado os europeus mas em casa, os escoceses pagaram o preço da falta de meios para aguentar a emergência de uma liga profissional a sul. A esmagadora maioria dos seus maiores talentos rumaram a Inglaterra abrindo uma tendência que se foi repetindo com o passar das décadas. A pouco e pouco a Escócia foi perdendo o seu protagonismo inicial e transformou-se num actor secundário no mundo do futebol.

Impossibilitados de participar nos três primeiros Mundiais pela postura isolacionista da Federação Inglesa – que controlava indirectamente as restantes federações britânicas – os escoceses tiveram de esperar por 1954 para se estrearem no palco mundial. As novas gerações já não se lembravam do seu papel fundamental no desenvolvimento do jogo. Á medida que os húngaros – os seus fieis discípulos – encantavam o mundo com o seu modelo de jogo tão escocês, a selecção do leão caía humilhantemente contra austríacos e uruguaios. Quatro anos depois, na Suécia, um empate com a Jugoslávia entre duas derrotas – incluindo uma dolorosa contra os modestos paraguaios – confirmava o que os escoceses desconfiavam. O mundo do futebol tinha avançado e tinha-o feito sem contar com eles. Ausentes nas três competições seguintes, os Mundiais pareciam algo do outro mundo para as novas gerações. Um santo Graal proibido e distante. E depois chegou Willie Ormond. E com ele uma geração de jovens talentosos jogadores dispostos a ultrapassar todos os complexos psicológicos habituais dos escoceses nas grandes competições. Contra todas as expectativas, a Escócia conseguiu qualificar-se para o Mundial da Alemanha, em 1974. Melhor ainda, os seus rivais ingleses tinham ficado pelo caminho. A sua participação foi cintilante mas trágica. Foram a única equipa do torneio que não perdeu um só jogo na competição mas isso não foi suficiente para passar à ronda seguinte. Depois de baterem os zairenses, os azuis empataram a zero com o todo-poderoso Brasil e a uma bola com a Jugoslávia. Um golo de Valdomiro, no minuto 79 do duelo entre africanos e canarinhos, eliminou a Escócia por diferença de golos com os campeões do Mundo. Não era o final desejado mas estava longe de ser uma tragédia histórica. Ainda assim Ormond acabou por abandonar o cargo. Para o seu lugar chegou Alistair MacLeod. E os escoceses perderam a cabeça.

MacLeod, o Braveheart do futebol escocês

A história está repleta de personagens optimistas capazes de prometer a lua antes de embarcar para um Mundial. Nenhuma é tão complexa como Ally MacLeod. Nomeado seleccionador escocês em 1976, depois de uma breve mas bem sucedida passagem pelo Abardeen, o técnico entrou a matar prometendo aos adeptos não só a qualificação para o Mundial da Argentina mas também o título. Timidamente censurado por alguns jornalistas, cientes da imensa diferença entre o futebol escocês e a nata mundial, MacLeod afirmou mais tarde que se contentaria com uma medalha mas que continuava a acreditar que vencer holandeses, argentinos, alemães e brasileiros estava ao seu alcance. Perante a pergunta de um jornalista escocês sobre qual seria o seu plano para o futuro se a Escócia realmente fosse capaz de vencer o Campeonato do Mundo a sua resposta não podia ser mais definidora do seu carácter: ”Ganhá-lo outra vez”.

O que ninguém podia negar é que o seleccionador tinha razão quando falava de uma geração única de futebolistas escoceses. Na mesma equipa estavam os sobreviventes do Celtic campeão europeu e finalista vencido, três anos depois, e do Glasgow Rangers que tinha ganho a Taça das Taças em 1971. Jogadores do nível de Willie Johnston, um extremo endiabrado, ou Sandy Jardine, um hábil lateral. A esses juntavam-se agora algumas das principais estrelas da liga inglesa. As estrelas do Derby County (Bruce Rioch, Don Mason), Manchester United (Lou Macari, Joe Jordan, Martin Buchan), Nottingham Forrest (Archie Gemmill, Kenny Burns, John Robertson) e do Liverpool (Graeme Souness, Kenny Dalglish) formavam seguramente o melhor contingente do futebol britânico. A presença de Kenny Dalglish era, sobretudo, a garantia de que os escoceses contavam com uma verdadeira estrela mundial. Ídolo precoce de Celtic Park, a jovem promessa tinha alcançado a celebridade com a camisola verde e branca dos católicos de Glasgow ainda na sua adolescência. Depois chegou a transferência para Liverpool e a missão de substituir o ícone emocional da Kop, Kevin Keegan. Rapidamente Dalglish demonstrou que não havia jogador insubstituível e levou o clube de Mersey ao seu segundo título europeu de clubes. A mítica bancada de Anfield não se cansava de gritar ao seu “King Kenny”. Nesse departamento, os escoceses podiam estar tranquilos. Não seria por falta de qualidade individual que a equipa ia defraudar as expectativas.

A confirmação oficial do bom momento da equipa nacional veio com o jogo disputado em Londres, frente à selecção inglesa, que acabou com uma vitória por 2-1. Ganhar aos rivais continuava a ter uma aura de grandeza que evocava outros tempos. Há muitos anos que a Inglaterra não pertencia à nata do futebol mas esse triunfo deu aos seus vizinhos a segurança de que seguiam na direcção certa. Foi como uma injecção de adrenalina que permitiu assaltar a liderança de um exigente grupo de qualificação. Vitórias sobre os campeões europeus, a Checoslováquia de Panenka, e uma forte selecção galesa, selaram o passaporte para a Argentina. Demonstrando que a euforia superava até as mais básicas lições de geografia, os jornais de Edimburgo acordaram com uma estranha capa: “Vamos a caminho do Rio”. Seguramente queriam dizer Rio de la Plata e não Rio de Janeiro mas ninguém se importou. As bandeiras escocesas encheram as janelas das casas e dos pubs. O partido nacionalista escocês sentia-se mais forte do que nunca e as perspectivas de uma vitória esmagadora no referendo começavam a inquietar os próprios ingleses. Só era necessária uma honrosa participação no Mundial para não estragar o momento. Mas algo não soava bem. As promessas de MacLeod criaram nos adeptos e na imprensa uma genuína impressão de que o título era uma possibilidade real. Nem o sorteio da fase de grupos, perspectivando duelos com os influentes peruanos e a favorita Holanda, alterou o estado anímico. Mais de trinta mil escoceses acompanharam o autocarro aberto que partiu de Hampden Park para o aeroporto de Glasgow, rumo à Argentina. Na maior parte dos casos, as paradas de vitória acontecem depois de se ganhar Mundiais, não antes. Para os escoceses o mês de competição parecia já uma formalidade.

Uma sitcom escocesa em solo argentino

A selecção chegou a Buenos Aires na última semana de Maio e foi instalada num centro de estágio em Alta Garcia, nos arredores de Córdoba, uma cidade no interior do país onde disputaria os seus dois primeiros jogos. Era provavelmente o pior centro de todos os que tinham sido colocados à disposição das selecções europeias, com péssimas condições de trabalho para os jogadores. Ainda assim o ambiente era de celebração. Não faltou álcool e tabaco nas reuniões casuais de jogadores nos seus quartos, uma vez que estavam proibidos de conhecer o que a noite cordobesa tinha para oferecer. MacLeod não parecia preocupado pelos seus jogadores. Menos ainda pelos rivais. Decidiu não realizar sessões de preparação para defrontar os peruanos, com a habitual dose de revisão de vídeos e debates tácticos a que os internacionais estavam habituados. Afinal, os escoceses eram tão bons que apenas necessitavam trabalho físico. O resto aconteceria por si. O pior estava para vir. MacLeod não só se recusou a estudar o rival como decidiu alinhar um onze sem vários titulares, afirmando publicamente que preferia ter os jogadores fisicamente aptos para o duelo com a Holanda e a exigente segunda fase que os esperava.

A 3 de Junho, quando a Escócia subiu ao relvado do Chateu Carreras de Córdoba, não estavam Gemmill, Souness, Macari ou Robertson no onze. A principio a ideia parecia ter funcionado e o golo inaugural de Jordan, num lance fortuito, apenas serviu para persuadir o técnico que estava totalmente certo. Mas depois apareceu em jogo Teófilo Cubillas. O peruano tinha sido uma das revelações do Mundial do México, oito anos antes. Depois de passar pelo futebol europeu, onde brilhou ao serviço do FC Porto, o médio ofensivo tinha regressado à América do Sul para preparar-se para o torneio. Era a grande estrela da equipa mas MacLeod preferiu não o marcar individualmente. Pagou o preço. A um minuto do intervalo, Cubillas assistiu Cueto para o empate. Na segunda parte operou pessoalmente a reviravolta no marcador com um livre directo antológico marcado com o exterior de pé. Os escoceses, que tinham tido a possibilidade de marcar através de uma grande penalidade que Don Masson desperdiçara, entraram em pânico. O astro peruano aproveitou para fazer o segundo golo da sua conta pessoal cinco minutos depois. O Tartan Army que tinha viajado com a equipa não podia acreditar. O rosto de MacLeod dizia tudo mas o pior estava ainda por vir. Horas depois do final do encontro, a FIFA comunicou à delegação escocesa que o médio Willie Johnston tinha dado positivo num controlo anti-doping. Estava oficialmente suspenso da competição e tinha de regressar de imediato a casa. A euforia transformou-se rapidamente em drama. E do drama passou à tragicomédia. O médio reclamou a sua inocência e a delegação escocesa reclamou com a organização do torneio, defendendo que o estimulante banido que tinha sido detectado, Reactivan, estava num medicamente que Johnston tinha tomado para baixar a febre de uma constipação que apanhou à chegada a Córdoba. Não havia volta atrás. A carreira internacional do jogador chegou ao fim antes de começar e no hotel de Alta Garcia os risos foram substituídos por murmúrios. MacLeod permaneceu fiel a si mesmo. Contra os iranianos os escoceses voltaram a subir ao campo sem terem estudado nada de um rival que era, a todos os níveis, um mistério. Mas desta vez o onze escalado contava todas as estrelas disponíveis. Não seria suficiente.

Durante quarenta e cinco minutos a Escócia foi incapaz de marcar ao guardião iraniano Nasser Hejazi apesar das oportunidades criadas. Acabou por ser um defesa iraniano, Andranik Eskandarian, o responsável pelo golo que adiantou os europeus no marcador. Os adeptos, em casa, não sabiam se celebrar ou se rir com a situação. Algumas das grandes estrelas do futebol europeu pareciam incapazes de superar uma selecção sem experiência internacional. Onde estava a equipa que tinha despertado tamanha euforia? Os iranianos não esperaram pela resposta e contra toda a expectativa, empataram o jogo aos sessenta minutos. Depois montaram uma muralha à volta da baliza de Hejazi e esperaram que a meia hora final passasse o mais depressa possível. Com um ponto em dois jogos a Escócia tinha de operar um milagre para seguir em frente. A conversa de vencer o Mundial tinha sido substituída pela mais lógica possibilidade dos escoceses se transformarem na chacota do Campeonato do Mundo.

A tarde em que a Escócia descobriu o que podia ter sido

O único adversário que faltava defrontar dentro do grupo era o mais difícil.

A Holanda podia não contar com o ausente Johan Cruyff mas em Rob Resenbrink e Johnny Repp tinham dois dos melhores jogadores do Mundo. Eram os favoritos a vencer o torneio. Mas também tinham tido um arranque inesperado. À fácil vitória sobre os iranianos chegou o empate com os peruanos. Partindo do princípio que os sul-americanos venceriam o seu duelo com os asiáticos, garantindo o primeiro lugar do grupo, aos holandeses não lhes fazia particular graça defrontar a Escócia num mano a mano. Felizmente contavam com a vantagem do goal-average que obrigava os escoceses a vencerem por uma diferença de três golos. A crença em milagres tinha-se esgotado rapidamente para os lados escoceses. O medo de uma nova humilhação tinha-se transformado na obsessão nacional. O golo inaugural de Resenbrink, de penalty, só serviu para aumentar a histeria. Subitamente o vento mudou. A Escócia que todos pensavam que iria aparecer finalmente fez-se ver. Dalglish, Souness e Gemmill começaram a associar-se como tantos esperavam que fossem capazes de fazer e os holandeses perderam o controlo do jogo. Dalglish empatou o encontro antes do intervalo, Gemmill apontou, também de penalty, o segundo tento escocês e subitamente tudo era possível de novo. Faltavam apenas dois golos para consumar a mais espantosa reviravolta da história do futebol escocês quando o médio do Nottingham Forrest recolheu a bola a fora da grande área e bailou sobre três defesas holandeses como se fosse a reencarnação do próprio Cruyff. Friamente, bateu Jongbloed, e despertou o adormecido Tartan Army nas bancadas.

Foi o golo que marcou uma geração. O último grito de glória do orgulhoso futebol escocês antes da queda no precipício. Faltavam vinte minutos para acabar o encontro. A todo-poderosa Holanda estava de rastos. Física e psicologicamente a vantagem era dos escoceses. Tudo podia acontecer. E numa verdadeira roleta russa de emoções o que sucedeu foi um autêntico anti-climax. Krol e Rep desenharam uma jogada de ataque desde o seu meio-campo com sucessivas trocas de bola. A trinta metros da baliza, Rep disparou apanhando o guarda-redes Alan Rough totalmente desprevenido. A “Laranja Mecânica” estava a salvo. Seguiriam o seu caminho até à final, sem a brilhantês esperada, para cair apenas aos pés dos anfitriões argentinos. Uma final que a comitiva escocesa teve de ver desde as suas casas. O regresso a Glasgow foi penoso. A imprensa, tão entregue ao discurso de MacLeod a ponto de ser catalogada pelos seus vizinhos ingleses como “adeptos com máquinas de escrever”, estava à espera da sua cabeça. Semanas depois o seleccionador apresentou a sua demissão. A sua carreira nunca mais foi a mesma. Nenhum clube escocês de prestígio estava disposto a contratá-lo. Tinha sido vítima do seu próprio optimismo mas também da obstinação insular de uma sensação de superioridade que já só existia nos livros de história.

Uma independência destroçada pelo futebol

A campanha de 1978 marcou um antes e um depois na vida da sociedade escocesa.

Depois de tanta expectativa, a selecção tinha desiludido os adeptos. Qualificar-se-iam para os três Mundiais seguintes mas nunca mais ninguém ousou pensar em algo mais que uma participação honrosa. Foi isso que tiveram. Até 1998, data da sua última participação num Campeonato do Mundo, os escoceses disputaram doze jogos e somaram apenas duas vitórias. Nunca conseguiram ultrapassar a primeira ronda. A viagem à Argentina tinha apenas confirmado uma tendência moderna, a de que os professores dos europeus continentais tinham sido incapazes de adaptar-se aos novos tempos. Mais ainda, a sensação de humilhação com que a equipa voltou da sua campanha mundialista teve também o seu preço político. Depois da euforia, chegou a depressão. A 1 de Março de 1978, menos de um ano depois do fracasso desportivo, o referendo de auto-determinação realizou-se com um resultado que ficou áquem das expectativas dos nacionalistas. O “sim” à política de separação do Reino Unido triunfou, mas apenas com 51,6%, números muito distantes das sondagens realizadas antes do Mundial. Para a lei ser aprovada era necessário um apoio de 40% da população. Como a taxa de abstenção tinha sido maior do que a esperada (cerca de 30%), o resultado não foi validado por Londres. A desilusão dos escoceses consigo mesmos tinha mudado a própria percepção da nação como país autónomo. Se nem no futebol os escoceses conseguiam competir com os melhores, como seria sobreviver sem o guarda-chuva institucional de Londres?

Ironicamente, a decisão do governo labourista de incluir a cláusula de participação mínima resultou ser a sua perdição. O partido nacionalista escocês, com poder suficiente no parlamento para invocar uma moção de censura, decidiu encostar o governo de Downing Street contra a parede. Foi o golpe de sorte que o partido conservador, então na oposição, necessitava. Foram convocadas eleições antecipadas e contra toda a expectativa o Reino Unido elegeu como primeira-ministra uma política que poucos conheciam. Chamava-se Margaret Tatcher. Com ela os escoceses iriam viver os seus anos mais duros dentro do Reino Unido, pagando o preço da sua ousadia.

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