De Grosics a Valdés: o guarda-redes libero

Saber jogar com os pés não é uma das aptidões que a maioria dos treinadores exijam aos seus guarda-redes. Mas o sucesso do modelo do Barcelona, com Victor Valdés, devolveu a popularidade ao guarda-redes como líbero, uma escola que começou a forjar-se nos anos 50 com Gyula Grosics, o mágico magiar.

O sucesso de Victor Valdés

Durante a sua etapa no Barcelona, uma das exigências constantes de Pep Guardiola aos seus jogadores era a de nunca se esquecerem que Victor Váldes era mais um jogador de campo. A maioria das equipas considera o guarda-redes uma figura estanque, que tem apenas uma missão para cumprir. Mas o técnico catalão é descendente indirecto, através do futebol holandês, da escola centro-europeia. E no meio de toda a filosofia de jogo, de posse de bola e de ataque, uma das ideias base do pensamento desenvolvido pelos teóricos da década de 50 na Áustria, Checoslováquia, Jugoslávia e, sobretudo, Hungria, centrava-se no papel fundamental do guarda-redes como jogador de campo. Baptizaram-nos mais tarde como “guarda-redes liberos” e na história nunca houve muitos nomes próprios que fizessem jus à ideia inicial. Mas os quatro prémio Zamora consecutivos de Valdés, entregues ao melhor guarda-redes do ano em Espanha, fizeram muitos técnicos valorizar a importância de que os homens debaixo dos postes soubessem manejar a bola com a mesma solvência que um jogador de campo.

Nesse contexto Valdés é, unanimente, considerado o melhor do Mundo.

No esquema de jogo do Barcelona funcionava como pivot defensivo, como apoio constante à defesa e, muitas vezes, acabava por funcionar como o melhor seguro de vida nas situações de maior aperto. Um papel em tudo similar ao de Guyla Grosics, o homem que a maioria dos analistas considera que deu origem a esta escola.

O pioneiro do guarda-redes libero

Grosics passou para a posteridade por ser o homem que defendia as redes da mais célebre seleção húngara de todos os tempos, os “Mágicos Magiares” de Puskas, Hidgekuti e companhia. Uma equipa de tração ofensiva que reinventou o esquema táctico WM vigente, com a mobilidade dos seus extremos e avançados interiores e que serviu de base para o 4-4-2 e 4-3-3 que se popularizariam nos anos seguintes. Numa equipa tão ofensiva era dificil prestar muita atenção a um homem que acabava por ter ser menos trabalho que o rival que ocupava o mesmo posto. Mas já à época se começavam a escrever artigos sobre a importância do número 1 húngaro no esquema de Gustav Sebes. Uma das principais missões de Grosics era sair a jogar com a bola pelo chão, sem recorrer a lançamentos longos. Muitas vezes o guarda-redes saía da própria área com a bola controlada e servia de apoio ao jogo dos seus defesas quando as linhas de passe para os interiores se fechavam. O húngaro começou uma escola que não teve a continuidade esperada, essencialmente porque a maioria dos técnicos apostava por abordagens mais conservadoras do que a Húngria que provocou a primeira derrota inglesa no estádio do Wembley.

De Jongbloed a Higuita, os herdeiros

No entanto isso não significou que o papel do guarda-redes libero tenha desaparecido.

Com o passar dos homens os homens da grande área foram forçados a desenvolver técnicos de controlo e posse de bola e, apesar da maioria não arriscar sair da sua posição regularmente, a sua preparação técnica e táctica era, em média, bastante superior à da maioria dos contemporâneos de Grosics. Um dos expoentes máximos dessa evolução apareceu, naturalmente, na primeira equipa que seguiu à letra o ideário da Hungria dos anos 50: a Laranja Mecânica.

Jan Jongbloed, conhecido pela excentricidade de defender sem luvas, foi também um dos mais populares guarda-redes libero da história, jogador sempre preparado para sair a jogar com a bola e a ocupar espaços sem ela habituais do líbero, quando este saía com a bola em movimento para desenhar os lances de ataque. Essa foi a escola que Michels, e mais tarde Cruyff, trouxeram até Barcelona e que conquistou Guardiola, um técnico que encontrou em Valdés o homem perfeito para recuperar esta herança. No entanto, entre os dias de Jongbloed e de Valdés, surgiram outros exemplos de guarda-redes com um apetite contrastado pela ocupação do espaço originalmente destinado ao libero, uma posição que com o tempo foi desaparecendo dos esquemas tácticos. O colombiano René Higuita, o zairense Bruce Grobbelaar, o francês Fabien Barthez ou o camaronês Thomas Nkono ganharam parte do seu protagonismo mediático precisamente por se portarem em campo muitas vezes como um jogador mais.

Uma opção de risco calculado

O uso do guarda-redes libero está destinado a ser uma excepção que confirme a regra de que para a maioria dos técnicos o sistema táctico continua a ser lido com apenas dez jogadores em vez do mais correcto 1-4-3-3, por exemplo. Grosics e Valdés parecem-se mais do que o guarda-redes catalão e o seu compatriota Iker Casillas.

Mas isso também sucede porque o Barcelona de Guardiola é um descendente dessa Hungria inesquecível e apenas um primo muito distante do Real Madrid de Mourinho, herdeiro de outro ideário táctico que sempre olhou para o guarda-redes com a desconfiança de quem não acredita em variantes que não pode controlar. De tempos a tempos o futebol acaba por brindar os espectadores com um guarda-redes distinto, com outra capacidade de abordar o jogo. Serão sempre a excepção, mas desde o principio da década de 50 são, também, um dos atrativos tácticos mais audazes deste jogo a que chamam futebol.

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