De Glasgow a Manchester, a história do passe Como o futebol de passe do Queen´s Park evoluiu por Londres, Amsterdão e Barcelona antes de chegar a Manchester.

Para evitar a superioridade física evidente dos ingleses, em 1872 uma equipa de futebolistas escoceses desenhou um plano de jogo alternativo. Passar a bola em lugar de correr com a bola. Sem o saber assentaram as bases do futebol moderno e criaram uma linha genealógica que resiste até aos dias de hoje seguindo uma direcção precisa e linear, da Glasgow do século XIX até à Manchester do século XXI .

O primeiro jogo internacional da história

No meio da vertigem, chegou a calma.

Em 1872 a selecção da Inglaterra mediu forças com a Escócia naquele que foi o primeiro jogo internacional oficial da história. A maioria dos internacionais ingleses eram compostos por equipas amateurs do sul do país, formada nas melhores universidades e colégios e praticavam um jogo muito similar ao das décadas anteriores, tacticamente desorganizado, com um defesa, dois centro-campistas e sete avançados, apostando sobretudo numa modalidade de sprint vertical constante. Cada jogador com a bola tinha o dever de correr com ela na direcção da baliza contrária, acompanhado pelos colegas que deviam estar preparados para recuperá-la em caso de perda e seguir em frente à procura do golo. Era um modelo muito parecido ao praticado pelo rugby – à altura a divisão dos dois desportos ainda era ténue – e físico. Sabendo-se inferiores nesse capitulo, os onze escoceses, todos eles jogadores de um clube de Glasgow apelidado Queen´s Park, decidiram-se por um modelo alternativo. Iam colocar apenas seis homens no ataque, desviando um deles para uma posição defensiva, e dedicar-se a trocar a bola entre eles desgastando as correrias dos ingleses e esperando o momento certo para atacar. A decisão surpreendeu os ingleses e os dois modelos, tão opostos, anularam-se acabando o jogo num empate a zero. Da imprensa inglesa chegaram as críticas de anti-jogo dos vizinhos ao norte mas a decisão dos escoceses foi determinante para a evolução do futebol nas décadas seguintes. A escola do passe tinha nascido anos antes nos campos de Glasgow e atingido nessa tarde a sua maioridade. Sua seria a vitória definitiva.

Os guardiões do passe

Glasgow. Londres. Amesterdão. Barcelona. Manchester.

A evolução da história do passe pode ser contemplada em linha cronológica e genealógica. No caso da primeira, é nessa tarde em 1872 que nasce para o mundo e será nas décadas seguintes que dará os sucessivos passos que a consagrem. Mas olhando mais profundamente é possível traçar outra linha, mais vertical e directa, na sua versão mais ortodoxa e purista. Hoje é impossível olhar para qualquer equipa de futebol e não ver traços daquela Escócia. Já no virar do século XX o passe era uma realidade do jogo de qualquer onze, com maior ou menor presença.

Os cem anos seguintes apenas serviram para, isso mesmo, determinar que equipas procuravam dar mais e menos passes – jogando com a posse ou abdicando dela – para alcançar os seus objectivos. O que alguns fizeram foi, no entanto, ir mais longe, e preservar a herança emocional da cultura do passe tal como tinha sido idealizada na sua origem. E essa escola seguiu uma linha muito concreta de lugares e nomes próprios que derivou, naturalmente, noutras sub-escolas igualmente importantes. E se esses lugares são espaços físicos concretos, também o são os nomes dessa linha de sangue puro que começou a forjar-se com os primeiros internacionais escoceses e que depois passou para as mãos de Peter McWilliam, Arthur Rowe, Bill Nicholson, Vic Buckingham, Rinus Michels, Johan Cruyff e Pep Guardiola, os guardiões do futebol de posse.

Tudo começou com o Queen´s Park, nos campos de Glasgow. A equipa forjada entre vários amantes locais do “football association” nasceu em 1867, um ano depois da primeira regra do fora-de-jogo ter sido revista pela Football Association. A decisão de contar três rivais para determinar um offside favorecia a cultura do sprint e inicialmente o Queen´s Park rejeitou-a, disputando os seus jogos com a sua própria regra de um homem ser suficiente para gerar uma posição irregular, algo habitual numa década em que coexistiam distintos regulamentos no Reino Unido. Anos depois finalmente aceitaram integrar a ideia da F.A. mas a sua cultura de jogo de toque e não de sprint era já praticada regularmente e quando foi convocado o primeiro duelo internacional, foram os onze jogadores do clube os eleitos para representar o país já que na ausência de uma federação própria eram os que detinham maior prestigio. Depois do empate e das críticas dos ingleses os escoceses formaram a sua própria federação e continuaram fieis ao estilo do Queen´s Park, que se foi divulgando pelos restantes clubes locais dando origem aquela que foi, provavelmente, a primeira escola de jogo do mundo. No final do século a importação massiva de escoceses pelos já semi-profissionalizados clubes ingleses, sobretudo na zona do Lancashire com o Blackburn Rovers á cabeça, ajudou a transportar a ideia do futebol de passe para Inglaterra e as tours de vários clubes escoceses e ingleses – com maioria de futebolistas de origem a norte da muralha de Adriano – transportaram a semente para distintos pontos do clube onde fervilhou à sua maneira, desde a escola danubiana no antigo império Austro-Húngaro e na vizinha Alemanha ao estilo de jogo platense na América do Sul sem esquecer a importância de cidades portuárias como Génova, Bilbau, Copenhague, Roterdão ou Marselha ou ainda os colégios de elite inglesa na Suíça que difundiram a ideia na vizinha Itália ou até cidades com Barcelona. O certo é que se o futebol de passe se fez omnipresente, a ideia original seguiu um rumo muito próprio e estabeleceu-se por direito próprio em Londres a partir de 1912 com a chegada á cidade de um dos homens mais influentes e esquecidos da história do futebol, Peter McWilliam.

McWilliam, o Guardiola dos anos 20

Internacional escocês, forjado na escola do Inverness Thistle, McWilliam nasceu em 1879, numa altura em que o futebol de passe já era a norma na Escócia e com esse ADN cresceu e fez-se jogador profissional, cruzando, com tantos outros, a fronteira em 1902, com apenas 23 anos, para assinar pelo Newcastle, uma das grandes potências da época precisamente à custa da massiva importação de escoceses para as suas filas.

Em St. Jame´s Park fez-se célebre durante a primeira década do século XX como um jogador tecnicamente dotado e com um sentido táctico extremamente apurado.  Ajudou a guiar a equipa a três títulos ingleses nessa década como o seu playmaker, antes de reformar-se em 1911 e assumir o posto de treinador vitima de uma grave lesão num jogo internacional entre a Escócia, da qual era o capitão, e Gales. Conhecido como “Pedro, o Grande”, pelo seu talento, McWilliam era a viva representação do ideário de jogo de passe, toque e posse preconizado pelo Queen´s Park décadas antes e com bom motivo. Nos seus dois primeiros anos em Newcastle, McWilliam jogou ao lado de Robert Smyth McColl, um dos maiores jogadores escoceses de sempre. McColl tinha-se formado no próprio Queen´s Park e aprendido de primeira mão a lição dos mentores do jogo de passe e levou esse conhecimento em 1899 para Newcastle, assentando as bases de uma ideia de jogo que encontrou em McWilliam a sua melhor expressão em campo. O testemunho tinha sido passado e a árvore genealógica seguido o seu rumo, ao sul.

Em 1912 McWilliam mudou-se para Londres onde assumiu a liderança do Tottenham Hotspurs. A sua primeira experiência, marcada pelo hiato provocado pela I Guerra Mundial, não terminou bem já que os jogadores locais, adeptos de um modelo mais vertical, não eram capazes de por em prática a sua filosofia mas com o reatar da competição depois da guerra tudo mudou. Uma nova geração de jogadores assumiu protagonismo e os Spurs não só venceram em 1920 o título da Second Division como no ano seguinte triunfaram na final da FA Cup, acabando em segundo lugar a sua primeira época na primeira divisão em quase uma década. O seu estilo foi-se estabelecendo e apesar de um hiato a dirigir o Midlesborough e uma recusa para suceder a Herbert Chapman ao leme do Arsenal – tal era o respeito que gerava a sua figura – voltou em 1938 aos Spurs para lançar as sementes do que seria o futuro do futebol mundial. McWilliam encontrou o seu antigo clube de novo na Second Division e com vários jogadores jovens ávidos de aprender com ele, entre os quais se destacavam Bill Nicholson, Vic Buckingham e Arthur Rowe. A “Tottenham Way” era já imagem de marca do clube mas com as lições de McWilliam encontrou nestes três jogadores os seus maiores embaixadores.

Rowe sucedeu a McWilliam ao comando do clube depois da II Guerra Mundial e instaurou um modelo de jogo conhecido como “Push and Run” que era, nem mais nem menos, que a primeira expressão britânica do que viria a ser o “Futebol Total”, com um jogo de constantes apoios entre as distintas linhas e apoiado sempre no passe curto e no jogo de posição. Nicholson sucedeu a Rowe e elevou a fasquia, transformando o próprio Spurs nos anos sessenta num dos clubes mais atractivos do futebol mundial, conquistando títulos em Inglaterra e na Europa e demonstrando que entre o “kick and rush” habitualmente praticado nos campos ingleses havia espaço ainda para o ADN escocês sobreviver. Buckingham, esse, teve de emigrar para encontrar espaço para espalhar a sua mensagem e foi em Amesterdão e Barcelona onde encontrou aqueles que estavam dispostos a ouvir.

A origem britânica do Futebol Total holandês

Nascido em Greenwich, em 1915, Buckingham teve uma brilhante carreira como jogador do Tottenham nos anos trinta e quarenta, primeiro ás ordens de Peter McWilliam e depois de Arthur Rowe, que tinha sido igualmente seu colega no terreno de jogo. Quando em 1949 se retirou, iniciou uma carreira como treinador por clubes sem grande expressão até que em 1953 aceitou o convite de um modesto clube holandês chamado Ajax para tomar controlo do clube.

Em Amesterdão, Buckingham estabeleceu as bases do que seria a escola do Futebol Total. Não só porque foi treinador dos seus dois maiores profetas, Rinus Michels numa primeira etapa e Johan Cruyff mais tarde, como também aproveitou o atraso táctico dos holandeses para ultrapassar a negatividade do WM e apostar directamente na escola escocesa do passe, instaurada desde a mais tenra idade com a formalização de uma política de formação em que, desde os mais pequenos à primeira equipa, todos jogavam do mesmo modo. Foi o introdutor na Holanda da cultura do passe e do toque e do jogo de posição aprendido com os seus mentores em Londres. Em 1960 conquistou o seu único título com o clube, antes de partir para Inglaterra onde passou os três anos seguintes com o Sheffield Wednesday antes de voltar a Amesterdão para devolver o clube á elite, depois de uma breve etapa de domínio do Feyenoord. Nessa segunda passagem lançou um precoce adolescente chamado Johan Cruyff à primeira equipa mas os resultados não o acompanharam e partiu para um breve périplo que em 1969 o levou a Barcelona. Na Cidade Condal, com um clube em profunda crise, repetiu o processo e assentou os conceitos de jogo de passe e posição que eram a sua cartilha técnica.

Poucos estavam preocupados em ouvi-lo mas um dos seus discípulos, Laureano Ruiz, tomou nota. Graças a ele nasceu a ideia de La Masia – que só seria realidade quase uma década depois – e também de um estilo de jogo que hoje todos identificam com os blaugrana. Ruiz foi um dos que melhor soube exprimir as ideias de Buckingham mas o clube realmente só deu o salto quando os dois holandeses que tinham aprendido directamente com ele, em Amsterdão, chegaram à cidade.

Amesterdão-Barcelona, a conexão do jogo de posição

Depois da saída de Buckingham o clube ajaccied virou-se para um dos jogadores mais consagrados da casa para tomar as rendas do clube. Rinus Michels era um treinador autoritário, frio e exigente mas era também um excelente aluno. Tinha bebido durante anos de Buckingham as suas ideias e partilhava-as completamente. Também tinha entendido que, para as mesmas serem eficazes, o clube tinha de acompanhar os tempos e exigiu assim um profissionalismo assumido, melhorias nas condições de treino, de recuperação física e dedicação exclusiva dos futebolistas, até então semi-profissionais. A ideia de Buckingham encontrou o espaço certo para crescer e com Cruyff, que tinha ficado impressionado com a clarividência do técnico inglês, Michels forjou uma parceria histórica que levou o Ajax ao seu apogeu colocando em prática a escola escocesa de passe aliada a novos conceitos como o pressing, a armadilha do fora de jogo e a troca constante de posições em cada linha, abandonado o 2-3-5 de Buckingham pelo 1-3-3-3 que a chegada do sérvio Vlasovic permitiu aplicar.

Em 1971, depois de vencer a Taça dos Campeões Europeus pela primeira vez, Michels aceitou a oferta do Barcelona para suceder ao seu mentor. Três anos depois seria Cruyff quem o seguiria. Ambos encontraram em Laureano Ruiz, técnico nos quadros do clube, um aliado e em Charly Rexach, outro antigo jogador de Buckingham, um cúmplice e entre todos forjaram uma identidade colectiva de jogo que ganhou forma duas décadas depois já com a Masia em pleno funcionamento e com Cruyff como treinador principal e Rexach como o seu fiel adjunto. Durante o período que mediou a chegada de Buckingham e a consagração europeia de Cruyff, o Barcelona passou por distintas etapas mas a base estava montada e a semente foi crescendo. A presença na final de Wembley de um adolescente chamado Pep Guardiola, formado na Masia que Buckingham tinha idealizado com Laureano Ruiz e a quem Cruyff começava a dar relevância depois de duas décadas em que o jogador formado em casa era visto no Camp Nou com males olhos, permitia encerrar o ciclo. A revolução, essa, continuaria.

Manchester, o regresso da escola do passe

Depois do êxito do Queen´s Park, a finais do século XIX qualquer clube inglês com ambições tinha procurado contar com vários jogadores escoceses nas suas filas. O Lancashire tornou-se no grande embrião britânico do futebol nessa viragem de século e foi desse pequeno micro-cosmos que saíram os pais do jogo de distintos países e os fundadores de distintas escolas. Apesar da filosofia mais purista ter crescido em Londres, na zona noroeste de Inglaterra a cultura do passing game tinha tido sempre defensores acérrimos, desde o Liverpool de Bill Shankly, o Nottingham de Brian Clough ou o Manchester de Matt Busby. Nenhum tinha dado o passo definitivo e abraçado a ortodoxia do modelo londrino dos Spurs ou do seu equivalente europeu na forma do Ajax ou Barcelona mas se havia espaço em Inglaterra para que a ideia florescesse, era aí.

Não surpreende então que o ciclo se tenha fechado em 2016 com a chegada a Manchester, o centro nevrálgico da região, de Pep Guardiola. O imberbe adolescente daquela final de 1992 em Wembley e do grito entusiasmado nacionalista no balcão da câmara municipal de Barcelona tinha dado lugar, duas décadas depois, ao expoente máximo da ideia iniciada quase século e meio antes pelos escoceses do Queen´s Park. Discipulo predilecto de Cruyff, dentro e fora do terreno de jogo, Guardiola irrompeu em 2008 em Barcelona como treinador principal dos blaugrana e levou a ideia do jogo de posição e da escola do passe a uma nova etapa evolutiva, abraçando as ideias originais dos seus mentores e explorando novas realidades do jogo moderno, fazendo bom uso da sua própria origem, a Masia, contando para isso com uma geração de talento aparentemente inesgotável na forma de Xavi Hernandez, Andrés Iniesta, Sergio Busquets, Gerard Piqué, Victor Valdés – que ajudaram a transportar essa ideia para as filas espanholas, com o respectivo êxito e reconhecimento internacional – e um joker inesperado na figura de um pequeno gigante argentino chamado Lionel Messi. Depois do triunfo e da aclamação popular em Barcelona chegou a passagem por Munique, cidade onde a cultura do futebol de passe tinha chegado por outra escola, a danubiana, nos anos sessenta, fruto da influência jugoslava, mas com quem se partilhavam ideias e filosofia mais do que diferenças. Em 2016 no entanto, Guardiola assumiu o desafio de devolver o futebol de passe ás suas origens e assinou pelo Manchester City colocando assim um ponto final no fluxo histórico de uma filosofia de jogo que manteve a sua linha genealógica bem viva. Ao mesmo tempo que os discípulos de Cruyff se mostravam activos um pouco por toda a geografia europeia – e que outras escolas de jogo se aproximavam das mesmas ideias a partir de um principio base, o do jogo de posição e da escola do passe – Guardiola transformou o Manchester City no fiel reflexo das suas ideias de jogo e com elas recuperou a filosofia da “Tottenham Way” de Nicholson, Rowe e McWilliam, do “Futebol Total” de Michels ou do “Cruyffismo” do Barcelona. No fundo, adaptando uma ideia aos tempos modernos – à velocidade do jogo, á gestão dos espaços e dos recursos – Guardiola não fez mais do que viajar no tempo e devolver o jogo ás suas origens, à fonte principal. Nas camisolas azul claras do City os jogadores do Queen´s Park voltaram á vida e o futebol do futuro pôde, de novo, beber directamente da origem para ultrapassar novas barreiras. A herança directa de uma ideia tinha percorrido o seu caminho, de Glasgow a Manchester, para chegar mais rica do que nunca e também mais fiel do que nunca ao seu ideário original.

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