Em 1974, no auge da Guerra Fria, um jogo do Mundial de Fuebol colocou frente a frente dois países que nem sequer se reconheciam oficialmente num dos duelos desportivos mais complexos e emocionalmente intensos da história. O inesperado triunfo dos underdogs de Leste apenas serviu para aumentar a lenda de noventa minutos que acabaram por resumir perfeitamente o surrealismo de um conflicto silencioso.

Um momento para a posteridade

A história do encontro entre Alemanhas no Mundial de 1974 tem muitos nomes. Nenhum deles tão seco e franco como a designação que os próprios germânicos imprimiram a um jogo que nunca tinham visto nem voltariam a ver. Porque tudo aquilo que rodeou o duelo mais político da história dos Mundiais foi assim. Seco e franco. No final dos noventa minutos houve apenas futebol. Nada do que aconteceu antes ou depois deste encontro de irmãos poderia ter sido previsto semanas antes do jogo ter tido lugar em Hamburgo. Uma série de factores permitiram que o guião escrito para esse capítulo da história dos Mundiais tivesse um valor suplementar com importantes consequências políticas e sociais. Entre soldados fortemente armados, helicópteros e forças especiais, uma brisa de total normalidade desmontou o puzzle de paranóia que foi, no fundo, a Guerra Fria. Contra todas as expectativas, os irmãos alemães separados comportarem-se como velhos parentes reencontrados. As suas respectivas lutas eram com outros. Em campo a bola não era o único denominador comum entre os vinte e dois jogadores que disputaram um encontro carregado de simbolismo. Para eles, os protagonistas, o futebol não era uma arma ideológica. Eles estavam em Hamburgo para vencer e seguir em frente sem ressentimentos passados. E ambas equipas tinham razões para sentirem que os seus principais inimigos estavam não do outro lado do campo mas sim nos seus próprios centros de estágio.

Um país fictício à procura de uma identidade

Muito se especulou sobre o que realmente se passou a 22 de Junho, no Volksparkstadion em Hamburgo.

O destino tinha sido irónico. Pela primeira vez a República Democrática da Alemanha tinha carimbado a classificação para a fase final de um Mundial. Entre todos os estados a leste da cortina de ferro, os alemães eram claramente o país com pior registo futebolístico. O autoritário de governo Walter Ulbricht tinha criado um programa olímpico único, um dos poucos capazes de ombrear com as super-potências americana e soviética. Um programa à base de uma rotina de treinos espartana e de uso recorrente de substâncias dopantes. Era o orgulho do país. O futebol, pelo contrário, tinha sido sempre o patinho-feio da RDA. A sua liga nacional era a chacota do país. Os clubes nasciam e morriam conforme os interesses políticos determinavam. Equipas mudavam de nome e cidade por capricho das autoridades. E quase sempre ganhavam os mesmos, os clubes associados ao exército, à polícia e à STASI, os serviços secretos. Ninguém se preocupava em excesso por acompanhar um campeonato viciado à partida e a selecção nacional ressentia-se disso. Ainda assim por três vezes tinham estado a ponto de qualificar-se para uma grande competição internacional. Sempre sem sucesso. Até que chegou o Outono de 1973. A 26 de Setembro, em Leipzig, os germânicos derrotaram por 2-0 a favorita do grupo, a Roménia. Necessitavam apenas de um empate, na última ronda, com a Albânia para se apurarem para o seu primeiro Mundial. Os albaneses foram goleados. Ironicamente poucos saíram à rua para celebrar. Desde 1961 que o muro construído em Berlim fechou definitivamente a Cortina-de-Ferro. A Europa estava fisicamente dividida em duas partes.

Os alemães de leste sentiam-se presos no meio. Viviam num estado artificial, criado apenas por capricho soviético. Um país sem tradição a que acudir, sem herança cultural própria para fazer sentido. Um verdadeiro laboratório do ideal comunista defendido por Estaline na sua tentativa de criar um cordão de protecção à volta da União Soviética. Ao contrário dos seus vizinhos do Bloco de Leste, países com história, tradição e um forte sentimento de repulsa pela ocupação soviética, os alemães de leste não sabiam o que pensar da sua própria existência. Muitos tinham família do outro lado do Muro, alguns tinham as suas origens no que a Europa agora conhecia como República Federal. As autoridades comunistas exigiam-lhes que odiassem os seus vizinhos capitalistas mas quase ninguém se preocupava em pensar muito nisso. A maioria não queria desertar, procurava, pura e simplesmente, que este caos emocional de dois países que no fundo eram apenas um chegasse ao fim. Para a maioria qualquer triunfo que significasse a exaltação do regime não era motivo de celebração. Particularmente se a selecção que equipa de azul tinha acabado de carimbar o bilhete para disputar o Mundial do outro lado, na terra onde viviam os seus irmãos.

A situação tornou-se ainda mais complexa quando o sorteio da FIFA ditou que as duas Alemanhas seriam colocadas no mesmo grupo. Hoje isso seria impossível mas na altura ninguém se preocupava com esses critérios. No entanto não deixava de ser um imbróglio diplomático. Willy Brandt, chanceler alemão, tinha sido um dos principais defensores da aproximação institucional das duas Alemanhas e em 1971 foi premiado com o Nobel da Paz. No ano seguinte conseguiu que os dois estados se reconheceram oficialmente como tal. A tinta desta renovada Ostpolitik ainda não estava seca quando se colocou um novo obstáculo. Os serviços secretos britânicos do MI6 descobriram que o governo comunista da RDA tinha um espia colocado nas altas esferas do governo vizinho. Depois de um ano de investigações o agente infiltrado foi descoberto. Chamava-se Gunter Guillaume e era, nem mais nem menos, que o secretário de confiança de Brandt. O chanceler foi forçado a dimitir-se a um mês de iniciar o Mundial e subitamente as relações entre as duas Alemanhas voltaram a um nível de elevada tensão emocional. Ninguém sabia como lidar com a situação. Os meios de comunicação social controlados pelo regime comunista aproveitaram a ocasião para exaltar a selecção orientada pelo veterano Georg Buschner a derrotar “o modelo capitalista”. Na realidade todos eram conscientes da superioridade clara dos vizinhos. Talvez por isso a selecção da RDA partiu para a sua base a ocidente sem qualquer tipo de pressão. Ninguém contava com eles e sem um genuíno apoio popular não havia a quem agradar, salvo aos directivos do partido. E estes tinham informado o staff que se conformavam oficiosamente com uma prestação digna e um comportamento exemplar. Em troca, obtiveram um prémio que não esperavam.

A traição de Malente

Campo de treinos fechado. Guardas militares armados rodeavam o relvado, com as espingardas sempre preparadas. O ruído dos helicópteros podia ser ensurdecedor. Ninguém entrava ou saía sem ser revistado várias vezes. A imprensa seguia os exercícios a uma distância prudente. Malente parecia um gulag perdido no meio da Alemanha. Mas a equipa que aqui estagiava não vinha do outro lado do muro. Debaixo do mais obsessivo plano de protecção policial, os jogadores da Alemanha Ocidental tentavam esquecer-se que estavam a dias de dar o pontapé de saída para o seu Mundial. Não era fácil. Habituados à disciplina, até para os mais exigentes futebolistas germânicos sentiam que as medidas eram desproporcionadas. Dois anos antes um grupo de comandos palestinos tinha assaltado a vila Olímpica provocando a morte de vários atletas israelitas. A polícia alemã nunca se perdoou pela evidente passividade dos seus operativos. Dois anos de atentados e ameaças das Brigadas Vermelhas, uma das bandas terroristas mais perigosas do continente, foi mais do que suficiente para que as autoridades germânicas considerassem todos os movimentos da Mannschaftt como de alto risco. Para evitar problemas a habitual concentração da equipa transformou-se numa questão de estado. E os jogadores foram enviados para um campo a vinte quilómetros do mar do Norte.

O ambiente não podia ser pior. A Alemanha tinha vencido dois anos antes o Europeu de futebol. Era a primeira vitória internacional do país desde o “Milagre de Berna”. Em 1954, a selecção de um país que ainda vivia o futebol como um desporto amador, surpreendeu o Mundo ao superar a favorita Hungria na final. Um título mundial inesperado mas com uma importância social única. Dez anos depois do final da guerra, ainda com muitos prisioneiros a regressarem a casa das prisões soviéticas, o triunfo de Fritz Walter e companhia tinha dado uma injecção de moral única ao povo alemão. O nacionalismo, banido durante anos por receio de uma associação das potências internacionais a um reavivar dos ideais nazis, voltou a fazer sentido e milhões de alemães saíram às ruas com as suas bandeiras para vitoriar os campeões no seu regresso a casa. A partir desse momento tudo mudou. A economia alemã arrancou para duas décadas de crescimento sem paralelo e o futebol germânico finalmente fez-se notar. Oito anos depois o profissionalismo foi finalmente instaurado e depois de perder a final do Mundial de 1966 e de terminar o Mundial de 1970 em terceiro lugar, o orgulho dos alemães estava restaurado.

A vitória no Europeu de 1972 foi o resultado da fusão de duas das melhores equipas do futebol europeu numa só. O Bayern Munchen de Franz Beckenbauer, Gerd Muller, Paul Breitner, Sepp Maier, George Schwarzenbeck encontrou-se com o Borussia Monchengladbach de Gunter Netzer, Berti Vogts, Jupp Heynckhes e Herbert Wimmer. Os alemães tinham ganho o torneio em estilo, sem rivais à sua altura e agora que o Bayern Munchen era campeão europeu de clubes, acabando com a hegemonia holandesa na competição, o céu era o limite. Mas o grupo de jogadores estava preocupado com questões mais terreais.

Praticamente sem contacto com o mundo exterior, os jogadores viviam num regime quase monascal. Sobretudo tinham muito tempo livre entre as mãos e como não podiam abandonar a concentração, dedicavam-no sobretudo a conversar com os poucos jornalistas que tinham sido autorizados a visitar o centro. Numa dessas conversas, surgiu a debate a discussão dos prémios económicos pela conquista do Mundial. Paul Breitner, um maoistas de coração com um ventríloquo capitalista, confessou a um jornalista que ninguém da federação alemã tinha levantado o assunto. “Quando a prova acabar falamos de dinheiro”, foi a resposta que tinha recebido de Hans Deckert, o chefe da delegação. Era a tradição germânica. Um dos jornalistas confidenciou-lhe então que sabia que aos jogadores italianos lhes tinham sido prometidos 120 mil marcos por cabeça em caso de vitória. Os holandeses, para a maioria dos analistas os favoritos a vencer a competição, receberiam 100 mil marcos cada. A revelação foi como um murro no estômago de Breitner que rapidamente colocou ao corrente todos os jogadores. Sentindo-se tratados como animais em jaula, os futebolistas amotinaram-se. Queriam ser pagos à altura da competição e ao mesmo nível que os seus rivais. E estavam preparados para boicotar o Mundial se assim fosse necessário. Beckenbauer, capitão de equipa, tentou colocar um pouco de ordem. Ofereceu-se para falar pessoalmente com Deckert e o seleccionador, Helmut Schonn, e resolver o problema. Enigmaticamente, o “Kaiser” perguntou aos dirigentes qual era o valor que estavam a ponderar como recompensa por um hipotético título mundial. A resposta foi seca e fria: 30 mil marcos por cabeça. Sem pestanejar, Beckenbauer respondeu que nenhum aceitaria menos do que 100 mil. Num leilão improvisado, Deckert subiu a sua oferta até 50 mil e os jogadores baixaram a sua para 75 mil. E de repente ninguém se moveu das suas trincheiras. Ninguém, salvo um homem. Helmut Schon.

O seleccionador alemão era um homem da velha guarda, um gentleman do futebol. Para ele este torneio era especial. Tinha sido o fiel adjunto de Sepp Herberger, o homem responsável pelo “Milagre de Berna”, durante uma década. Dele tinha aprendido os valores do desporto alemão, a capacidade de gestão de grupos e uma importante lição: que a pátria estava por cima de tudo. Discutir frivolidades como prémios de jogo, pensava Schon, era um insulto à honra que significativa para um jogador vestir a camisola do seu país. Num ataque de fúria, interrompeu as negociações e comunicou aos jogadores alemães que se não acabavam com o boicote a equipa seria dispensada ao completo e vinte e dois novos jogadores seriam convocados em seu lugar. Depois disso, fechou-se no seu quarto, pegou no telefone e ligou para Hamburgo, onde apresentou a sua demissão a Hermann Neuberger, dirigente da Federação, caso este não se posiciona-se ao seu lado. Sem que o Mundo se desse conta, os anfitriões estavam mergulhados no caos. A noite foi longa. Por um lado havia jogadores já com as malas feitas e preparados para partir mesmo se um acordo fosse alcançado por uma questão de orgulho. Por outro os seus colegas que tentavam persuadi-los a ficar e lutar pelos seus direitos. Schon encerrado no seu quarto preparando já uma nova convocatória. E numa sala aparte, Beckenbauer ao telefone. No meio do temporal, ele era o único que mantinha a calma. Durante duas horas manteve-se ao telefone com os dirigentes da federação em Hamburgo. Já quase ao nascer do sol a DBF fez-lhe uma proposta definitiva: 70 mil marcos. O capitão prometeu falar com os colegas. Democraticamente foi-se a votos no quarto partilhado por Breitner e Muller. Houve um empate. Vendo que a situação não se resolvia, Franz voltou a assumir a liderança. Pediu aos colegas que confiassem nele como capitão e que aceitassem a proposta final. Se fosse necessário ele perderia dinheiro para os compensar. A situação resolveu-se com os primeiros raios de sol. Faltavam apenas cinco dias para o pontapé de saída do torneio e Schon continuava fechado, no seu quarto, sentindo no peito a traição dos seus homens.

O jogo que poucos queriam realmente ganhar

Em campo as duas Alemanhas assumiram cedo o protagonismo do grupo.

No seu primeiro jogo, em Berlim, os germânicos venceram o Chile por 1-0 de forma pouco convincente. O desgaste psicológico tinha passado factura no ritmo de treinos da equipa e alguns dos jogadores do Borussia Monchengladbach não estavam satisfeitos com o protagonismo que Beckenbauer se tinha outorgado dias antes. Netzer, agora no Real Madrid, era um deles. Figura fundamental na conquista do Europeu, dois anos antes, tinha-se transferido para o gigante espanhol contra o conselho de Schon. O seleccionador não lhe perdoou não ter seguido o seu conselho de permanecer na Bundesliga e preparou um onze sem ele. Para tal contribuiu também o conselho do Kaiser. Beckenabauer sentia que a equipa ganhava mais equilíbrio com a presença de Wolfgang Overath, estrela do Colónia, e a sua crescente influência sobre o seleccionador levou a melhor. Nos dois primeiros jogos Netzer não saiu do banco de suplentes e ao triunfo sobre os sul-americanos seguiu uma vitória convincente contra a Austrália e com ela o apuramento matemático. Faltava um jogo, aparentemente sem importância, mas que tinha estado marcado com um imenso x desde o dia do sorteio. A República Democrática, ao contrário do que muitos tinham previsto, também já tinha selado o apuramento depois de uma vitória sobre os australianos e um empate com os chilenos. Longe da imagem que tinha o Ocidente, os alemães de leste jogavam de forma organizada mas sem complexos. Moviam-se rapidamente, funcionavam como um colectivo mas não especulavam com o resultado. O espírito de grupo era alto. Os próprios jogadores pareciam surpreendidos consigo mesmos e face ao encontro mais importante das suas carreiras palpava-se no ar um ambiente descontraído e uma genuína vontade de demonstrar que ás vezes os Davids existe para lá das fábulas. Georg Buschner sabia que o seu rival, Schon, iria querer ganhar este jogo mais do que qualquer outro. O seleccionador da RFA tinha nascido em Dresden, no lado este da cortina, e só a ascensão dos comunistas ao poder no lado oriental o obrigou a fugir apressadamente para o Ocidente. Para ele era uma forma de desforrar-se emocionalmente. O staff da RDA sabia-o e sabia também quão quente era o ambiente em Malente. Se havia um momento em que a História se podia surpreender a si mesma, este era um deles.

Beckenbauer pediu expressamente aos jogadores que fizessem um esforço suplementar por Schon. O seleccionador seguia cabisbaixo e o capitão, que lhe tinha um especial carinho, queria transformar uma vitória sobre a RDA numa forma de reconciliação depois dos problemas vividos durante o estágio. Lamentavelmente para os ocidentais, o Kaiser parecia o único realmente interessado em vencer o jogo a todo o custo. Confortáveis com um empate que lhes garantia o primeiro lugar no grupo, incomodados com a possibilidade de ter de defrontar na segunda ronda as selecções da Argentina, Holanda e Brasil, os restantes jogadores entraram no Volksparkstadion mais relaxados do que era habitual. Do outro lado estava uma equipa mais motivada do que nunca. Pela primeira vez os jogadores recebiam um tímido apoio das bancadas. Dois mil membros do Partido Comunista da Alemanha de Leste, escolhidos a dedo, realizaram a viagem entre Leipzig e Hamburgo de autocarro para marcar presença no estádio. Não lhes era permitido parar pelo caminho e uma vez finalizado o jogo iniciariam a viagem de regresso a casa. O medo a uma deserção em massa ainda era grande mas para surpresa dos membros infiltrados da STASI, o ambiente entre os seguidores era de genuíno fervor nacionalista. Pelo caminho os adeptos da RDA puderam testemunhar como os cidadãos do país vizinho os recebiam com bandeiras e aplausos. O mesmo tinha sucedido à Mannaschaft depois do primeiro jogo em Berlim. Por questões de segurança a viagem rumo ao centro de estágio foi feita de autocarro, em pleno território comunista, e os jogadores viram das janelas do autocarro como os seus irmãos de leste os aplaudiam com genuíno orgulho. Era impossível um cenário tão complexo provocar algo mais que um duelo do mais cavalheiresco que a história dos Mundiais já viveu.

A Guerra Fria no relvado

As duas equipas cumprimentaram-se efusivamente ao subir ao relvado e ainda que os jogadores da RDA tivessem sido avisados pelos chefes da sua delegação de manter o mínimo possível diálogos com os rivais, as câmaras de televisão captaram conversas animadas entre rivais. Ninguém tinha a mínima intenção de perder mas não havia um só jogador em campo com vontade de vencer o rival por algo mais do que dois pontos. O público, inicialmente preparado para uma recepção ruidosa aos seus vizinhos comunistas, pouco a pouco foi encarinhando-se com a Alemanha de azul. Não houve assobios nem gritos de contestação como as autoridades esperavam. No pequeno canto onde os adeptos da RDA se reuniam com as suas bandeiras nacionais em miniaturas ouviam-se palavras de ordem de apoio à sua equipa. Nada de propaganda política. Só Schon parecia estar incómodo. O seleccionador não gostava da passividade que via no relvado. Tecnicamente superior, a Alemanha Ocidental jogou desde o primeiro minuto com uma cautela extrema.

Depois de criar o primeiro lance de perigo, pelo inevitável Muller, a Mannschafft abrandou o ritmo. Gabrowski, Overath, Beckenbauer e Flohe pareciam mais cómodos em circular o esférico do que em procurar servir Hoeness e Mueller, engolidos pela defesa rival. Buschner tinha preparado a sua equipa para sofrer uma avalanche inicial e alinhou a cinco defesas deixando só, no ataque, o adolescente Hoffman. A ideia era clara. O próprio seleccionador confessou mais tarde o seu plano de jogo. “Sabíamos que éramos inferiores, jogador por jogador. Mas também sabíamos que éramos mais organizados e estávamos mais motivados para vencer e estávamos dispostos a sofrer para aproveitar um ou outro contra-ataque.” A primeira dessas ocasiões aconteceu a meio da primeira parte quando um lançamento rápido apanhou a defesa dos anfitriões desprevenida. Kreiss recebeu a bola frente a um desamparado Maier e fez o mais difícil, disparar longe do alvo. Buschner manteve-se tranquilo. Sabia que teria outra oportunidade mais tarde ou mais cedo.

Durante quase uma hora ambas as equipas esgrimiram as suas armas no meio-campo, procurando agredir-se o menos possível. Schon decidiu romper com uma das suas promessas e chamou Netzer. A estrela mais cintilante da selecção anos antes teria os seus primeiros minutos em campo. A vontade de jogar era pouca. “Percebi que as coisas não estavam a correr bem”, disse mais tarde o médio “e por isso decidi fazer os exercícios de aquecimento o mais longe possível do banco para que não me chamassem para entrar. Tinha um mau pressentimento”. Coisas do destino, os únicos minutos do mago rebelde alemão em campo em todo o torneio coincidiram com o maior drama vivido pelos alemães em casa em toda a sua história.

O herói de Hamburgo

“Se na minha lápida só pusessem Hamburgo 74, todos saberiam de quem se trata”. Anos mais tarde, Jurgen Sparwasser lembrar-se-ia assim do momento que marcou a sua carreira. Longe de ser um grande jogador, era conhecido pelo seu espírito de sacrifício em campo e também um dos membros da equipa do FC Magdburgo que tinha vencido um mês antes do Mundial a Taça das Taças, numa final contra o AC Milan. Era a primeira vitória de uma equipa da RDA numa competição europeia. Seria a única. Sparwasser não marcou na final mas foram os seus golos que provocaram a eliminação do Sporting de Portugal nas meias-finais. Estava escrito que aquele seria o seu ano.

Ao minuto 77, uma incursão pelo flanco direito de Erich Hamman cruzou a linha defensiva alemã. Era um lance ensaiado vezes sem conta por Buschner. Do coração do meio-campo Sparwasser iniciou um sprint para uma zona de ninguém e quando recebeu a bola ajeitou-a ligeiramente com a cabeça para o seu lado direito. Foi o gesto que fez toda a diferença. Se tivesse tentado dominar a bola, o médio teria sido facilmente desarmado por Vogts, que tinha habilmente recuperado a posição. Mas não. O instinto levou-o a desviar-se da frontal da área e com o gesto colocou fora de jogo aos centrais rivais. Maier, o veteraníssimo guarda-redes alemão, lançou-se então aos seus pés, com a esperança de se antecipar a um disparo violento ao ângulo inferior. Mas o homem de azul teve a frieza suficiente de respirar fundo e picar a bola sobre o rival. Durante milésimos de segundo as buzinas que se tinham feito ouvir durante todo o jogo calaram-se. Genuinamente, os adeptos da Alemanha de Leste celebraram efusivamente um golo do seu camarada.

Até os agentes da STASI se permitiram um fugaz sorriso. Schon manteve imóvel. De olhos postos no céu sentia que o seu Mundo se desabava. Os homens em quem ninguém acreditava tinham-se transformado nos improváveis heróis da luta de classes. A Mannschafft não conseguiu reagir nos minutos finais e o resultado manteve-se. E no entanto, o ambiente não podia ser mais contraditório. Os jogadores da RDA recusaram-se a celebrar entusiasticamente a vitória histórica, por respeito aos vizinhos e rivais. As estrelas da RFA, pelo contrário, aparentavam uma tranquilidade pouco habitual numa equipa formatada para ganhar. Contra ordens e sensibilidades alguns dos jogadores chegaram mesmo a trocar de camisolas. O futebol triunfava uma vez mais sobre os conflitos ideológicos. E a Alemanha Ocidental, ferida de morte, transformou a mais humilhante das derrotas na motivação que precisava para cumprir o sonho de uma geração. Poucos dias depois os papéis de heróis e vilões tinham-se invertido.

Do momento mais amargo ao título mundial

A derrota frente aos seus rivais do leste destroçou por completo Helmut Schon. Silenciosamente, o seleccionador regressou ao centro de estágio, fechou-se no quarto e recusou sair. Não houve conferência de imprensa, conversa com os jogadores. Nada. Durante dois dias a comida foi-lhe levada por um emprego do centro, já desfeita, porque Schon recusava-se até a cortar a carne com as suas próprias mãos. Com o seleccionador num estado quase catatónico, a federação alemã virou-se para o único homem que podia salvar a situação. O inevitável Beckenbauer. Neuberger, que tinha viajado de Hamburgo propositadamente com a equipa, chegou a equacionar dispensar Schon e promover o seu adjunto (e futuro seleccionador) Jupp Derwall. Finalmente, foi ao Kaiser a quem os dirigentes pediram ajuda. E Franz deu o passo decisivo para que a Alemanha vencesse o seu Mundial. Reuniu-se com os colegas, explicando-lhes que a partir desse momento era o orgulho de todos que estavam em causa. Não os prémios, não os adeptos. Mas eles próprios. Depois, visitou Schon no seu quarto. Estiveram horas à conversa e quando saíram a federação marcou uma conferência de imprensa de emergência com ambos. O seleccionador apenas murmurou algumas palavras, Beckenbauer foi claro e conciso. A equipa estava envergonhada pelo resultado, pedia desculpa e prometia fazer mais e melhor. Para a segunda ronda de jogos – um novo modelo implementado pela FIFA que substituía a fase de eliminatórias – Beckenbauer instigou Schon a fazer várias mudanças no onze, incluindo as entradas de Holzenbein e Bonhof, futebolistas que se revelariam fundamentais no futuro da Mannschaft.

A RF Alemanha entrou na segunda ronda com outra atitude, batendo por 2-0 a Jugoslávia (que tinha vencido o grupo do Brasil) e num jogo fascinante, derrotando os suecos por 4-2. Num terreno praticamente impraticável, em Dusseldorf, os suecos adiantaram-se no marcador mas os golos de Overath e Bonhof permitiram uma reviravolta em dois minutos. Na jogada seguinte um disparo de Sandberg voltou a colocar a igualdade no marcador. Faltava meia-hora e a dupla vitória da Polónia frente a jugoslavos e suecos obrigava a Alemanha a vencer para manter-se na luta pelo apuramento. Grabowski e Hoeness marcaram os golos da vitória final e a equipa, apupada nos primeiros jogos, saiu do campo debaixo de um coro de aplausos. Três dias depois, em Frankfurt, um dilúvio abateu-se sobre o estádio horas antes de iniciar-se o jogo decisivo. Os polacos pediram o adiamento mas a FIFA não o permitiu. O terreno empapado dava vantagem ao jogo físico dos germânicos frente à velocidade e técnica de Lato, Denya, Zmuda e Gadocha. Durante mais de uma hora os adeptos no Walstadion entenderam o porquê da reticência polaca em jogar. O terreno de jogo estava um desastre e o resultado final seria uma lotaria. A quinze minutos do fim Gerd Muller apontou o único golo da tarde e a Alemanha partiu para Munique com a sensação de que tudo era possível, incluindo a vitória sobre a Holanda. Demoraram dois minutos a assimila-lo. Foi o tempo que a Holanda necessitou para orquestrar o primeiro golo. Trocas de bola sucessivas, um arranque de Cruyff e falta na área de Hoeness. Resenbrink marcou o penalty e a partir desse momento os holandeses esqueceram-se que estavam na final de um Mundial. Pagaram caro o erro de subestimar uma Alemanha rejuvenescida. Beckenbauer liderou a reviravolta, Breitner e Muller apontaram os golos e o tão disputado prémio por vitória na competição de 70 mil marcos acabou nos bolsos dos jogadores da Mannschaftt.

O destino anónimo dos heróis de Leste

Numa habitual ironia, das que tem o destino, os heróis da República Democrática Alemã nunca receberam o mesmo tratamento. A sua segunda fase pautou-se por um bom comportamento – com derrotas esperadas mas sofridas com Brasil e Holanda e um bom empate com a Argentina – mas no regresso a casa os jogadores foram ostracizados pelos próprios adeptos.

O regime de Berlim Oriental tentou vender a sua viagem ao Ocidente como uma vitória mas para a grande maioria dos habitantes do país que se opunha ao regime comunista, os jogadores tinham sido fantoches. A vitória sobre os seus irmãos do Ocidente foi tratada com desprezo, muitos dos jogadores foram assobiados nos próprios jogos em casa das suas equipas e a RDA nunca mais voltou a participar numa competição internacional. Em 1988, Jurgen Sparwasser, o homem do golo mais célebre da história do país, atravessou com sucesso a fronteira e exilou-se no ocidente. Faltava apenas um ano para o Muro cair e com ele a divisão dos irmãos alemães mas nesse gesto simbólico a redenção da noite de Hamburgo completou-se finalmente.

No fim de contas Schon e os seus homens não tinham apenas sido campeões do Mundo. Tinham também vestido a camisola que realmente saiu a ganhar com o Das Deutsch Duell.

 

1.206 / Por
  • Marcelo Cardoso

    Muito bom o texto, com alguns aspetos que eu desconhecia. Pesquisei e tenho registadas todas as campanhas da RDA em qualificações para o Mundial. Vencer esse jogo contra os “ocidentais” não foi uma boa ideia, pois caíram em um grupo mais difícil na segunda fase. E as duas Alemanhas entraram em campo classificadas, pois Chile e Austrália empataram sem golos na primeira partida.

    Sou brasileiro, estou iniciando um Mestrado em História na UMinho e ainda buscando temas de interesse para investigação relacionados com o futebol.

    Um abraço!