O que leva o melhor jogador do campeonato brasileiro a emigrar para a China no auge da sua carreira desportiva? Em 2011 Dario Conta estava destinado a uma carreira de sonho na Europa mas preferiu transformar-se no futebolista mais bem pago do mundo. O perfume dos yens falou mais alto que o cheiro da relva europeia.

O herói inesperado

Entre 2009 e 2010 a imprensa brasileira não repetiu tanto o nome de um jogador como o do argentino Dario Conca.

Ainda não tinha arrancado a febre Neymar e os regressos de velhas glórias como Ronaldo, Deco e Adriano pareciam ofuscados pelo talento de um jogador que chegou ao Rio de Janeiro depois de um arranque de carreira, no minimo turbulento. Três empréstimos sucessivos não pareciam prometer muito para os adeptos do “Flu”. Para o River Plate, clube a quem o jogador pertencia desde tenra idade, era a última oportunidade de tentar encontrar um comprador antes que o seu contrato chegasse ao final. Com 25 anos, Conca estava perante o maior desafio da sua vida.

Oitenta e um jogos depois ninguém discutia sequer as origens de Conca. Apenas o seu talento. Eleito por dois anos consecutivos pela CBF, Placar e Lance! como melhor jogador do Brasileirão, o médio ofensivo argentino tornou-se na coqueluche do campeonato brasileiro. A sua ação de jogo potenciou ao extremo o esquema de Renato Gaúcho e de Muricy Ramalho ao lado de jogadores como Thiago Silva, Thiago Neves, Washington e Cícero. O clube  exibiu-se como há muitos anos os adeptos do Fluminense não viam e em 2008 chegou à final da Copa dos Libertadores, perdendo apenas por penalties com a Liga de Quito do Equador. Dois anos depois voltou a surpreender, triunfando no Brasileirão diante do Cruzeiro e Corinthians.

Na sua Argentina natal poucos davam crédito às suas performances. Afinal este era o jogador que nunca se tinha afirmado no River Plate e que tinha passado relativamente desapercebido nos seus empréstimos anteriores ao Universidad do Chile e Rosario Central. Enquanto muitos esperavam uma mudança para um grande europeu e uma chamada à seleção albiceleste, Conca surpreendeu o mundo do futebol com a sua decisão. A China era o seu destino.

Mais bem pago que Messi e Ronaldo

Antes de se tornar moda importar talentos do futebol mundial, alguns clubes chineses já tinham observadores ativos em ligas importantes para seduzir jogadores que pudessem melhorar a qualidade de uma liga que procura comprar um atalho para a elite futebolistica. Um desses clubes era o Guangzhou Evergande.

A entidade chinesa foi a primeira a tornar-se absolutamente profissional em 1993 quando o grupo Apollo adquiriu o clube, estabelecendo o padrão que muitos outros seguiriam na década seguinte. Um dos seus mercados preferenciais foi, desde o primeiro momento, o brasileiro. Depois de ser despromovido por entrar num escândalo de apostas, o clube foi comprado pelo grupo imobiliário Evergrande que apostou forte em devolver entidade ao topo da liga que conquistara em 2007 pela primeira vez. Em 2010 bateram o recorde de transferências do futebol chinês ao contratar Cleo por 3,2 milhões de euros ao Partizan. No ano seguinte a directiva do clube chegou ao Rio de Janeiro com uma oferta que o histórico clube carioca não podia recusar. E, sobretudo, com valores que o astro argentino seria incapaz de sonhar. Os chineses pagaram ao Fluminense 10 milhões de euros e ofereceram ao jogador um contrato que fazia dele o futebolista mais bem pago do mundo. Mais de 10,6 milhões de euros por cada um dos seus três anos de contrato que o colocavam ligeiramente à frente de Cristiano Ronaldo e Leo Messi como o mais cotado futebolista do futebol internacional.

A estância na China serviu para engordar como nunca a conta bancária do argentino mas, em contrapartida, retirou-o quase definitivamente do radar dos seguidores do futebol internacional. A prometida chamada à seleção argentina nunca veio, os grandes clubes da Europa desinteressaram-se do jogador, ao não poder competir com a sua exigência salarial, e Conca teve de contentar-se em brilhar vencer o campeonato na sua primeira temporada. Pouco a pouco o seu caracter intempestivo, o mesmo que o tinha afastado da fama no River Plate, voltou ao de cima e o jogador acabou suspenso pelo próprio clube por declarações contra o técnico da equipa que parecia dar trato preferencial à nova estrela do conjunto, o paraguaio Lucas Barrios.

Entre o dinheiro e o prestigio

À medida que os milhões tomavam conta do futebol russo, chinês e os investidores árabes pagavam a peso de ouro as suas estrelas em Manchester e Paris, o argentino foi caindo na lista dos mais bem pagos, sendo superado num só ano por Samuel Etoo, Yaya Touré, Sergio Aguero, Didier Drogba, Zlatan Ibrahimovic, Fernando Torres e Wayne Rooney.

Longe da titularidade desde a chegada do italiano Marcelo Lippi, o sonho de transformar-se no futebolista mais rico do Mundo chocou diretamente com a progressão de uma carreira futebolistica que prometia mais do que cumpriu. Aos 29 anos Conca está num beco sem saída, esperando que o contrato com o Guangzhou chegue ao final para voltar a sentir-se futebolista. Nem que seja por menos que um bom punhado de yens.

3.827 / Por
  • João Valente Aguiar

    Esta história valia um bom filme sobre o ascenso e queda de um futebolista. E sobre a própria vida. Como já dizia o outro sobre o grande mágico argentino “la vida es una tombola”.
    Muitos parabéns pelos magníficos textos.
    Um abraço!

    • Miguel Lourenço Pereira

      João,

      Muito obrigado pelas palavras. Sem dúvida o Dario Conca é um dos muitos exemplos do que se podia ser e nunca se é quando os interesses financeiros ultrapassam os meramente desportivos.

      um abraço

  • Muito bom o texto, reflete muito bem os dilemas pelos quais passam alguns jogadores de futebol. Dinheiro ou técnica.
    A imprensa brasileira hoje noticiou que Conca voltará ao Fluminense no próximo ano, a ver. Hoje o Fluminense luta contra o rebaixamento:
    http://oglobo.globo.com/esportes/campeonato-brasileiro-2013/conca-assina-pre-contrato-volta-ao-fluminense-em-2014-10736385

    • Miguel Lourenço Pereira

      Fabio,

      O regresso de Conca é natural. O contrato está perto do fim, sabe que não voltará a ter uma oportunidade como esta e cumpriu tudo aquilo que podia fazer na China. Entre a Europa e a América do Sul estaria sempre o seu futuro e os seus contactos com o “Flu” jogam a seu favor. Será uma adição importante para a equipa carioca.

      cumprimentos

  • Rogério Ferreira

    Primeiramente, gostaria de agradecer pelas aulas constantes as quais sou submetido através de seus artigos.
    Conheci o FM por intermédio da Revista Corner e desde entao já me considero um fã confesso de seu trabalho.
    _
    Sobre o texto, permita-me fazer uma correção. Conca veio a chamar a atenção dos brasileiros depois de grande desempenho na Copa Sul-Americana 2005, quando ainda jogava pela Universidad Catolica do Chile.

    Pouco tempo depois, foi o Vasco da Gama que acabou contratando o meia argentino, em definitivo – precisamente em dezembro de 2006.

    Foi somente depois de uma boa temporada em São Januário, que foi conhecer os encantos das Laranjeiras, quando fora contratado pelo Fluminense, que visava a disputa da Libertadores.

    Saudações!

    • Miguel Lourenço Pereira

      Rogerio,

      Obrigado pelo feedback e pela informação fornecido.