A 29 de Maio o futebol morreu no estádio do Heysel em Bruxelas. Uma semana depois, em Copenhague, ressuscitou. O jogo entre a Dinamarca e a União Soviética marcou uma era.  As duas mais espetaculares seleções dos anos oitenta ofereceram um jogo que revolucionou a história do futebol. A Danish Dynamite marcou um antes e um depois na história do futebol. Na União Soviética dos anos oitenta encontrou o único rival à sua altura.

Um jogo de 2005 em 1985

Seis golos, um ritmo de jogo desconhecido, um grupo de vinte e dois jogadores sem o perfil mediático das estrelas globais que encarnaram o papel de homens do futuro. O jogo mais importante e brilhante de seleções durante a década de oitenta não aconteceu num Mundial, Europeu ou Copa América. Talvez por isso não conste quase nunca das recopilações videos oficiais, dos livros de história ou da memória colectiva. Nessa tarde inesquecível de 5 de Junho de 1985 o jogo foi visto apenas pela televisão dinamarquesa e soviética. O resto do Mundo recebeu a informação à posteriori e não sentiu o seu verdadeiro impacto. Mas esse foi o primeiro jogo do futebol dos nossos dias. Numa era em que o pressing ainda era um conceito estranho a muitos, a preparação fisica um luxo de alguns paises, as armadas dinamarquesa e soviética ofereceram um espetáculo totalmente diferente. Fisicamente impressionantes, os jogadores de ambas as equipas não pararam de correr, de cobrir espaços, de ocupar amplas zonas do terreno de jogo e de pressionar constantemente o rival. A bola rolou a uma velocidade nunca vista até então num jogo entre duas equipas tão parecidas que para os mais distraidos era genuinamente dificil saber quem era quem. Enquanto o resto do planeta futebol continuava a jogar a passo e de forma cautelosa e especulativa, Eduard Malofeev e Sepp Piontekk apontaram o caminho para o futuro. Num ringue improvisado no Idraetsparken, montaram um espetáculo para a posteridade.

O fascínio da Danish Dynamite

Durante a década de oitenta poucas equipas foram tão originalmente apaixonantes como a Danish Dynamite e a União Soviética. Não receberam o mesmo tratamento mediático da França “champagne”, do Brasil que viajou ao Espanha 82, da Argentina de Maradona ou até mesmo da renascida Holanda de Michels. Talvez porque não venceram nenhum titulo. Talvez porque provinham de dois paises que não tinham o impacto mediático suficiente para criar mais empatia internacional. Mas mesmo assim, poucos jogaram durante essa década como os componentes da nostálgica CCCP – tanto com o boémio Malofeev como com o pragmático Lobanovksy – e da Danish Dynamite. Quis o destino que ambos se cruzassem na fase de apuramento para o México 86. Os dinamarqueses tinham-se apresentado ao Mundo dois anos antes com uma vitória em Wembley que gelou o coração dos ingleses e carimbou o bilhete para o França 84. Depois de uma injusta derrota no jogo inaugural – onde o mítico Allan Simonsen sofreu uma grave lesão que o forçou a abandonar a concentração –  os dinamarqueses praticaram o melhor futebol do torneio. Só um penalty fatidico de Preben Elkjaer os separou da final. Os soviéticos tinham estado no Espanha 82 mas falhado o seguinte Europeu e com uma brilhante geração do Dinamo de Minsk a cruzar-se com uma nova seiva de talento do Dinamo Kiev ambicionavam voltar a ser protagonistas. O grupo era para ser decidido entre ambos – a Noruega, Suiça e Irlanda completavam o grupo em que duas equipas seguiam em frente – mas ninguém era capaz de imaginar que o jogo daquela tarde de Junho passaria para a posteridade pela sua brilhantes. Os dinamarqueses estavam a aprender a gostar de si próprios. Dinamarca85Nunca tinham ganho aos soviéticos na história. Seis anos antes eram uma nação ainda eminentemente semi-profissional. Mas com a liderança única do alemão Sepp Piontek tinham-se transformado na melhor seleção da Europa. Era uma equipa com uma conjugação de estrelas única. A Michael Laudrup, Preben Elkjaer, Allan Simonsen, Morten e Jesper Olsen ou Frank Arnesen, verdadeiros maestros com a bola, juntavam-se os fundamentais Berggren, Beertelsen, Nielsen, Busk, Lerby ou Molby. Jogadores com uma inteligência táctica e um físico do outro mundo para a época. Piontek apostava num modelo fiel ao espirito do “Futebol Total” holandês montado num 3-5-2 em que os extremos eram jogadores técnicos como Arnesen e Jesper Olsen que faziam das suas diagonais uma arma letal. Só o jovem guarda-redes Qvist destoava da lista de jogadores mediáticos. Nunca saiu da liga dinamarquesa porque compartia a função de futebolista com a de polícia de trânsito, a sua genuina paixão que ainda hoje cumpre. Frente a esta legião já conhecida então como a Danish Dynamite estava uma União Soviética única.

A seleção de Rinat Dassaev mas também dos goleadores Igor Belanov e Oleg Protassov ou dos talentosos Gostmanov, Aleinikov, Baltacha e Litovchenko. Apenas dois russos num verdadeiro leque de estrelas das repúblicas soviéticas. Sem Kuznetsov, Mikhailichenko e Rats disponíveis, os soviéticos ainda assim podiam apresentar um dos melhores onzes do mundo. Mas o rival era de classe mundial.

“O Jogo”

A Dinamarca entrou muito melhor no jogo. Ao contrário do habitual à época fez-se dona da bola mas imprimiu velocidade nas transições, ocupou toda a largura do campo e empurrou o poderoso rival para o seu campo. Em quatro minutos fez os dois primeiros golos do encontro. Ainda não se tinham cumprido vinte minutos quando Preben Elkjaer tinha já deixado a sua marca.

Antes do arranque do jogo os soviéticos viram na ficha do encontro que o avançado titular era um tal de Preben Larsen. Numa era de falta de informação pensaram que fosse outro jogador que não o estelar avançado do Hellas Verona, conhecido por todos como Preben Elkjaer. O seu marcador Podzniakov não podia acreditar quando o “genuíno” Elkjaer lhe surgiu pela frente em duas ocasiões para bater calmamente o mítico Dassaev. A superioridade dinamarquesa era evidente mas os soviéticos souberam reagir. Com a bola nos pés devolveram cada golpe, cada ataque, cada longa possessão e foram reequilibrando a balança. Sucederam-se as oportunidades para ambas partes e antes do intervalo Oleg Protassov reduziu o marcador. Os adeptos Rooligans pareciam anestesiados pela exibição de ambas as equipas. Nunca tinham visto nada assim. Nunca mais o voltariam a ver.

 

Na segunda parte repetiu-se o guião. Michael Laudrup, fundamental a desenhar os dois golos de Larsen, recebeu a ajuda do seu parceiro de ataque para marcar, também ele, dois tentos em cinco minutos. Vinte minutos depois um disparo de Gotsmanov voltou a reduzir a contagem para 4-2. O resultado podia ter sido mais amplo para ambas as equipas. Belanov, Larsen, Olsen, Aleinikov tiveram oportunidades para marcar mas tanto o aclamado Dassaev como o quase anónimo Qvist estiveram á altura. Quando o jogo acabou os jogadores não pareciam exaustos depois de terem corrido mais e melhor do que alguma vez tinham feito. Tinham desafiado as leis da resistência fisica do seu tempo, manobrando um jogo de 1985 com o ritmo de 2005.  O mundo podia não ter assistido ao encontro que os dinamarqueses chamam, simplesmente, “O Jogo”, mas o tempo permitiu recuperar as imagens e atestar a sua importância.

O epilogo mexicano aos revolucionários europeus

Um ano depois, no México, a Dinamarca humilhou o bicampeão mundial Uruguai com um desempenho similar. Tinham destroçado a Escócia e acabaram por bater a Alemanha antes de cair estrepitosamente contra a sua nemésis Espanha. A mesma que os derrotara em 1984 e voltaria a bater em 1988.

Os soviéticos, que venceram o jogo da segunda-mão em Moscovo e seguiram para terras aztecas como segundos de grupo, superaram a França de Platini, a Hungria e o Canadá antes de cair contra a Bélgica num frenético 4-3. Dois anos depois foram finalistas vencidos do Euro 88. O Mundo estava demasiado entretido com as genialidades de Maradona para entender que as duas equipas que mais cedo foram para casa na ronda dos oitavos tinham sido, um ano antes, aquelas que lançaram as bases definitivas do futebol moderno. Uma semana antes o desastre de Heysel tinha enterrado uma geração de futebol defensivo, especulativo, físico e onde o espetáculo nas bancadas tinha dado lugar a uma sucessão constante de confrontos.

No dia 28 de Maio de 1985 o futebol foi a enterrar. Uma semana depois, precisamente, numa solarenga Copenhague, Elkjaer Larsen, Igor Belanov, Michael Laudrup e Sergei Aleinikov ressuscitaram-no com uma viagem ao futuro que anunciou que melhores dias estavam para vir. Talvez ninguém se tenha dado conta mas sem essa tarde mágica hoje o beautiful game seria um desporto muito mais pobre.

2.007 / Por