Dadá Maravilha, a fábula do malandro

É o único jogador da história do futebol brasileiro a ser convocado para um Mundial por um presidente da República. Dario dos Santos, um dos maiores goleadores da história do Brasil, é também Dadá Maravilha. Um alter-ego que representa à perfeição o espírito da fábula do malandro.

O protagonista da ópera

O malandro, Na dureza
Senta à mesa, Do café
Bebe um gole, De cachaça
Acha graça, E dá no pé!

Escreveu Chico Buarque de Holanda sobre o malandro brasileiro como se estivesse a pensar em Dario. No seu gesto, no seu olhar perdido de filho da desgraça. E nos seus saltos infinitos, golpes acrobáticos nos céus que permitiam ao rival conhecer de memória o número que calçava. Saltos tão surreais como o próprio Dario. Saltos tão surreais que não podiam ser dele. Não podiam ser reais. Eram de Dadá, de Dadá, Maravilha. O profeta dos malandros, o dono do leque mais absurdo e delirante de frases sobre o futebol, a vida nas ruas do Rio e o espírito de reconciliação do Brasil com a sua essência social. O velho espírito do malandro.

O protagonista de Buarque, no final da Ópera do Malandro, é apanhado, autuado, julgado e condenado pela situação. A Dario José dos Santos a justiça tinha guardado um destino similar. Mas do nada apareceu a bola. Como a deslizar pela ravina de uma favela rota, caiu-lhe nos pés. E transformou-o automaticamente numa personagem de desenho animado.

Da favela para o relvado

Poucos futebolistas podem contar com um sorriso genuíno histórias tão negras e dramáticas como Dadá Maravilha. Para ele o futebol tornou-se na única forma de escapar à morte, à dor e à miséria. Humana, sobretudo. Viu morrer com cinco anos a mãe num incêndio na favela onde vivia na mais absoluta precariedade. Sem pai nem mãe, um mais entre tantos “moleques de pé descalço”, a Dadá não lhe sobrou o tempo para pensar e começou a roubar para ganhar minutos ao relógio da vida. Durante quase treze anos fez do roubo uma arte, do assalto ao turista e ao merceeiro o seu drible e finta. Até que foi apanhado, julgado e condenado. Como ainda era menor de dezoito anos, escapou-se da prisão para acabar numa casa de correcção.

Com tempo livre, finalmente, olhou para a bola com outros olhos e decidiu desafiar-se a si mesmo. Não tardou muito em transformar-se no centro das atenções do centro. Nunca tinha jogado antes, as bolas eram distrações que não se podia permitir. Como diria anos mais tarde, não tinha tido tempo para aprender a jogar futebol, só para marcar golos. E marcava-os como poucos. Saído do centro, começou a jogar profissionalmente no Campo Grande até que apareceu o Atlético Mineiro, impressionado pelo físico e faro de golo de este Dario que lá no fundo já era o Dadá Maravilha.

“São duas coisas que eu não aprendi: Jogar futebol e perder gol!”

Em Belo Horizonte, Dario tornou-se na grande estrela do futebol estadual.

Não era um jogador técnico, capaz de se associar com os colegas em manobras ofensivas de conjunto. Mas dentro da área movia-se como poucos. Fintava os defesas com a mesma facilidade que em pequeno ludibriava a polícia. E tratava a bola com a devoção que só alguém que esteve preso, sem nenhum outro amigo no mundo que o esférico de trapos, podia tratar. Marcava golos de todas as formas e feitios. De cabeça, com os pés e de triciclo (não era capaz de realizar o gesto completo do pontapé de bicicleta, ficando-se por uma versão simplificado que ele mesmo baptizou). De tal forma que os golos que marcou contra à seleção do Brasil, num jogo amigável disputado entre a canarinha e o Atlético Mineiro (que venceu por 2-1) entusiasmou o presidente brasileiro da época, o general Emilio Medici, levando-o a exigir ao selecionador  João Saldanha, a sua convocatória para o Mundial de 70. Saldanha recusou, declarando publicamente que ele não se metia nas decisões políticas de Medici e não podia aceitar que se metessem nas suas escolhas. Foi a última gota na turbulenta relação entre o jornalista comunista e o poder militar brasileiro. O seu sucessor, Mario Zagallo, fez a vontade ao presidente e convocou Dario, mas não lhe deu um só minuto no México. Com Pelé, Jairzinho, Rivelino e Tostão em máxima forma, a magia de Dadá não seria necessária.

De regresso a Minas Gerais, Dario continuou a sua história de amor com o golo.

Melhor marcador do campeonato de 1971, apontou o golo do título histórico do clube mineiro no Maracaña, parando no ar no meio dos centrais do Botafogo antes de desviar o esférico para as redes do conjunto carioca. No final do jogo, entre o delírio dos adeptos, Dadá Maravilha – por como Dario começava já a ser definitivamente conhecido, a personagem a ultrapassar o homem – soltou aos jornalistas mais uma das suas frases históricas: “Me diz o nome de três coisas que param no ar: beija-flor, helicóptero e Dadá Maravilha”.

Não era a primeira nem a última vez que Dadá iria oferecer ao Brasil a sua poesia de rua. Desde os seus primeiros dias como jogador que tinha criado uma aura de autor maldito e incompreendido que mais tarde prolongou na sua carreira como comentador desportivo. O menino que mal sabia ler e escrever mas que sorria como poucos no relvado, era também o malandro capaz de expressar à maneira o que tantos outros não sabiam dizer. Frases como “Pelé, Garrincha e Dadá tinham que ser curriculo escolar”, “Chuto tão mal que, no dia em que eu fizer um gol de fora da área, o goleiro tem que ser eliminado do futebol”, “Só existem três poderes no universo: Deus no Céu, o Papa no Vaticano e Dadá na grande área” ou “Não existe gol feio. Feio é não fazer gol” são hoje parte obrigatória da liturgia futebolística canarinha. Um misto da humildade e do orgulho do malandro, que é capaz de reconhecer os seus pontos fracos enquanto sorri e passa a bola pelas pernas do defesa contrário. Poesia dadá!

A cara do golo brasileiro

Em 1973, depois de duas tentativas frustradas em repetir o título com o Atlético Mineiro, Dadá assinou pelo Flamengo. Tinha herdado o lugar de Pelé na seleção mas por pouco tempo. Durante os anos seguintes mudou anualmente de clube o que o afastou progressivamente das escolhas da canarinha (isso e a qualidade de muitos dos seus rivais) mas por onde quer que passava, Dadá apontava golos, muitos golos.

Em 1976 aterrou em Porto Alegre e com o Internacional recuperou a forma e a regularidade exibida ao serviço do clube mineiro. Foi a sua redenção. Marcando mais treze golos do que na sua espantosa temporada de 1971, Dadá (onde estaria já Dario) foi fundamental para a vitória no campeonato do clube de Porto Alegre. Era o seu segundo título de campeão nacional e a terceira vez que se sagrava melhor marcador da competição. Nos dez anos seguintes, já entrado na casa dos trinta, Dadá passeou-se por todo o Brasil, assinando contrato com mais de doze clubes, sagrando-se campeão estadual em vários pontos geográficos, sempre como titular, sempre marcando golos, sempre sendo fiel à sua máxima: com Dadá na área, não há marcador a zero.

O 5º goleador do Brasil

Em 1985, quinze anos depois de ter feito parte da maior seleção da história, Dadá Maravilha decidiu voltar a ser Dario. Pendurou as chuteiras, acabou a sua longa história de amor com o golo. Tinham sido 926 golos, dos quais cerca de 500 em jogos oficiais, espalhados por quase vinte anos de carreira. Números que apenas ficam atrás dos de Pelé, Romário, Túlio Maravilha e Artur Friedenreich na lista dos goleadores brasileiros. Golos que, no entanto, aconteceram na sua esmagadora maioria em jogos de campeonatos estaduais contra adversários incapazes de lidar com um avançado das suas características.

Contra o Sport por exemplo, chegou a marcar dez golos num só jogo do campeonato estadual pernambucano. Pela seleção, nos sete jogos que disputou, não apontou nenhum.

Retirado oficialmente dos relvados, Dario tornou-se num dos antigos futebolistas mais acarinhados pelos brasileiros, conscientes de que estavam diante de um deles, um malandro que tinha sabido fintar o destino para sobreviver à sua própria sombra. Como na ópera de Buarque, Dadá sofreu todas as agruras possíveis do destino, da crueldade da vida quotidiana das favelas do Rio de Janeiro, de um país habituado a conviver na miséria. E quanto dos pensavam que o seu destino ia seguir ao de tantos outros, pegou numa bola e foi com ela debaixo do braço:

E no entanto, Ele se move
Como prova, O Galileu!

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  • El Diablo

    Fantástica matéria. Só uma correção: o nome do clube é Atlético Mineiro. Não tem o “de”. É um clube de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. O gentílico mineiro corresponde ao Estado federativo.
    Outra correção: Dadá fez 10 gols pelo campeonato pernambucano (e não baiano) na vitória do Sport (Sport Club do Recife) contra o Santo Amaro em 1976, 14×0. (Não existe um Sport Náutico, na verdade existe o Clube Náutico Capibaribe, que é um dos grandes rivais do Sport, ambos, como já dito do Recife, estado de Pernambuco e não Bahia).

    • Miguel Lourenço Pereira

      El Diablo,

      Obrigado pelas correcções, a esmagadora maioria delas tão óbvias que não sabemos como nos escapou.

      um abraço