Durante trinta anos na margem do sul do Tejo viveu um gigante adormecido do futebol português. Apoiado por uma das maiores empresas estatais do Estado Novo, a CUF foi o exemplo de como o corporativismo podia ter produzido um campeão nacional. O Barreiro nunca celebrou um titulo mas atravessar o Tejo foi sempre um pesadelo para os que queriam medir-se com uma equipa que teve menos ambição do que recursos para brilhar.

 O clube que morreu com o 25 de Abril

No meio da poeira, do vento e do fumo que saia das fábricas da União Fabril, no coração do Barreiro, sobrevivia um clube de futebol que representava perfeitamente os anos políticos e sociais do regime salazarista. Um clube forjado nas entranhas do conglomerado fabril e que sobreviveu até ao final do regime como uma das equipas mais fortes da segunda linha de clubes portugueses. Com a chegada do 25 de Abril e a tomada do poder pela armada proletária que fez da margem sul uma cintura de aço de influencia comunista, o sonho esfumou-se. O profissionalismo encoberto por anos e anos de gestão consciente do futuro dos jogadores da entidade foi abandonado radicalmente, seguindo o modelo soviético.

Sem jogadores abertamente profissionais, a CUF desapareceu do mapa. Primeiro mudou de nome. Foi Quimigal e foi Desportivo Fabril. Depois mudou de alma. Deixou de ser o clube do grupo industrial, deixou de ser o clube das gentes do Barreiro para ser o reflexo futebolístico das novas correntes políticas. Com essa metamorfose selou o seu próprio desaparecimento. Nos anos oitenta foi caindo no esquecimento, ultrapassado pelas novas potencias a norte, alimentadas também elas pelo poderio industrial, agora transferido para o vale do Ave. Sem o apoio financeiro da industria, a condescendência do estado e minados pelo falhanço ideológico da sua transformação, a CUF tornou-se numa sequência de memorias e ilusões perdidas. Memórias de outros tempos, dias em que muitos pensavam que a CUF podia lutar pelo titulo de campeão nacional se os seus dirigentes não tivessem medo de desafiar o poder estabelecido dos gigantes da “outra banda”.

O império fabril do Estado Novo

Alfredo da Silva montou um império.

Durante décadas o Barreiro foi o coração industrial de um Portugal ainda a anos-luz do desenvolvimento de outros países europeus no sector da industria. No coração desse império estava a União Fabril. Peso pesado de dimensão nacional, era a meados do século uma das maiores empresas ibéricas. Dava emprego a milhares de pessoas que deram forma humana a uma zona olhada sempre com desprezo pelos habitantes da sua vizinha do outro lado do Tejo, a orgulhosa capital. Entre essa nova e emergente comunidade que se foi estendendo do Montijo a Almada, emergiu também a figura desportiva do seu mecenas. A União Fabril patrocinava atletas de distintas modalidades. A joia da coroa era a sua equipa de futebol.

O Barreiro já tinha no Barreirense, o seu clube oficial – o clube daqueles que viviam há gerações na localidade e que não sentiam qualquer fidelidade á companhia – mas os verde e brancos da CUF foram sempre o grande farol desportivo da margem sul. Era um clube que pagava bem e a tempo e horas. Lograva-o atraindo jogadores com um trunfo na manga, a oferta de um posto de trabalho – muitas vezes fictício, apenas para dissimular, como era habitual – nas instalações da fábrica. Muitos dos seus mais celebres jogadores foram, oficialmente, secretários, operários ou administrativos da empresa ao mesmo tempo que brilhavam no Lavradio onde a equipa recebia os seus rivais e jogava com a autoridade de quem se sentia mais grande do que os títulos indicavam. Pelo clube passaram grandes jogadores, de Mário João a Conhé, de Carlos Manuel a Manuel Fernandes.

Todos eles jogaram no clube e trabalharam na fábrica. Dois lados da mesma moeda. Uma espécie de Juventus à portuguesa, debaixo do mecenato de uma empresa com um peso institucional importante. E no entanto, para muitos, foi também a falta de ambição dos seus diretivos – que alguns acusaram de serem mais adeptos do Sporting ou do Benfica do que do seu próprio clube – que impediu sempre o clube de dar um passo mais. A CUF nunca se aventurava no mercado, nunca regateou um jogador a um grande. Limitava-se a formar os seus futebolistas, recrutando-os no distrito ou dentro da fábrica, e a dar trabalho e futuro aqueles que andavam debaixo do radar dos grandes de Lisboa. Sem grande alarido, iam sobrevivendo quando tinham o potencial económico e psicológico para procurar algo mais.

O clube que morreu com o 25 de Abril

Fundado em 1937, o clube teve a sua primeira experiência na elite a principio dos anos quarenta. Foi de curta duração. Em 1954 a equipa regressou à Primeira Divisão. Manteve-se aí até 1976. Vinte e dois anos consecutivos de histórias e lembranças únicas. A melhor classificação nacional foi um terceiro lugar em 1965, numa equipa dirigida por Manuel Oliveira que jogava no que então era um inédito 4-4-2 para o futebol europeu que vivia debaixo da glória europeia do Benfica. O palmarés da Taça de Portugal ficou eternamente vazio (o clube ficou pelas meias-finais nas suas melhores campanhas) e só algumas noites europeias memoráveis permitiram á Europa conhecer o potencial dos “operários” verde-e-brancos do sul do Tejo.

O 25 de Abril mudou para sempre a face de um clube que perdeu a sua própria essência, entregue ao dogmatismo ideológico dos seus novos dirigentes de orientação comunista que levaram um histórico primo-divisionário até ás entranhas do futebol amador com um simples mas decisivo gesto, o de renunciar definitivamente á condição de equipa profissional. O primeiro a sair foi o jovem avançado Manuel Fernandes, que assinou nesse mesmo verão com o Sporting. A partir desse momento a queda no futebol distrital de Setúbal foi inevitável e nem a mudança de nome alterou o cenário. Esvaziado da sua alma mater, o grupo industrial, e sem um apoio de base real – o tal que permaneceu fiel ao Barreirense – o projeto CUF perdeu sentido. E como era inevitável, morreu.

Atrás fica a sensação de que num país sem industria, o projeto de um ambicioso clube-empresa como se fez habitual em países como o já citado caso italiano mas também em França – onde os êxitos do Sochaux foram alimentados pela Peugeot –, Holanda (a intima relação do PSV com Philips) ou Alemanha (com os casos do Bayer Leverkusen e Wolfsburg)  estava condenado ao fracasso pela própria identidade nacional. Sem nunca ter sido capaz de encontrar a fórmula certa para abandonar a lista dos clubes de segunda linha para ambicionar a algo mais, a CUF perdeu uma oportunidade histórica de ser um símbolo de ambição num país que continua excessivamente dependente da herança emocional que parece continuar a ser um exclusivo dos grandes de sempre.

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