A ocupação militar pelas tropas soviéticas da esmagadora maioria da Europa de Leste deu o pontapé de saída para a Guerra Fria. No mundo do futebol provocou uma cisão com o passado e uma revolução completa na história de muitos clubes. Policia secreta, administração pública e exército tomaram controlo dos destinos dos principais clubes de cada país. Debaixo da patente militar, os CSKA tornaram-se símbolo de quatro décadas cinzentas no futebol europeu.

CSKA, os homens fortes do Exército Vermelho

Durante quarenta anos as margens do Danúbio foram a Florença renascentista do futebol continental. De Viena a Budapeste, passando pelos pastos checos, jugoslavos e romenos, o futebol europeu desenvolveu-se a uma velocidade estonteante. A nata do jogo continental reunia-se nestas centenas de quilómetros de sonhos e golos mágicos.

A II Guerra Mundial mudou tudo ao ritmo de uma moeda que sobe ao ar sem se saber de que lado vai cair. Ao aparente e inicial domínio alemão sucedeu-se uma implacável ocupação do Exército Vermelho. Em poucos meses toda essa soma de repúblicas e monarquias do entre-guerra foi desaparecendo para dar lugar a estados satélites. Moscovo baptizou-as como Republicas Populares mas o regime era tudo menos do afecto dos povos ocupados e governados por fantoches escolhidos a dedo no Politburo. O futebol, como todos os aspectos fundamentais dessas sociedades, não escapou à purga que se seguiu. Tudo o que tinha tido conexão com o mundo pré-soviético foi relegado para um baú de memorias proibidas. Os partidos comunistas tomaram de assalto o poder, a administração pública e tudo o que rodeava a máquina estatal. Também o fizeram com os clubes de futebol. Uns foram parar às mãos das policias políticas, as filhas bem comportadas do KNVD, futuro KGB. Chamaram-lhes Dynamos, em homenagem ao clube—mãe, o de Moscovo que Beria, esse homem sedento de sangue alheio, apoiava até à loucura. Outros foram entregues à administração central, um gigante polvo de contatos intermináveis que garantia a perpetuidade do regime. Na equação sobrava o exército, fundamental para a conquista e manutenção do poder táctico. Foi debaixo da sua sombra austera que renasceram das cinzas os CSKA, os clubes militares.

De Moscovo a Budapeste, os clubes da elite militar

Abreviatura de Central Sports Klub of the Army, o fenómeno dos CSKA´s tornou-se extremamente popular a final dos anos quarenta. Era a época áurea do Exército Vermelho e da aurora de uma nova ordem militar a leste, o Pacto de Varsóvia. A pouco e pouco vários emblemas já fundados e outros que pareciam nascer do nada adotaram orgulhosos a designação. Como em tudo neste modelo centralizador baseado na doutrina moscovita, a aventura dos CSKA tinha começado na capital soviética com a sua versão original, o clube do exército soviético, o CSKA Moscovo. Fundado em 1911, tinha sido um dos emblemas fundamentais no desenvolvimento do jogo na URSS durante a década de 30 ao lado dos rebeldes Starostin do Spartak e os homens temíveis de Beria, do Dynamo.
Os seus sucessores europeus encontraram também forma de espalhar a sua influencia nos seus novos terrenos de jogo políticos e desportivos. Versões do CSKA apareceram em Sofia, Varsóvia, Roménia e Checoslováquia. Apenas os primeiros manteriam a sua designação até ao final da Guerra Fria. Os polacos do CSKA Varsóvia tornaram-se com o tempo em Légia Varsóvia, o nome com que fizeram história nas seguintes décadas do futebol polaco. Na Roménia a designação CSKA foi alterada em 1950 por um mais prosaico Steaua Bucaresti. Seriam o clube mais bem sucedido da história do futebol da Europa de Leste, o único a vencer uma Taça dos Clubes Campeões Europeus, em 1986.

Na Checoslováquia foi o nome de uma célebre batalha, a de Dukla, que provocou a alteração da designação oficial e temporal do CSKA Praga, um dos emblemas mais polémicos da história do futebol europeu. O caso húngaro foi mais paradigmático. Aí o nome CSKA nunca teve uso mas o exército foi fundamental na transformação do modesto o Kypest no todo-poderoso Honved, o melhor clube da primeira metade da década de cinquenta.
Em quatro estados fundamentais para o equilíbrio da Realpolitik, a presença do controlo desportivo dos militares foi sempre vista com suspeita pelos seus rivais no xadrez político. As disputas internas entre os Dynamo e os CSKA fizeram parte da intra-história da Guerra Fria, levando vários títulos a serem decididos nos gabinetes ministeriais e não nos terrenos de jogo. O equilíbrio de poder interno a isso obrigava e durante largos anos os triunfos de Steaua, Legia, Dukla ou CSKA Sofia foram contrabalançados com séries favoráveis aos seus rivais políticos como o Dinamo Bucaresti, o Polonia Warsovia, Slavia Praga ou Levski de Sofia.

A popularidade dos clubes do exército no ocaso da Guerra Fria

No entanto, a popularidade dos CSKA não se manifestou exclusivamente nas novas Repúblicas Populares (na Alemanha de Leste o exército manteve um desinteresse sobre o jogo) e floresceu também nas repúblicas soviéticas controladas diretamente pelo Politburo moscovita. O CSKA Kiev (rival local do histórico Dynamo) na Ucrânia, o CSKA Rapid Chisinau na Moldávia ou o CSKA Kazahstan no Cazaquistão entraram diretamente no léxico do futebol soviético ainda que numa dimensão muito inferior aos mais populares clubes associados às correntes do KGB, os Dynamos de Minsk, Tiblissi, Kiev e Moscovo, verdadeiros dominadores históricos das ligas soviéticas, sobretudo a partir dos anos sessenta quando o vazio de poder na cúpula militar abriu definitivamente as portas à consagração dos serviços secretos russos como o verdadeiro baluarte de poder. Foram três décadas de triunfo na URSS dos Dynamos sobre os CSKA que, no entanto, se mantinham como a principal força desportiva nos vizinhos estados-satélite.

O fim da Guerra Fria provocou também, de forma progressiva, o fim dos históricos CSKA. Foi uma mutação muito menos dolorosa do que aquela sofrida pelos clubes dos serviços secretos porque por essa altura a maioria dos emblemas já tinha retirado o CSKA do nome. Ao contrario dos Dynamos – muitos dos quais subsistem com essa nomenclatura hoje, ainda que não exista nenhuma relação com as suas origens – essa marca emocional tinha desaparecido e muitos acabaram por esquecer-se as verdadeiras origens dos Legia, Steaua ou Honved. Na Rússia, orgulhosamente só, o CSKA Moscovo transformou-se no verdadeiro paradigma do mundo pós-Guerra Fria. Transformou-se num dos primeiros clubes empresariais do país e em 2005, no estádio de Alvalade, conquistou a primeira competição europeia da história do país, a Taça UEFA. Foi o ponto alto na história dos clubes do exército mais de década e meia depois da sua longa era de títulos e glórias ter chegado ao fim num golpe seco ao muro de todas as vergonhas.

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  • Tiago Cardoso

    «Seriam o clube mais bem sucedido da história do futebol da Europa de Leste, o único a vencer uma Taça dos Clubes Campeões Europeus, em 1986.» – hum… Não seria o FK Estrela Vermelha de Belgrado o mais bem sucedido clube de futebol de 11 masculino da Europa de Leste, dado que foi campeão europeu de clubes de futebol de 11 masculino sénior em 1990/1991 e campeão mundial de futebol de 11 em 1991? Não sei, pergunto eu!

    • Miguel Lourenço Pereira

      Tiago,

      Como deve entender, a natureza do artigo concentra-se no periodo da Guerra Fria (1945-1989) até á dissolução efectiva do Bloco de Leste e com ele o controlo dos clubes CSKA pelos respectivos exércitos nacionais.

      • Tiago Cardoso

        Ah, obrigado pela resposta! 🙂
        Ah, e no palmarés internacional de futebol de 11 do FC Steaua București, convém não esquecer a Supertaça Europeia de Futebol! 😉

        • Tiago Cardoso

          Supertaça Europeia de Futebol de 1986, claro! 😛

  • Miguel

    Que triste é ver essa cega obsessão anti-comunista que não lhe permite escrever sobre um assunto interessante sem ser parcialista na sua visão histórica dos factos.

    • Miguel Lourenço Pereira

      Caro Miguel,

      Gostava de saber onde encontra algum tipo de residuo ideológico em artigos como este, como os publicados sobre os Irreducibili, sobre Kurt Landauer, presidente anti-nazi do Bayern Munchen que impliquem que o Futebol Magazine tem uma linha editorial política.