Cruz Azul, os primeiros mexicanos a sonhar com a Libertadores

Foram o primeiro clube convidado a chegar à final de um torneio continental. Em 2001 o Cruz Azul mexicano acabou com um velho tabu e disputou até ao último disparo o titulo da Libertadores contra uma das maiores potencias sul-americanas, o Boca Juniores. Foi a primeira vez que um equipo fora do “Cono Sur” esteve a ponto de levantar o título, o de reinar num continente que não é o seu.

A afirmação continental do futebol mexicano

Olhando para o mapa da América há sempre a tentação de imaginar aquele imenso traço de areia, montanha e verde de sul a norte como um só espaço geográfico, um só continente. A única separação é artificial, de facto – o canal do Panamá – mas desde sempre que nas Américas o plural sempre fez mais sentido e por isso há uma a norte e uma a sul, herança reforçada inclusive pela influencia peninsular e anglo-saxónica. No futebol essa divisão quase emocional sempre fez sentido, ainda para mais num espaço geográfico tão distante que unir o mesmo de uma ponta á outra é ainda hoje um imenso desafio.

O futebol cresceu em vectores particulares – ao ritmo do soccer a norte – de uma forma pausada mas segura na língua central e com uma pujança única no sul. Foi precisamente aí que cresceu a elite platense e fervilhou a magia do futebol brasileiro e foi na América do Sul que nasceram os grandes torneios continentais, a Copa América de seleções e – quarenta e cinco anos depois – a Libertadores de clubes. Por essa altura os seus vizinhos a norte, a CONCACAF – que unia tanto o espaço central e caribenho com os dois gigantes norte-americanos – ainda eram figuras residuais e as suas competições torneios imaginários. A fama das “copas” a sul foi tal que mesmo quando nasceu a Golden Cup e a Champions League da CONCACAF o “El Dorado” continuou a ser mover-se rumo ao sul.

Tudo mudou na década de oitenta. O México, porta-estandarte desse outro continente futebolístico, recebeu formalmente o convite para juntar-se á festa. Não de forma permanente e oficial mas de um modo regular e sui generis. Os mexicanos, a sua seleção e os seus clubes, seriam convidados dos torneios sul-americanos todos os anos mas sempre se lhes seria recordado que a sua presença era isso mesmo, um mero convite de cortesia. Poucos davam muito por eles, no meio de uma elite centenária, e o gesto parecia mais diplomático do que desportivo. O futebol, que nem sempre entende de política, pensou o contrario. Em 1993 o México estreou-se na Copa América e foi apenas derrotado na final. Em 2001 voltou a uma final – nova derrota – deixando para trás dois terceiros lugares consecutivos que se repetiria em 2007. Um registo muito superior ao da imensa maioria dos países sul-americanos. A nível de clubes, tarde ou cedo, o mesmo cenário teria de concretizar-se e foi em 2001 que um clube convidado teve a América em suspenso.

A larga caminhada do Cruz Azul

Foi uma odisseia. Uma larga e desgastante odisseia. Vinte jogos depois, o Cruz Azul do México podia sentir que o cume do Evereste estava ali, ao virar da esquina. Uma escalada surpreendente e sem precedentes a que acolher-se. Nunca uma equipa tinha disputado tantos jogos para chegar a uma final da Libertadores. Nunca uma equipa tinha chegado tão longe com um mero convite. Os mexicanos tinham recebido formalmente da federação mexicana o habitual convite anual da CONMEBOL a participar na edição de esse ano da Libertadores. O primeiro passo era simples, uma pré-eliminatória com o segundo convidado mexicano e os dois clubes do país com pior ranking da América do Sul, a Venezuela. Uma ronda de grupos que o clube conhecido como “La Maquina” triunfou sem paliativos sobre Tachira, Deportivo Italchacao e Atlante. Para muitos o caminho acabava aqui.

Vinham os peixes gordos da fase de grupos e as probabilidades de seguir para a ronda eliminatória eram escassas. Contra todos prognósticos, os mexicanos saíram por cima do primeiro obstáculo a sério, ganhando num grupo que incluía o Olmedo equatoriano, o Defensor Sporting uruguaio e os brasileiros do São Caetano, inesperado representante brasileiro. Um ano antes o Necaxa mexicano tinha dado uma pobre imagem no Mundialito de Clubes da FIFA e agora, do nada, o Cruz Azul parecia estar determinado a dar a volta ao prestigio internacional do futebol azteca. As eliminatórias iam colocar as aspirações dos homens de Jose Luis Trejo á prova. Sem estrelas, com muitos jovens com poucos anos de casa, o Cruz Azul parecia presa fácil mas o primeiro a provar a sua resiliência foi o Cerro Porteño, eliminado nos oitavos-de-final. Para o seguinte duelo, contra o mítico River Plate, o clube voltou ao Azteca. Um cenário de lenda para um duelo memorável. A um empate a zero em Buenos Aires, a equipa de Pablo Aimar e Javier Saviola foi recebida por um público fanático que viu como os azuis mexicanos trucidaram os “Millonarios” por um contundente 3-0. Gritava-se “México”, um aviso aos vizinhos do sul de que tudo podia mudar. A América do Sul tinha aprendido a respeitar o convidado surpresa mas faltava ainda um último capitulo, também disputado na Argentina contra o Rosário Central. Novo empate em solo argentino – 3-3 – e novo triunfo em casa confirmavam a surpresa. Na sua estreia, por primeira vez na história das competições continentais, um convidado de outra confederação estava a dois jogos de sagrar-se campeão.

O drama da Bombonera

Á terceira foi a vencida.

Depois de eliminar a dois dos representantes argentinos nas rondas anteriores, o Cruz Azul foi incapaz de repetir a proeza com um terceiro clube das “pampas”, o Boca Juniores. Mas não foi por não ter tentado. Os “Xeneizes” tinham garantido já, qualquer que fosse o resultado, uma vaga na Copa Libertadores uma vez que os mexicanos eram convidados. Mas queriam o titulo continental e não estavam dispostos a cometer os mesmos erros dos seus compatriotas. O jogo inaugural da final, disputado na Cidade do México, saldou-se com uma convincente vitória por um golo a zero, autoria de Delgado. As contas pareciam fechadas. Afinal fora debaixo das chuvas de papeis do Azteca que o Cruz Azul cimentou a sua carreira. O que ninguém no bairro da Boca esperava era uma reviravolta nas contas.

O golo de Palencia, para os mexicanos, gelou a Bombonera e empatou a eliminatória. Por duas vezes os mexicanos tiveram as mãos no troféu, por duas vezes o esférico esbarrou na barra da baliza de Cordoba. A final, que parecia tão desequilibrada, acabou por ter de decidir-se nos penaltis. Empurrados pelos seus, os locais foram implacáveis. Riquelme abriu a série, sem piedade, e Delgado encarregou-se de fechar as contas. A Bombonera aplaudiu os mexicanos mas o sonho de ser campeão em continente alheio ficava para outra saga. O Cruz Azul jamais voltou a estar perto de repetir o feito mas o Chivas de Guadalajara tornou-se, anos depois, no segundo conjunto mexicano a disputar a final continental, com a mesma sorte. O Tigres será a terceira equipa a lutar pelo titulo. Um titulo que nunca um convidado levou para outra confederação mas que parece cada vez mais destinado a dormir, alguma noite de um futuro não distante, debaixo do brilhante céu estrelado do México.

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