Ferenc Puskas. Ronaldo Nazário. Cristiano Ronaldo. Três nomes próprios, três metamorfoses únicas e históricas na larga vida do beautiful game que não conhecem igual e que bebem da mesma origem ainda que por caminhos distintos. Nunca como nesses três casos houve uma alteração tão radical de um futebolistas de uma primeira etapa da sua carreira a outra, mantendo sempre a condição de máxima estrela global. A de Cristiano Ronaldo, no entanto, eleva essa alteração de ADN a outra dimensão e transforma o seu caso em algo único nos últimos cem anos de beautiful game.

Puskas e Ronaldo, dois génios mundiais reconvertidos

Em 1954 Ferenc Puskas estava considerado como o melhor jogador do Mundo pela grande maioria dos adeptos e analistas. O génio húngaro estava no seu apogeu competitivo. Tinha 26 anos quando chegou à Suíça para disputar o seu primeiro Mundial. Nos quatro anteriores ajudara a transformar a Hungria na grande potência continental, uma equipa praticamente invencível que tinha cometido inclusive a proeza de vencer no estádio do Wembley. Foi o primeiro desaire inglês em casa com um rival continental. O gesto técnico de Puskas, ao enganar o experiente Tom Finney, com uma finta, colocou em evidência o abismo que havia entre o futebolista britânico e a estrela magiar. Foi a imagem de uma época. Poucos jogadores no mundo então podiam ombrear com Puskas em talento, génio e popularidade. O seu compatriota Ladislao Kubala, em Barcelona, era um deles. Havia ainda Stanley Mathews, Vavá, Obdulio Varela, Fritz Walter, Niels Liedholm e um semi-desconhecido, para o público europeu, Alfredo di Stefano. Pouco mais. Puskas não era só um grande avançado e goleador, era sobretudo um jogador de um grande nível técnico que jogava em velocidade atacando o espaço. Futebolista de fino recorte, parecia estar no início de uma era de domínio global. No espaço de um ano e meio tudo mudou. A Hungria perdeu inexplicavelmente a final do Mundial e meses depois um golpe militar forçou a Diáspora de vários atletas magiares, Puskas entre eles. Durante um ano deixou de competir, ganhou peso, muito peso, e tornou-se um pária do futebol. Santiago Bernabeu foi o único que acreditou que dentro daquele corpo modificado pelo sobrepeso e a falta de treino havia ainda magia. E Puskas, com a camisola do Real Madrid, voltou a jogar no futebol de elite. Durante os oito anos seguintes voltou a marcar golos, muitos golos. Era um jogador diferente. Tinha perdido velocidade, drible, finta mas melhorado o seu disparo e sentido de jogo colectivo. A imprensa espanhola baptizou-o “Canoncito Pum”, pelo sobrepeso que tinha e pela violência do seu disparo, e com ele o Real permaneceu na elite continental uns anos mais.

Puskas foi o primeiro grande futebolista mundial que soube ultrapassar um grave problema e reconverter-se como jogador sem perder a condição de elite. Não foi o único no entanto. Quarenta anos depois uma história parecida voltou a repetir-se e terminou de novo em Madrid. Ronaldo Nazário era já o adolescente mais cotizado do futebol mundial quando o Barcelona o contratou ao PSV. No seu único ano em Can Barça realizou provavelmente a melhor época individual de um futebolista de elite de sempre. Os seus golos, as suas arrancadas icónicas, a sua finta e o seu dominio do esférico fizeram dele não só o melhor jogador do mundo como deixaram no ar que, aos 20 anos, estava destinado a ser também o melhor da história. Depois de uma passagem pelo Calcio e de uma estranha final em Paris, que tal como a Puskas, lhe custou um Mundial, Ronaldo foi vitima de uma das mais graves lesões sofridas por um atleta de elite. Durante quase quatro anos viveu o calvário de várias recaídas. Perdeu os seus melhores anos entre lesões, operações e recuperações. Parecia um boneco destroçado, uma sombra do missil que tinha sido anos antes. O regresso triunfal no Japão, coroado com um título mundial, levou-o a Madrid onde Florentino Perez, decidido a emular Bernabeu, deu-lhe uma oportunidade. No Santiago Bernabeu nunca ninguém voltou a ver o mesmo jogador que Ronaldo foi antes de 1998, o das explosões de meio-campo, das fintas impossíveis, da força descomunal. Em troca receberam um predador de área com o faro mais apurado do que nunca, um homem que tratava o golo por tu e que durante os três anos seguintes se manteve como o melhor do mundo na sua posição nunca baixando da marca dos vinte golos. A sua história teve ecos daquela que recordava a Puskas. O que ninguém pensava é que o mesmo caminho, com um matiz importante, fosse percorrido por outra lenda do futebol.

Quando Cristiano se converteu no extremo que era o melhor do Mundo

Em 2009, quando assinou pelo Real Madrid, Cristiano Ronaldo era o melhor extremo do mundo e lutava, já então, com o genial argentino Lionel Messi pelo trono do futebol mundial. Ambos tinham sido jovens promessas e tinham crescido cumprindo as expectativas depositadas neles. Messi fora decisivo na caminhada do Barcelona para o título europeu de 2006 mas foi três anos depois, como líder em campo do projecto de Guardiola, que finalmente deu o salto que lhe faltava para consagrar-se como número um mundial. Ronaldo tinha passado por um periodo de amadurecimento na Premier League que o converteu de malabarista a extremo letal, levando o Manchester United a três títulos, uma Champions League e uma final, perdida precisamente contra aquele Barcelona. Aquele Ronaldo era um extremo puro com apetite de golo que utilizava a sua enorme técnica e força física para fazer das diagonais interiores a sua grande arma. Preferencialmente pela esquerda, depois de afirmar-se como extremo direito, começou a desenhar o seu futuro eu nos últimos anos em Old Trafford. Cristiano ainda não era Ronaldo mas já aliava a qualidade de desmarque, passe ao golo que lhe chegava com enorme facilidade. Durante os cinco anos seguintes a sua identidade de jogo variou muito pouco. Com o Real Madrid de José Mourinho foi mais extremo que nunca e mais goleador do que nunca. O desenho da equipa potenciava a sua liberdade para mover-se no corredor e aparecer onde entendia melhor para terminar as jogadas de habitualmente quatro ou cinco toques desde o momento da recuperação. Foram os anos das Botas de Ouro mas também da ausência de títulos colectivos. Cristiano marcava, marcava muito, mas os seus golos não eram determinantes e o seu jogo, com o passar dos anos, foi sofrendo as marcas da idade, das lesões e das marcações cada vez mais cuidadas dos rivais. Á medida que o madeirense trabalhava o seu corpo para prolongar a carreira perdia flexibilidade, improvisação e magia nos seus movimentos individuais e convertia-se num extremo mais previsivel e condenado a sofrer em espaços curtos. A isso somavam-se agora as lesões, reflexos de um corpo cuidado mas sobrexposto à sua fome de jogar cada minuto de cada jogo para superar todos os recordes disponiveis. O final de cada temporada converteu-se num calvário físico e a sua prestação nos jogos decisivos do ano, com o seu clube e a sua selecção, sofreram em consequência. Eram os anos da afirmação de Messi, tanto como goleador como no papel de passador, e aqueles em que Cristiano já queria ser Ronaldo mas não se permitia abandonar a sua zona de conforto para ser mais determinante para o colectivo. O corpo, tal como sucedeu com Puskas e com Ronaldo, ainda que em menor grau de sofrimento, forçou o cérebro a procurar uma solução e com Zinedine Zidane de conselheiro, primeiro como adjunto de Carlo Ancelotti e mais tarde como treinador principal, a metamorfose completou-se. O extremo tornou-se avançado. Cristiano fez-se Ronaldo.

Da linha à grande área, a metamorfose de CR7

Entre 2009 e 2014 o estilo de jogo de Cristiano Ronaldo foi-se modificando, primeiro a um ritmo muito lento e depois num verdadeiro salto diferencial. Ronaldo era, no início, sobretudo um driblador e um passador com um grande faro goleador. Era o jogador que mais procurava o um contra um e o passe no ataque merengue e a frequência dos seus disparos resultava num ratio inferior de aproveitamento. Marcava muito, sim, mas também disparava muito mais. Com o passar dos anos o 7 foi metamorfoseando noutro perfil de futebolista. Cada vez menos buscando o duelo individual, cada vez menos buscando o passe e, sobretudo, cada vez menos buscando o disparo. No entanto os seus números melhoraram porque ainda que tenha baixado o volume de acções o que melhorou exponencialmente foi a sua eficácia. Ronaldo marca a esmagadora maioria dos seus golos ao primeiro toque, quase sempre sem necessidade de controlar o esférico ou de procurar uma tabela. Deixou de querer conduzir o esférico até ao golo para surgir no local certo onde executa o golpe mortal. Transformou a sua ânsia de buscar o passe antes da assistência para entreter-se a gerar os espaços que provocam o passe ao golo que acabará por marcar. E sobretudo, deixou de querer procurar o disparo de qualquer posição para medir bem cada acção, esperando, como um felino na savana, o momento certo de fazer-se à presa.

À medida que o tempo passava nos últimos três anos e que Lionel Messi ia recuando no terreno de jogo, Ronaldo ia avançando e centralizando o seu, sem nunca cair no erro de converter-se num nove puro. O seu lugar não é definido por um desenho táctico, vive da liberdade dos seus movimentos e do aproveitamento dos espaços. Já não tanto colado à linha lateral mas também sem viver dentro da grande área como se de uma jaula se tratasse. Ronaldo corre menos, passe menos, disparo menos mas é hoje um futebolista muito mais determinante do que alguma vez foi. Os seus golos valem mais pontos e mais eliminatórias do que no passado e já não necessita das Botas de Ouro – tem quatro a seu nome – para ser considerado como o mais goleador de área do mundo. Os seus cinco troféus de melhor marcador da Champions League consecutivos resultaram em três títulos continentais. O ser o maior goleador histórico das grandes ligas mundiais, do Real Madrid com 406 golos em sete anos e o maior anotador histórico de Portugal, com 74 golos em 139 jogos, é apenas consequência directa dessa evolução competitiva que também vem acompanhada de uma maior dosificação física.

Tal como Puskas e Ronaldo Nazário no passado, Cristiano Ronaldo entendeu que o corpo evoluciona mas a mente é que tem de permanecer activa competitivamente e encontrou forma de respeitar o organismo sem deixar que isso afecte o resultado da sua acção no terreno de jogo. Apenas a modifica. Que esteja a ponto de vencer o seu quinto Balon D´Or igualando um futebolista que estava marcado a dominar uma era, é reflexo da metamorfose da sua inteligência de jogo e na colectivização da sua acção individual. Quatro chegaram nos últimos cinco anos apesar de já ter cumprido 32. Com a sua idade actual, Ferenc Puskas tinha começado a sua reconversão e acabava de vencer a sua primeira Taça dos Campeões Europeus e Ronaldo Nazário estava praticamente retirado.

Um jogador, duas versões para a posteridade

A metamorfose competitiva de Cristiano Ronaldo é um caso único nos desportos de elite. Muito raramente um futebolista logra manter-se no topo durante quase toda a sua carreira mas nunca nenhum tinha alcançado o feito de estar no topo no início da mesma sendo um jogador de umas determinadas caracteristicas para depois voltar a ele como um atleta distinto. Tanto Puskas como Ronaldo eram claramente os melhores futebolistas da sua geração no momento da sua ascensão inicial mas quando voltaram, ainda que mantendo condições de elite mundial, encontraram-se com jogador melhores e mais completos. No caso do húngaro a presença imperial de Alfredo di Stefano ao seu lado que certa forma também ofuscou a sua segunda etapa como futebolista de elite mas também a aparição de Pelé, Garrincha ou Eusébio. No do brasileiro, a consagração de Zinedine Zidane e a ascensão do seu compatriota Ronaldinho Gaúcho. Cristiano Ronaldo no entanto protagoniza uma narrativa diferente. A sua melhor versão como extremo goleador levou-o em 2008 a lograr o que poucos atletas conseguem em toda a sua carreira. Tinha apenas 23 anos e era o melhor do mundo. No entanto, depois de passar por um período em que nunca deixou de estar nos dois lugares mais destacados do mundo do futebol, soube encontrar nessa reconversão um atalho para voltar a ser considerado o futebolista mais importante do planeta futebol. Mais determinante, mais decisivo e mais relevante nos momentos que contavam e também o mais titulado. Passaram quase dez anos entre uma versão e outra mas ambos encontraram o seu caminho para a história. Qualquer uma delas teria sido suficiente para considerar Cristiano Ronaldo como um dos melhores futebolistas da História. A soma das duas coloca-o num patamar muito especial…o da maior metamorfose competitiva que este desporto já conheceu.

 

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