Corrado Orrico, o filósofo maldito do Calcio

Num acto de desespero e loucura, Ernesto Pellegrini achou que tinha encontrado uma réplica de Arrigo Sacchi. A curta passagem de Corrado Orrico pelo banco do Inter é uma história de erros, retrocessos tácticos e conspirações que elevaram ás nuvens e deitaram aos infernos a mais curta carreira de um filosofo do Calcio na elite da Serie A.

O homem que treinava em jaulas

As suas equipas treinavam em jaulas, em tudo similares ás popularizadas anos mais tarde pela Nike num anuncio mítico, mas preparar a sua condição física. No seu quadro, os peões moviam-se em linhas que aos mais despistados pareciam radicalmente inovadoras mas que não passavam, de facto, de uma réplica a papel química do WM, o sistema que prevaleceu durante mais de trinta anos como a essência táctica do futebol. Toda a sua carreira foi passada entre equipas das divisões amadoras e a Serie B. E no entanto, no meio de tantas contradições, em Julho de 1991 o aparentemente desconhecido Corrado Orrico foi apresentado com toda a pompa e circunstancia em Milão como o sucessor de Giovanni Trapattoni como treinador do Inter.
“Il Trap”, cansado das loucuras do presidente neruazurri, Ernesto Pellegrini, tinha assinado semanas antes o papel que lhe abria de novo as portas da sua Juventus.

Com o Inter tinha logrado um Scudetto – seria o último durante quase duas largas décadas – e depois de perder o sprint final com a Sampdoria um mês e meio antes, desforrara-se batendo a Roma na final da Taça UEFA, a primeira vez que o clube ganhava uma prova europeia desde os dias de glória de Helenio Herrera. Parecia uma herança pesada para alguém que tinha de dar prioridade á legião “tedesca” do Inter, liderada por Mathaus, Klinsmann e Bremhe, ao lado de um conjunto envelhecido de futebolistas transalpinos. Orrico no entanto vinha com a ambição em alta, falando do Scudetto como um objectivo lógico. Atrás de si Pellegrini sorria. Todos os jornalistas pareciam adulá-lo com uma comparativa que era exatamente o que ele procurava. Se o seu rival do outro lado da cidade, Silvio Berlusconi, tinha resgatado do anonimato a Arrigo Sacchi para conquistar o Mundo, agora era a vez do Inter replicar a fórmula e lançar as bases do futuro nas mãos de um homem que ninguém parecia conhecer. Um homem que, meses depois, muitos preferiam não ter sequer conhecido.

O aspirante a “Sacchi” do Inter

Orrico era um personagem singular como tantos outros treinadores míticos do Calcio.
Tinha algumas semelhanças com Gippo Viani, o auto-proclamado pai do “Vianema”, o primeiro desenho táctico a trabalhar de forma consciente o “catenaccio” em Itália, nos anos 50. Tal como Viani, então treinador da Salernitana, também Orrico tinha-se transformado numa espécie de guru da Serie B com outra equipa modesta, o Luchese. Antes de ter tomado as rendas do clube, em 1988, tinha sido treinadores de emblemas secundários da Serie B e C como a Udinese, o Brescia, o Carrarese ou o Prato. Tinha já cinquenta anos cumpridos e pouco currículo que mostrar. No final da temporada de 1990/91 mediu-se num duelo quase simbólico com Zdenek Zeman pela Serie B. Zeman e o seu Foggia ganharam o duelo e foram promovidos. O Lucchese ficou às portas de fazer história.

Sabendo que ia ficar sem Trapattoni no final do ano, Pellegrini estava disposto a sacar um ás da manga. Nos anos dourados do Calcio nem sequer lhe passou pela cabeça procurar um treinador estrangeiro, sabendo que iria ser crucificado pelos adeptos. Não havia nenhum nome consensual no mercado e foi então que alguém lhe falou sobre o Lucchese e o seu treinador. O presidente neruazurri foi ver a equipa jogar, gostou do que viu e pensou imediatamente em Sacchi. E viu-se como o novo Berlusconi.
As equipas de Orrico jogavam num descarado WM, uma espécie de 3-4-3 vintage, que gerava um fluxo ofensivo considerável mas que deixava sempre a sua linha defensiva exposta aos rivais. Numa época em que Sacchi tinha enterrado o libero a sua defesa de três, com dois laterais abertos, parecia recordar o passado glorioso do próprio Inter. Pellegrini fez a oferta , Orrico aceitou de imediato e poucas semanas depois chegou ao centro de estágio neruazurri para demonstrar que, tal como Sacchi, não era necessário ter sido cavalo para ser um bom jockey. Os jogadores receberam-no com suspeitas.

O choque do filósofo com os soldados alemães

Nenhum deles mais do que Mathaus, homem de confiança de Trapattoni, receoso que um modelo táctico extravagante fosse comprometer o equilíbrio da equipa. Orrico pediu a contratação de um jogador apenas, um jovem chamado Paolo di Canio. Em troca recebeu um não. Os relatórios do clube falavam de um futebolista instável que não se adaptaria ao grupo. Tudo começava a desmoronar-se ainda não tinha sido posta a primeira pedra.
Nas primeiras sessões de treino Orrico aplicou o modelo da jaula para trabalhar o físico dos jogadores. Os veteranos como Bergomi olharam para a inovação com desprezo e queixaram-se à direção. A jaula ficou mas as relações entre treinador e balneário nunca mais foram as mesmas. Corrado pedia aos três defesas uma marcação á zona mas sem o apoio de um libero, os veteranos pretorianos de Trapattoni pareciam incapazes de adaptar-se. A entrada na temporada foi um desastre.

A equipa somou desaire atrás de desaire, o mais simbólico de todos uma eliminação contra o Boavista na primeira eliminatória da Taça UEFA, competição da qual eram detentores. Sem jogos europeus, eliminados cedo da Taça, a Orrico sobrava-lhe apenas a Serie A para mostrar serviço. A derrota por 4-0 contra a Sampdoria deixou claro que o projeto não tinha futuro. Em Dezembro a equipa estava perdida no meio da tabela, a anos luz dos seus rivais Rossoneri.

O homem que treinava em jaulas

Uma derrota contra a Atalanta, em Bergamo, por 1-0 colocou o ponto final na relação entre o treinador e o clube. A caixa de treinos ficou, prova eterna de que nem todos os candidatos a profeta conseguem corresponder às expectativas. Inspirados pelo exemplo de Sacchi, os jornalistas e dirigentes italianos apressaram a receber o regresso ao passado de Orrico como um maná dos céus quando este foi apresentado.

O treinador, que tinha dito aos jornalistas na sua apresentação que o Ferrari de Fangio – campeão do Mundo no apogeu do WM – era igual ao de Prost – então piloto da escuderia – e portanto tão atual como o seu esquema táctico podia ser, caiu no esquecimento. Dias depois do seu despedimento já ninguém queria ouvir falar das suas excentricidades. Ao contrario do que sucede habitualmente, nenhum clube voltou a abordar Orrico para uma segunda oportunidade. Da mesma forma que chegou á Serie A, desapareceu, para sempre. Voltou a treinar mas apenas equipas dos escalões secundárias e todas elas terminaram por sofrer o escárnio de quem acabou por ver em Corrado o outro lado da moeda de Sacchi, a versão satírica e decadente.

O êxito de Zeman tinha dado ao Calcio o seu novo profeta do “Futebol Total”, o papel de Sacchi ao comando da Squadra Azurra era cada vez mais criticado e o êxito de homens como Capello e Lippi, treinadores mais tradicionais na sua essência, pareciam condenar para sempre estes golpes de audácia onde a procura pelo génio individual do treinador levavam muitas vezes o caminho para o precipício.

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