Durante muito tempo a Taça Intercontinental reclamou para si o título de mundial de clubes apesar de medir apenas em duelo os campeões continentais da Europa e América do Sul. Mas o torneio oficializado em 1960 não foi o primeiro a reunir a elite mundial na disputa de um titulo mundial. Cabe à Copa Rio a honra de ser considerada a primeira competição mundial de clubes.

A dificuldade em criar um Mundial para clubes

Muito antes dos duelos a duas mãos da Intercontinental ou do jogo a encontro único em Tóquio, houve um torneio que decidiu medir o potencial dos maiores clubes dos dois lados do Atlântico. Hoje o Mundial de Clubes é um torneio reconhecido e organizado pela FIFA e tem o condão de incluir representantes de todas as confederações continentais mas no dealbar dos anos cinquenta a FIFA contava pouco com as suas confederações e tratava diretamente com os países. Um cenário normal tendo em conta que apenas a CONMEBOL existia oficialmente e não havia rastos sequer de uma ideia em papel que se transformaria, anos depois, no embrião da UEFA. Nesse contexto era difícil organizar um Mundial de Clubes procurando representantes continentais oficiais quando não existiam ainda essas competições. A Copa Libertadores nascerá apenas em 1960 e os campeonatos de clubes da Ásia, África, América do Norte e Oceânia terão ainda de esperar.

No caso da Europa, pioneiros nos duelos continentais de clubes – ao contrario de seleções onde a primazia é sul-americano – a Taça dos Campeões Europeus era ainda um sonho na cabeça de Gabriel Hanot. A Europa mediterrânica desfrutava da aurora da Taça Latina e a Europa central procurava resgatar das cinzas a herança emocional da Mitropa ao mesmo tempo que os ingleses continuavam iguais a si próprios, orgulhosamente sós. Nesse cenário criar um torneio mundial de clubes podia soar a quimera mas contra todo prognóstico esse torneio teve realmente lugar, debaixo do paradisíaco cenário do Rio de Janeiro, a sede inaugural da Copa Rio.

Uma invenção brasileira

A concepção original do torneio nasceu nos escritórios da CBD, a Confederação Brasileira dos Desportos, antecessora da CBF, como uma forma de medir os campeões paulistas e cariocas – a liga brasileira era ainda uma utopia – com os principais campeões das nações mais importantes do futebol mundial. O torneio contaria portanto com convites às principais federações de ambos os lados do Atlântico. Argentinos, uruguaios, ingleses, italianos, espanhóis e suecos foram convidados, sobretudo tendo em conta o prestigio e a classificação final do Mundial que tinha acabado de disputar-se no país.

O convite estendeu-se igualmente a Portugal por razões afetivas já que ninguém tinha o país entre os potentados mundiais. O convite mais tarde foi também feito ao campeão francês – ilustres ausentes do Mundial – dada a recusa do Atlético de Madrid espanhol em cruzar o Atläntico. Os colchoneros não foram os únicos a rejeitar participar na prova já que também o Barcelona e o Milan se mostraram reticentes em viajar, particularmente porque apostavam forte na participação na Taça Latina cuja data coincidia com a competição. Os ingleses, como é hábito, e os suecos – onde não existia liga profissional – também declinaram o convite abrindo assim as portas aos campeões austríacos e jugoslavos, os primeiros pelo palmares obtido na Mitropa e os segundos pela excelente imagem deixada aquando do Mundial. Os argentinos deixaram o convite em standby mas tomariam parte, como os alemães, na segunda edição do torneio.
A competição foi organizada em formato de poule com dois grupos de quatro equipas, um sediado em São Paulo e outro no Rio de Janeiro. Os dois primeiros de cada grupo disputariam as meias-finais e os respectivos vencedores a final, a ter lugar no já mítico Maracanã.

Palmeiras, o primeiro campeão do mundo

A edição inaugural da Copa Rio 1951 foi um êxito popular. As bancadas dos estádios paulistas e cariocas encheram para ver alguns dos clubes mais famosos do mundo disputarem um ceptro de cariz continental e a cobertura jornalística do evento esteve à altura da de um Mundial de futebol. Á distancia a FIFA aceitou sancionar o torneio de forma e tanto Ottorino Barasi como o próprio Jules Rimet estiveram envolvidos na organização. O grupo paulista foi dominado pela Juventus – que contou com o grande apoio da forte comunidade local italiana – vencedor dos três encontros disputados. No segundo lugar ficou o Palmeiras – até há pouco tempo conhecido como Palestra Itália, que acabou claudicou no duelo com a Vechia Signora, vencedora por um contundente 4-0. Eliminados foram o Nice e o Estrela Vermelha.

No Rio de Janeiro a grande decepção foi o Sporting de Portugal que saiu do torneio sem qualquer vitória, superado claramente pelos seus rivais. Os leões foram batidos no jogo inaugural, a 30 de Junho, pelo Áustria de Viena por uns claros 4-0 e um dia depois repetiu-se a goleada sofrida, agora com os anfitriões do Vasco da Gama, por cinco golos a um. Já eliminados os lisboetas mediram-se ao Nacional de Montevideo logrando o seu melhor resultado, uma derrota pela mínima. Face à evidente superioridade dos austríacos coube aos vascaínos e aos uruguaios disputar o segundo lugar do grupo, com triunfo dos locais no último dia da fase regular. As meias-finais, disputados dias depois em duas mãos, confirmaram a superioridade do grupo paulista com a Juventus a eliminar o Áustria e o Palmeiras a bater o Vasco da Gama. A equipa brasileira, goleada na primeira fase pelos italianos, deram a volta e na final bateram os italianos levando aos delírios os organizadores que temiam já uma segunda derrota consecutiva dos locais depois do desastre do Maracanazo.

O êxito absoluto da organização levou à antecipação da segunda edição, inicialmente prevista para 1953 num formato bianual. A decisão foi igualmente reforçada pelas pressões do Fluminense que celebrava o seu 50º aniversario. Muitos dos europeus que recusaram viajar fizeram-no por motivos similares ao do ano anterior, como a participação da Taça Latina mas a decisão de antecipar a competição num ano provou ser um erro uma vez que coincidiu com um torneio organizado na Venezuela e previsto há algum tempo que também adotaria o nome sugestivo de Pequeño Mundial de Clubes, recebendo entres os inscritos clubes como os Millionarios de Bogotá, onde militava Di Stefano ou o Real Madrid que por já terem acertado a viagem a Caracas foram forçados a recusar o convite dos brasileiros.

O Sporting dos Cinco Violinos repetiu a participação em nome de Portugal – com uma prestação superior ao do ano transacto com empate com Fluminense e vitória ao Grashoppers – e juntou-se assim a Sarbrucken – vice-campeões alemães – Libertad, Peñarol, Grashopers, Austria de Viena e Corinthians e Fluminense, os campeões paulista e carioca. Os anfitriões voltaram a reforçar o seu favoritismo e acabaram por disputar a final entre si. A celebração do Fluminense continuou noite adentro, em ano de meio século de história o clube reclamava agora para si o titulo de campeão mundial.

Um final inevitável

As recusas da elite europeia em participar no tornei, optando por viajar à Venezuela ou a disputar os torneios regionais agendados para o final da temporada, colocaram a terceira edição em suspenso. A Copa Rio oficialmente não se voltaria a realizar e em seu lugar disputou-se um torneio como outro nome – o Torneio Octagonal Rivadavia Correa Meyer – mas de Mundial de Clubes já tinha pouco uma vez que cinco das oito equipas eram brasileiras e da Europa apenas viajavam o Hibernians escocês e, uma vez mais, o Sporting. Em 1954, a UEFA começou a sentar as bases para a criação da Taça dos Campeões Europeus e na própria América do Sul começou igualmente a debater-se a necessidade de criar um torneio continental.

Os dois potentados continentais abandonaram a ideia de um torneio mundial para concentrarem-se a fomentar competições dentro da sua geografia e a ideia de um Mundial de Clubes ficou na gaveta. Quando se restaurou, no formato da Taça Intercontinental, o mundo do futebol era já radicalmente diferente. O que nada impede, no entanto, que o Palmeiras ainda hoje se considere como o primeiro campeão mundial de clubes. Um título que não falta demasiado à verdade dos tempos.

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