A Copa del Rey que salvou o Barcelona moderno

A era moderna do FC Barcelona está marcada por um nome: Johan Cruyff. O holandês ajudou a redefinir um clube historicamente perdedor e transformou a mentalidade e a forma de trabalhar desde a base para lançar o “Barça” para a sua etapa mais dourada. Tudo esteve a ponto de não acontecer. A poucos dias da final da Copa del Rey de 1990, com o eterno rival,  Cruyff recebeu um ultimato. O futebol moderno deve muito a esses noventa minutos.

Ganhar ou morrer, Valência 1990

A 5 de Abril de 1990 o FC Barcelona viveu uma das suas maiores encruzilhadas históricas. Nas horas seguintes ia decidir-se mais do que o presente imediato do histórico clube blaugrana. Era o futuro que estava em jogo. Depois de dois anos, Johan Cruyff não tinha conquistado qualquer título doméstico e estava debaixo de forte contestação. O holandês sabia como funcionava o futebol e, sobretudo, o FC Barcelona. Tinha jogado entre 1974 e 1979 na entidade catalã, ajudando a conquistar o primeiro título nacional desde 1960 logo na sua primeira época. Depois caiu no marasmo e paradoxo permanente da vida no clube e não voltou a levantar um só troféu antes da sua saída para o futebol norte-americano e posterior regresso à Holanda. No período entre a etapa Cruyff jogador e treinador o FC Barcelona venceu apenas uma liga, em 1985, com o inglês Terry Venables ao comando. Pelo clube tinham passado nesse período alguns dos melhores treinadores – Udo Lattek, César Menotti, Luis Aragonés – e jogadores – Schuster, Maradona, Simonsen, Lineker – do mundo mas todos pareciam incapazes de reverter a tendência auto-destructiva do clube.

Para aprofundar ainda mais a sensação de desnorte o Barcelona tinha de ver como o seu eterno rival vivia uma nova etapa dourada. Depois de um interregno de cinco anos, entre 1980 e 1985, o maior na sua história pos-Di Stefano, o Real Madrid voltara aos títulos em 1986 e desde então tinha somado quatro títulos consecutivos. Com uma geração de talentosos atletas da formação complementada com jogadores veteranos e um goleador mexicano letal, a Quinta del Buitre era o orgulho estético e emocional do futebol espanhol, precisamente o reverso da medalha do Barcelona de então. Aos merengues faltava apenas coroar o seu projecto com um título europeu – algo que o Barcelona também era incapaz de produzir – e para muitos a final da Copa del Rey era algo que pouco importava realmente na lista de prioridades que passavam pela conquista do Pentacampeonato, semanas depois. Pelo contrário o Barcelona precisava de um triunfo para validar um projecto que se cozia a fogo lento. Cruyff chegara a Camp Nou depois de um motim no balneário que resultou no despedimento de Aragonés mas o triunfo na Copa del Rey dessa época permitiu ao holandês guiar o clube à vitória na Taça das Taças de 1989 frente à Sampdoria. A eliminação precoce na competição em 1989/90, o terceiro lugar final no campeonato atrás dos rivais de Madrid colocava o lugar de Cruyff por um fio. Dias antes da final chegou a ameaça. Vencer ou rua.

As chaves do projecto Cruyff

Cruyff sabia que pela frente tinha um rival temivel mas como sempre, confiava no seu plano de jogo. O seu projecto era a longo prazo mas a necessidade de resultados imediatos fez o holandês apostar em duas vias complementares. Por um lado o motim de Hesperia provocou uma profunda mudança na estrutura do balneário. Cruyff entendeu que para ter uma equipa competitiva necessitava jogadores de carácter, habituados à máxima exigência mas que se enquadrassem na sua ideia de jogo. Virou de imediato os olhos para o País Basco onde pescou nos seguintes defesos a Bakero, Zubizarreta, Beguiristain e Alexanko, verdadeiros durões dos relvados mas com bom critério com a bola nos pés. Paralelamente, Cruyff procurou futebolistas de elevado corte técnico e enquadrados na sua ideia de jogo herdeira da escola do futebol total do seu mentor Rinus Michels para ocupar as vagas dos estrangeiros que tinham sido de Aloísio, Lineker, Hughes e Schuster nos anos anteriores. A sua primeira grande aposta foi recrutar Ronald Koeman ao campeão europeu PSV. Com o médio holandês conseguiu um jogador polivalente que tanto podia mover-se pelo miolo como pela defesa, com uma saída de bola sem igual no panorama internacional, o que na prática dava ao Barça a possibilidade de mover-se perpétuamente entre um 3-4-3 e um 4-3-3 com Koeman como libero ofensivo.

Para funções ofensivas, Cruyff não perdeu tempo e ao descobrir que Laudrup estava insatisfeito em Turim – para onde se tinha transferido de forma a ser o herdeiro natural de Platini mas onde, depois de uma passagem pela Lazio, não se conseguiu impôr – juntou-o ao plantel blaugrana nesse defeso, conseguindo o contributo de um dos mais estilistas e esclarecidos pensadores de jogo ofensivo do mundo. A força física e omnipresença do quarteto basco e o talento individual das suas estrelas internacionais sentavam a base de uma ideia que ia mais além, com a incorporação de jogadores da formação treinados, desde cedo, num novo ADN de jogo que Cruyff procurava implementar e que seguia a escola de pensamento de Michels e de Laureano Ruiz,  De aí iriam sair primeiro Luis Milla e logo depois Pep Guardiola mas nessa noite em Valência nenhum dos dois era ainda opção e Cruyff tinha de contentar-se com jogadores de outro perfil como Aloísio – que depois passaria para o FC Porto e que ocupava a terceira vaga de estrangeiros que logo seria de Hristo Stoichkov – Amor, Eusebio e Roberto.

Na frente de ataque o sempre discutido Julio Salinas, um dos jogadores mais polémicos da sua geração, um avançado com pouco golo mas com muita presença na área ainda que a anos luz dos registos dos seus rivais, Emilio Butrageño e Hugo Sanchez.

O jogo mais importante do FC Barcelona moderno

Depois de eliminar o Athletic Bilbao, Real Sociedad e o Valência nas rondas anteriores, o Barcelona surgia sem o cartel de favorito mas com a corda na garganta. Em jogos desta natureza estar junto ao precipício habitualmente dá outra energia e foi isso que sucedeu. O Barcelona procurou ter sempre o controlo do jogo ao manter a posse de bola, fazendo os merengues mover-se ao largo de todo o terreno de jogo. Eram incapazes de criar perigo mas também não permitiam a um rival conhecido pela sua tremenda eficácia ofensiva chegar perto das redes de Andoni Zubizarreta.

A jogada começou a resultar quando os jogadores do Real Madrid, habituados a manejar o ritmo do jogo, foram perdendo a cabeça e cometendo faltas atrás de faltas. Ao minuto 30 Aloísio teve de ser retirado por uma lesão provocada por Hugo Sanchez e Fernando Hierro foi acumulando faltas e cartões até acabar expulso no último minuto da primeira parte. Com superioridade numérica, o controlo do esférico e maior frescura física, o Barcelona finalmente dedicou-se a atacar a baliza de Buyo. Sanchis esteve perto de ser igualmente expulso, por uma agressão a Salinas, e logo teve responsabilidade directa no golo inaugural, de Guillermo Amor, quando tinham passado quase setenta minutos de jogo. O Mestalla rugiu com as celebrações dos milhares de adeptos que tinham baixado a costa desde a Cidade Condal e que entraram em euforia minutos depois, com o segundo golo, já nos descontos, anotado por Salinas. Era o primeiro golpe sério que Cruyff conseguia desferir ao eterno rival e o preâmbulo do que estava para seguir.

Em campo a eufórica celebração dos jogadores era reflexo da tensão vivida no balneário. Todos sabiam da necessidade de um importante balão de oxigénio com os adeptos e com a direcção e tinham-no conseguido. O triunfo permitiu a Cruyff um bónus de mais doze meses ao cargo mas já não lhe bastaria com voltar a vencer uma Copa del Rey. O clube queria mais. E teve a época mais brilhante da sua história. Na seguinte temporada o Barcelona voltou a disputar a final da Taça das Taças – perdida contra o Manchester United – e conquistou o seu primeiro título em seis épocas, lançando as bases para uma sequência histórica de quatro campeonatos consecutivos. O coroar do projecto chegou em 1992, com a ansiada vitória na final da Taça dos Campeões Europeus, o título que faltava. A esses anos chamaram-lhe os do Dream Team e a chegada de Stoichkov e depois de Romario, a afirmação de Milla, primeiro, e Guardiola, Ferrer, Sergi depois, confirmaram que todas as ideias de Cruyff tinham tido sentido e estavam a funcionar plenamente.

Um longo verão de amor que esbarrou em Atenas 1994 com um golpe de realidade chamado AC Milan. A etapa de Cruyff estava a ponto de terminar mas as sementes estavam lançadas e a época dourada do Barcelona iria perdurar durante os vinte anos seguintes. Tudo fruto de uma vitória numa das finais da Copa del Rey mais importantes da história. A que permitiu ao Barcelona abandonar a sua colecção de traumas de clube perdedor e o elevou à condição de elite mundial de modo definitivo e inequívoco.

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