Copa de Campeones, a taça que lançou a Copa Libertadores

Não tem o prestigio e o glamour da sua congénere europeia. No entanto, para os fanáticos do futebol, a Copa Libertadores pode ser tão apaixonante como a Champions League. Mas o torneio da elite futebolística sul-americana tem a sua origem numa competição que a antecipou em mais de uma década e que lançou as bases das noites europeias.

A primeira competição continental de clubes da história

Num continente onde as distâncias conta, e muito, no moldar da consciência emocional dos povos, o futebol sempre se moveu nos espaços urbanos ligados entre si pelo comboio. A cintura futebolística no Atlântico e Pacifico levou a que durante mais de meio século os clubes sul-americanos limitavam-se a jogar contra os rivais das cidades mais próximas. Uma competição continental, como tal, era praticamente inviável. Foram esses duelos regionais que moldaram a matriz do jogo. As competições entre campeões uruguaios e argentinos, entre chilenos, peruanos e bolivianos ou, dentro do imenso Brasil, entre os campeões estaduais, eram os únicos torneios “internacionais” a que os adeptos tinham direito. Em 1947 tudo mudou.

Pela primeira vez o futebol da América Latina decidiu unir-se para celebrar a sua condição. Com o resto do Mundo a sair de uma guerra suicida, o continente americano era um oásis de crescimento económico e expansão demográfica. Uma idade de ouro que também se sentia nos relvados. Entre os clubes de elite do continente estavam, sem dúvida, algumas das melhores formações do mundo. Bastava agora medi-las entre si para averiguar, realmente, quem liderava o comboio do futebol sul-americano.

 O primeiro campeão de clubes sul-americano

A competição que rompeu com décadas de isolamento foi idealizada na mais democrática e desenvolvida das repúblicas sul-americanas, o Chile. Os campeões nacionais, o Colo Colo, estavam cansados de medirem-se exclusivamente a clubes da costa do Pacifico. Depois de tantos anos de hegemonia nacional, sentiam-se preparados para disputar o trono continental com os mais populares emblemas argentinos, brasileiros e uruguaios. Depois de meses de negociações, os chilenos finalmente persuadiram as restantes federações da CONMEBOL a organizar um torneio para os clubes campeões nacionais. Seria disputado durante o Verão, entre Fevereiro e Março de 1948, no Chile.

Participariam os campeões nacionais proclamados no ano anterior nos respectivos países que assim se juntariam ao Colo Colo num grupo onde todos jogavam contra todos. O repto foi aceite e os participantes anunciados. Colombianos, venezuelanos e paraguaios recusaram entrar no certame, reduzindo as equipas em prova a sete. Ao Colo-Colo juntaram-se os equatorianos do Emelec, os bolivianos do Litoral, o Deportivo Municipal do Peru e o Nacional de Montevideo. Da Argentina e do Brasil chegavam as duas mais célebres equipas da sua geração, o River Plate de “La Maquina” e o Vasco da Gama, conhecido já como “O Expresso da Vitória”. O torneio, inevitavelmente foi baptizado como Copa Sudamericana de Campeones.

A 11 de Fevereiro o Colo-Colo dá o pontapé de saída na prova contra o Emelec em Santiago do Chile. O empate a 2-2 deixou claro que a ideia de superioridade dos anfitriões não se evidenciava na prática. O Colo-Colo terminaria o torneio na quinta posição enquanto que os equatorianos seriam os últimos da série. Como era previsível, as três potencias continentais disputaram o titulo até às últimas rondas. A 9 de Março o Colo-Colo bateu por 3-2 o Nacional de Montevideo e afastou-os da luta pelo titulo que ficava reduzida a Vasco da Gama e River Plate. Os brasileiros partiam com três pontos de avanço para o último encontro forçando os “portenhos” a uma inevitável vitória. Num duelo com mais de 50 mil adeptos nas bancadas do estádio nacional – a média de espectadores roçou os 40 mil espectadores por encontro – a ausência de golos consagrou os brasileiros como vencedores do torneio. De nada valeu ao River a vitória contra os anfitriões no último jogo. Era o Vasco da Gama quem levava para o Rio de Janeiro o primeiro título de campeão de clubes da América do Sul.

O legado da Copa de Campeones

O torneio foi um verdadeiro sucesso mediático à época.

As transmissões dos jogos através da rádio reuniram multidões nas cidades dos clubes participantes. O Vasco foi recebido como um exército vitorioso em batalha no seu regresso ao Brasil e a recaudação do torneio permitiu a todos os participantes conseguir lucro suficiente para cobrir as despesas de um mês de torneio. Na Europa, onde se começava a reconstruir uma consciência continental no preâmbulo da Guerra Fria, a ideia de um torneio continental ganhou imediatamente adeptos. O continente tinha tido a sua dose de competições de clubes, desde a Der Challange Cup à Taça Mitropa, mas sempre em âmbito regional. Vários jornalistas e dirigentes começaram a lançar a semente da ideia de um torneio continental entre europeus. Indiretamente a Copa dos Campeones abriu caminho para o nascimento da Copa Latina – que arrancaria dois anos depois e que seria impulsionada por genuínos adeptos da ideia sul-americana – e, uma década depois, do nascimento da Taça dos Campeões Europeus.

Ironicamente, a Copa dos Campeones não se voltou a organizar como tal. A experiência foi congelada no ano seguinte e depois, numa das habituais experiências do futebol sul-americano, não houve acordo sobre o modelo a seguir, o país que serviria de anfitrião e o critério de representação equitativa entre nações tão diferentes como o Brasil e o Equador. O torneio foi enterrado na memoria da história até que em 1958, já com a Europa a viver a era dourada do Real Madrid na Taça dos Campeões Europeus, as federações sul-americanas se voltaram a reunir para apresentar um novo modelo de competição continental instigados pelo desafio da UEFA em criar um torneio entre os campeões dos dois continentes, a futura Taça Intercontinental.

Um ano depois a competição foi finalmente aprovada num congresso continental e em 1960 a prova que viria a ser baptizada como Copa Libertadores ganhou vida e foi conquistada, na primeira edição, pelos uruguaios do Peñarol. Tinha passado mais de uma década desde aquele Verão glorioso em Santiago do Chile. Rapidamente a competição ultrapassou a barreiras dos campeões – em 1966 já participavam dois países por nação, hoje no caso brasileiro e argentino podem disputar até cinco equipas por país – mas na memoria ficou sempre aquele titulo conquistado pelo Vasco da Gama, reconhecido décadas depois como o verdadeiro primeiro campeão da América do Sul.

2.024 / Por
  • Norberto

    Grande Vasco: lindo passado, triste presente.