No ano em que a Argentina cumpria o seu primeiro século o continente sul-americano uniu-se para disputar um torneio que entraria para a história. A mais antiga competição continental de países nasceu quase como por casualidade e chamou-se Torneio Sudamericano para transformar-se na atual Copa America. Agora é ela que está prestes a cumprir cem anos de tudo menos de solidão.

A mais antiga competição de seleções em ativo

Uma competição anárquica, desorganizada e difícil de explicar aos que não conhecem as especificidades do futebol sul-americano. Mas também um torneio apaixonante, repleto de edições memoráveis e heróis inesperados. Durante noventa e nove anos o futebol na América do Sul dançou e chorou ao som desses gritos de vitórias e derrotas que moldaram a essência de um torneio que já vai na sua enésima reencarnação. Uma última carapaça com nomenclatura e estrutura própria, dificilmente a última, que dista muito das memorias da sua origem. Um pontapé de saída inesperado do qual ninguém seria capaz de adivinhar o resultado final. Há noventa e nove anos o futebol sul-americano decidiu celebrar a própria natureza do continente á volta de um torneio. Nenhum pensaria que esse grande concerto de celebrações se fosse converter num dos maiores torneios da história do jogo.

Atualmente a Copa América é a mais antiga competição do mundo de seleções, um estatuto que herdou do Home Championship, o primeiro “Mundial” disputado pelos países (re)fundadores do futebol e que chegou ao seu final em 1984. Não há torneio mais antigo na memoria e nem mesmo os Jogos Olímpicos se podem comparar à aventura sul-americana que arrancou nesse 1916 em Buenos Aires. Originalmente conhecido como Sudamericano, o torneio hoje dista muito das suas origens. As escassas federações continentais obrigam a presença de um recorrente leque de convidados, algumas vezes bastante exóticos, para que a competição possa discorrer dentro da normalidade presente. Nada disso passava pela cabeça dos seus instigadores. Nada a não ser celebrar um século de uma América do Sul livre.

Celebrar um século de Argentina com toque uruguaio

Em 1916 a Argentina celebrava os seus primeiros cem anos de liberdade.

Anos convulsos, repletos de pequenas guerras contra os vizinhos brasileiros, paraguaios, chilenos, uruguaios e até mesmo com alguma que outra intervenção militar europeia – de aí a ocupação britânica das Malvinas/Falklaand – mas também de um admirável e espantoso crescimento económico e social. Para marcar com letras de ouro o centenário, o governo argentino promoveu uma série de eventos especiais que deveriam reforçar a “argentinidade” da nação. Entre esses acontecimentos estava um torneio de futebol entre os países vizinhos a disputar em Buenos Aires.
A competição tinha claramente um cariz celebratório mas os participantes não vinham com outra intenção que não a de ganhar aos anfitriões. Nesses anos, com a Europa em guerra, era precisamente nas margens do rio de la Plata que se começava a cultivar uma terceira grande escola futebolística depois dos anos dourados do futebol britânico e da progressiva ascensão da escola danubiana.

A rivalidade entre argentinos, uruguaios e brasileiros era já sobejamente conhecida e os jogos entre as nações vizinhas despertaram o interesse e a paixão de milhares de espectadores. A estes três futuros potentados mundiais juntou-se o Chile, convidado de excepção e que seria, até hoje, o grande patinho feio do torneio. Nunca o venceu, um feito que partilha com venezuelanos e equatorianos mas que não se coaduna com a sua herança histórica de potencia continental. A sua malapata começou desde o primeiro pontapé.
A ideia do torneio tinha partido de um dirigente do Estudiantes de la Plata, Jose Susan, e aceite rapidamente pelos países participantes, já habituados a jogar torneios entre si com alguma regularidade, o primeiro dos quais tinha também sido disputado no âmbito das celebrações da revolução de Maio, em 1910, em Buenos Aires. A competição disputou-se ao largo de duas semanas no mês de Junho. O pontapé de saída deu-se no dia 2 com um duelo entre o Uruguai e Chile.

Os “charrúa” venceram por um contundente 4-0 com dois golos apontados por Pendibene, o primeiro goleador oficial do torneio e outros dois apontados por Gradin, um magnifico interior que acabou por ser denunciado pelos dirigentes chilenos pelo simples facto de ser negro. Se no Uruguai já era habitual jogadores negros e mulatos disputarem jogos com a seleção no resto dos países do continente o tema era ainda tabu. E assim continuaria nas décadas seguintes. Os uruguaios venceram depois o Brasil de Friedenreich – que por sua vez tinha batido os chilenos e empatado com os argentinos – deixando a decisão final do titulo para o duelo entre os vizinhos de La Plata. Seria uma rivalidade recorrente nos vinte anos seguintes. O encontro decisivo foi adiado depois de varias invasões de campo e quando os noventa minutos chegaram ao fim um frio empate a zero foi suficiente para coroar o pequeno Uruguai como o primeiro campeão do continente, ainda que a titulo oficioso.

De Copa Sudamericana a América

Mais do que celebrar um torneio, a primeira edição da Copa America foi o ponto de partida para a união oficial do continente debaixo da mesma bandeira. A excelente relação das quatro federações participantes – a pesar da rivalidade desportiva – confirmada durante a quinzena em que se disputou a competição, levou a que os mesmos dirigentes se juntassem, no final desse ano, para formalizar em Montevideu o nascimento da primeira confederação continental do mundo, a CONMEBOL.

Paralelamente a FIFA tinha apenas doze anos de vida e UEFA só nasceria a meados dos anos cinquenta. Os sul-americanos, conscientes do seu isolamento geográfico com os europeus, aproveitaram a ocasião para unir os seus destinos desde cedo e graças a essa decisão o torneio que originalmente fora criado exclusivamente para celebrar o centenário argentino foi adotado pela nova confederação como a sua competição regular.

O Uruguai, venceu a primeira edição oficial para que não restassem dúvidas sobre o seu triunfo no ano anterior. Durante as décadas seguintes a prova teve múltiplos formatos e modelos. O que nunca mudou, desde a primeira edição, nesse frio mês de Junho em Buenos Aires, quando os futebolistas negros eram ainda “espécies exóticas” e os golos se aplaudiam em ambos bandos foi a paixão e emoção que a competição sempre gerou. Nas entranhas do futebol sul-americano a Copa América representa todos os seus múltiplos contrastes. E talvez por isso seja, ainda hoje, o torneio continental de nações mais emblemático.

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