O futebol expressa-se melhor em números. Ser criativo como um 10 ou goleador como um 9 faz parte do léxico comum. A história da numeração nos equipamentos é antiga e complexa e faz parte da evolução visual do próprio beautiful game. Dos duelos sem números às excentricidades modernas, os equipamentos de futebol já  passaram por uma longa evolução com curiosos episódios.

Uma inovação do soccer para triunfar no football association

A 30 de Março de 1924 a ninguém que jogasse futebol – ou football association como ainda era comum afirmar – se lembraria de vestir uma camisola com um 1+8 nas costas como setenta e quatro anos depois faria Ivan Zamorano para não perder de vista o número nove que tinha marcado toda a sua carreira e que agora pertencia a Ronaldo, a maior estrela do planeta futebol. Zamorano não era o único excêntrico dos números. Na baliza do AS Parma despontava um jovem Gianluigi Buffon encaprichado pelo número 8. O seu problema estava na própria natureza do jogo. O guarda-redes, habitualmente preso à camisola 1, dificilmente podia levar nas costas um número associado ao extremo. Por isso mesmo, ao bom estilo da NBA, Buffon decidiu utilizar o 88 o que ainda lhe valeu sérias criticas por ser um número associado às SS alemãs nos anos trinta. Nesse 30 de Março de 1924 nenhum destas debates fazia sentido. O futebol era uma realidade há mais de meio século mas em nenhum momento ninguém se tinha lembrado em numerar os onze jogadores que subiam ao terreno de jogo. Nessa tarde tudo mudou.

A inovação chegou dos Estados Unidos, num duelo entre o Fall River Marksmen de Massachustes – um clube historicamente associado à comunidade portuguesa – e o St. Louis Vesper Buick. Cada um dos vinte e dois futebolistas subiu ao terreno de jogo com um número nas costas do 1 ao 11. A história do futebol nunca mais seria a mesma. No ano seguinte, em Inglaterra, deu-se o pontapé de saída à nova moda em terras europeias. Já não era apenas a excentricidade dos americanos que estava por detrás da mudança. Arsenal e Chelsea tomaram a decisão de disputar essa temporada da First Division com os seus jogadores numerados. Ambas equipas estrearam-se na competição a 25 de Agosto em duelos contra o Shefield Wednesday e Swansea. O Arsenal optou por dar a camisola 1 ao guarda-redes e as restantes dez distribuídas pelas posições num modelo que permaneceria vigente até aos anos noventa, com os dois defesas – futuros laterais – a vestir o 2, 3 e o número 5 e 6 aos médios centrais que mais tarde se converteriam em centrais.

Até à década de noventa a distribuição de camisolas seguiu o mesmo padrão, atualizado com as variações tácticas impostas primeiro pelo WM e mais tarde pelo 4-2-4, com o 11 e o 7 habitualmente entregues aos extremos, o 9 e o 10 aos avançados e o 8 e o  4 aos médios posicionais. Nesse dia o Chelsea preferiu omitir a camisola 1 para o seu guarda-redes. Davam por descontado o que seria habitual até aos dias de hoje, o número 1 jogava outro jogo. A decisão, como todas as que envolviam o establishment britânico, não durou e foi rebatida durante largos anos sob o pretexto de custos elevados ou de dano moral às cores do clube – os verdadeiros símbolos à época, mais do que o próprio emblema. Só em 1939, depois de várias tentativas de diversos clubes, a decisão de utilizar números nas costas do 1 ao 11 em cada jogo foi tomada de forma definitiva. A votação foi renhida, 24 a favor, 20 contra. A II Guerra Mundial adiou em sete anos a aplicação real da novidade .Por essa altura os números já eram parte do folclore do jogo em muitas partes do Mundo.

A originalidade da numeração nos Mundiais

A integração dos números nas costas das camisolas foi progressiva e não se tornou oficial até aos anos 50.

O Mundial da Suíça, em 1954, foi a primeira competição da FIFA a tornar obrigatório o uso dos números em todos os encontros, incluindo os suplentes entre os 22 convocados. Foi a primeira prova onde um onze titular podia contar com jogadores com camisolas fora da contagem habitual, sendo que a única restrição era aplicada aos guarda-redes que só podiam utilizar o número 1 e 13. Essa regra desapareceu com o tempo o que permitiu aos argentinos, na década de setenta e oitenta, distribuir os números por ordem alfabética o que levou a Osvaldo Ardilles a jogar com a camisola 1. A excepção, como era habitual, foi Diego Armando Maradona que em 82 devia ter vestido a camisola 13, por estrita ordem alfabética, mas a quem lhe foi permitido jogar com o número 10. A nomenclatura dos números tinha-se tornado de tal forma popular que os jogadores associavam posições (e respeitabilidade) a determinados números.

Curiosamente algumas dessas lendas foram produto da casualidade, do 14 utilizado por Johan Cruyff (inicialmente dono da camisola 13 que preferiu trocar por superstição) ou o 10 de Pelé que foi atribulado de forma aleatória quando a federação brasileira se esqueceu de enviar à organização do Suécia 58 a sua lista ordenada. Pelé jogava habitualmente com a camisola 9 ou 11 no Santos mas depois desse torneio tornou-se no símbolo por excelência de um 10 que nunca mais largou.

A evolução da numeração das camisolas

A meados dos anos 50 a maioria das ligas nacionais já o fazia ainda que de forma oficiosa.

Inicialmente a distribuição numérica seguia o modelo táctico mais comum em cada país o que fez com que na Europa Central – adepta do 2-3-5 – e na sul-americana, mais próxima ao WM transformado em 4-2-4, os mesmos números significassem posições distintas. O 5 argentino – o médio mais defensivo – era um central nas ligas austríacos e húngaras. Alguns treinadores para confundir os rivais trocavam os números com as posições reais em campo tal era a forma como o comportamento de seguir um modelo especifico era a norma. Muitas vezes acabavam por confundir até os seus próprios jogadores para não falar dos adeptos que não entendiam o que fazia o seu número 9 no meio-campo e a camisola 5 dentro da área contrária.

A evolução da utilização dos números estagnou a partir da popularização a nível global do modelo dos quatro centrais e só nos anos noventa é que se viveu uma nova revolução com a introdução dos números fixos para toda a temporada. Uma novidade que arrancou na Premier League, em 1993 como parte do pack mediático que visava estimular as diferenças da competição. Os jogadores agora tinham liberdade para usar qualquer número disponível e nos terrenos de jogo as camisolas do um ao onze foram dando lugar à popularização dos 24, 33 ou 45. Em Espanha e Itália – brevemente – a obrigatoriedade dos planteis seniores contarem exclusivamente com 25 jogadores limitava a essa lista as opções dos futebolistas, razão pela qual David Beckham foi forçado a eleger o 23 e não o 77 (a camisola 7 pertencia a Raul) quando assinou pelo Real Madrid. No resto do mundo a liberalização foi completa – na América central há inclusive clubes que permitem a utilização de três dígitos, ainda que estejam banido em competições continentais – e tornou-se inclusive habitual ver uma equipa subir ao terreno de jogo sem contar com um só jogador com um dos onze primeiros números atribuídos.

A iconografia dos números

Hoje é impensável ver um jogo de futebol sem reconhecer de imediato os números nas costas dos jogadores. Tornou-se numa das principais questões de imagem e de discussão na pre-temporada saber que jogador utilizará que número. Camisolas como o 7 do Manchester United, o 10 do Brasil, o 14 da Holanda ou o 9 do Real Madrid tornaram-se icónicas com o passar dos anos tal é a forma como os adeptos as identificam com momentos históricos.

Alguns clubes decidiram inclusive retirar definitivamente números carregados com esse simbolismo suplementar. Até aos anos vinte a ideia de numerar camisolas não parecia mais do que uma excentricidade mas a sua utilização foi algo mais que um mero capricho visual. Ajudou a um melhor entendimento do jogo para os adeptos – sobretudo na era da rádio onde o futebol entrava em casa pelo ouvido – mas também ao estudo táctico do beautiful game. O que podia ter sido uma invenção de curta duração transformou-se em parte fundamental do ADN do jogo. Os números nas camisolas hoje são como o emblema no peito, um dos baluartes emocionais desse jogo de emoções que é o futebol.

4.878 / Por
  • Ricardo Ferreira Pinto

    Boa noite.
    Desculpe perguntar, mas há alguma razão para não ter sido publicado o meu comentário no post «Campeonato de Portugal, a verdadeira origem da Taça de Portugal»?
    Obrigado.

    • Miguel Lourenço Pereira

      Ricardo,

      O comentário seguramente foi mal validado. Não há nenhum comentário pendente de aprovação nem nenhum eliminado no artigo mencionado.

      Cumprimentos

  • Rui Costa

    Um pequeno reparo.
    O 88 de Buffon foi polémico não por uma ligação às SS mas sim porque é um número associado à ideologia Nazi. A oitava letra do abecedário é o H, portanto o 88 transforma-se em HH (Heil Hitler).