Colónia, o primeiro campeão da Bundesliga

Cumprem-se 50 anos da fundação da Bundesliga. A última grande liga europeia a ser oficializada foi conquistada, na sua primeira edição, pelo FC Koln. Um título conquistado de forma inapelável por uma equipa que abriu caminho à etapa dourada do futebol alemão.

A derrota como inspiração

Seria difícil imaginar o futebol alemão atual se a Mannschafft não tivesse sufrido uma das suas piores humilhações no Mundial de 1962 no Chile. Durante anos o selecionador nacional, Sepp Herberger, tinha avisado os dirigentes germânicos que o país estava a deixar-se ficar atrás da elite europeia com a sua insistência num modelo amador. A vitória surpreendente no Mundial de 1954 contra a fantástica Hungria de Puskas e companhia e a presença na final da Taça dos Campeões Europeus do Eintracht Frankfurt, em 1960, eram habitualmente os argumentos utilizados pelos dirigentes da DFB. Estava tudo bem, não havia qualquer necessidade de ceder à tentação do profissionalismo. Até que o telhado de palha voou e os alemães acordaram para o pesadelo de um mundo que não compreendiam.

Desde meados dos anos cinquenta que os melhores futebolistas do país eram assediados pelos melhores clubes italianos, espanhóis e franceses com promessas de salários milionários que superavam em muito os trocos que recebiam por jogar nas suas ligas regionais. No pós-guerra, a recém-formado República Federal da Alemanha tentou, quase sempre, afastar-se de ideias que pudessem despertar uma nova sensação de nacionalismo popular. Uma das medidas principais na área do desporto foi manter a sua condição amadora, travando a formação de uma liga nacional como muitos treinadores e dirigentes pediam insistentemente. Durante quinze anos o modelo do pré-guerra, o das várias ligas regionais com um play-off para apurar o campeão nacional, manteve-se. Um cenário que não agradava a ninguém. A saída dos primeiros jogadores de elite – imediatamente banidos da seleção nacional – e as derrotas da Mannschafft tornaram o proibido em inevitável. No regresso da expedição do Chile a federação alemã aceitou conversar sobre a formação de uma liga nacional. Da Bundesliga.

Um parto complexo

As reuniões decorreram durante semanas e durante muito tempo Herberger pensou que o consenso seria impossível. O primeiro obstáculo a superar era a definição de profissionalismo. Acabou por adoptar-se um semi-profissionalismo, com um baixo tecto salarial mas que mesmo assim podia permitir aos clubes manterem as suas figuras mais emblemáticas. O problema seguinte era o de eleger quem tinha direito a participar na primeira liga à escala nacional. O critério principal utilizado pela federação foi o da importância histórica e social de muitos dos clubes do país, independentemente das classificações obtidas nos anos anteriores.

Nessa lista estava o 1FC Koln, o Borussia Dortmund, Schalke 04, Werder Bremen, Eintracht Frankfurt, FC Nurnberg, Hamburgo SV, Saarbrucken e Hertha. Estos últimos levantaram vários protestos nos restantes clubes. Nem era clubes com história, nem com um grande grupo de seguidores ou resultados impressionantes nos últimos anos. A sua escolha era meramente política. O Saarbrucken representava a região do Sarre, recentemente incorporada à RFA e terra de origem do presidente da federação. O Hertha beneficiava da necessidade política de incluir uma equipa de Berlim, para demonstrar ao mundo que o muro levantado anos antes pelos soviéticos não iria impedir o futebol de chegar a todos os alemães ocidentais.

Depois de vários protestos com a inclusão dos dois clubes, o Hannover 96, o Kickers Offenbach e o Alemania Aachen retiraram-se dos candidatos e para as posições restantes forma elegidos o Kaiserlautern, MSV Duisburg, Preuben Munster, Meidericher SV, Karlsruher, 1860 Munchen, Stuttargt e o Eintracht Braunschweig. Dezasseis clubes numa lista que não incluia nem o Bayern Munchen nem o Borussia Monchengbadlach, os emblemas que iriam dominar os primeiros vinte anos da competição.

A marcha do campeão

Depois de muito debate, a bola começou a rolar no dia 24 de Agosto de 1963.

Um duelo entre o Borussia Dortmund e o Werder Bremen acabou com a vitória dos verdes por 3-2, apesar do golo inaugural da competição ter sido apontado pelo avançado dos homens do Ruhr, Timo Konietzka. O FC Koln ganhou a primeira jornada e arrancou na sua tranquila caminhada rumo ao título de campeão.

Treinados pelo experiente George Knopfle, os homens do norte viviam sobretudo da inspiração das suas duas estrelas internacionais, os médios Wolfgan Overath e Wolfgang Weber. Com o seu domínio do meio-campo, foram providenciais para armar os ataques habitualmente concretizados pela dupla atacante Karl-Heinz Thielen e Christian Mueller. Entre ambos apontaram 31 golos, apenas mais um que o melhor marcador da competição, Uwe Seeler. Mas foi suficiente. A inconstância dos principais rivais do FC Koln permitiu vencer a competição apenas com duas derrotas e onze empates e mesmo assim manter uma diferença pontual de seis pontos contra o segundo classificado, o surpreendente Meidericher SV

A 18 de Abril, a equipa recebeu no Mungersdorfer Stadion o Borussia de Dortmund. Era o jogo do título. Diante 76 mil pessoas, ao Colónia bastava-lhe um empate, resultado a que se chegou ao intervalo. Na segunda parte, uma exibição demolidora de Overath fez a diferença e perante a apatia dos homens de Dortmund, a equipa da casa venceu por 5-2. Nas bancadas, os adeptos eufóricos, imaginavam que começava uma nova etapa dourada na história do clube. A realidade seria radicalmente diferente. Nos primeiros sete anos da competição nenhum clube seria capaz de segurar o título.

O Cólonia voltaria a ganhar o troféu dois anos depois, com a mesma equipa base que tinha vencido o título inaugural da Bundesliga. Mas teria de esperar quinze anos para voltar ás ruas e celebrar com os seus adeptos o seu último troféu até aos dias de hoje, dias em que a equipa milita na Bundesliga2. À espera de melhores dias e sonhos resgatados no tempo.

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