Colo Colo, os homens de Pinochet

O regime de Pinochet marcou profundamente a sociedade chilena e o seu futebol. A ascensão do Colo-Colo como clube patrocinado pelo regime deixou feridas abertas nos rivais e permitiu ao “Cacique” uma hegemonia nacional durante as duas décadas em que os generais controlaram os destinos do país.

O clube mais popular dos Andes

Enquanto o exército de Pinochet utilizava o estádio da Universidad de Chile como campo de concentração, o seu eterno, o popular Colo Colo, crescia à sombra do regime ditatorial. Enquanto torturavam membros da resistência, os inquisidores instalaram dentro do estádio de Santiago gigantescos altifalantes que davam, hora após hora, a música “liberal” dos Beatles.

Enquanto isso famílias inteiras morriam dentro, abandonadas pelo Mundo. Muitos deles eram adeptos da U, como se conhece popularmente o clube patrocinado pela principal universidade do país. Não chegaram a viver a longa seca de títulos dos homens de azul durante os anos em que Pinochet controlou com punho de ferro o país.

O general não era um dos maiores entusiastas da sua Junta do Colo-Colo.

Mas percebeu a importância social que tinha para o seu recém-estabelecido regime contar com o clube de maior apoio popular do seu lado. O governo investiu dinheiro a melhorar as infra-estruturas do Colo-Colo, favoreceu negócios dentro da liga para garantir aos homens do “Cacique” os melhores jogadores locais e utilizou-o como bandeira política, partilhando os seus sucessos desportivos. Que foram, inevitavelmente, tantos quanto o regime quis que fossem.

O clube não era nenhum desconhecido das vitórias, mas nunca exerceu uma hegemonia tão clara no futebol chileno como nos anos Pinochet. No regime democrático anterior, com Salvador Allende como presidente, o clube tinha vencido ligas e chegado pela primeira vez à final da Copa dos Libertadores, perdendo no terceiro jogo com o Independiente. Essa era a base da equipa que se apresentou no Mundial de 1974 depois da recusa da União Soviética em disputar um play-off no Chile, no mesmo campo onde muitos dos seus simpatizantes tinham encontrado a morte meses antes. A FIFA não soube (ou não quis) mediar o confronto e o Chile partiu para a Alemanha onde não deixou a melhor imagem. De certa forma o crescimento futebolístico dos anos 60 começou a esbarrar com a própria natureza do regime.

A política desportiva das Juntas Militares

Pinochet tinha no Colo-Colo um clube à sua medida.

De certa forma o chileno limitou-se a imitar o comportamento dos outros generais que mandavam com punho de ferro no continente, como o paraguaio Stroessner e o Olimpia,  e as Juntas equatorianas e uruguaias que apoiavam fervorosamente o Nacional e Peñarol, respectivamente. Só a Argentina e o Brasil, com maior tradição futebolística  se livravam desta hegemonia mas, mesmo assim, havia sempre clubes mais alinhados com o regime político e outros que se colocavam claramente à margem. O Estudiantes de la Plata foi o símbolo do regime argentino dos anos 60 enquanto que o Corinthians se ergueu como o primeiro clube a opôr-se categoricamente à ditadura militar brasileira.

No caso chileno, a recompensa do Colo-Colo e da sua fidelidade transformou-se numa série de ligas ganhas de forma quase consecutiva. O primeiro título foi conquistado em 1979, curiosamente graças aos golos de Carlos Caszely, um dos mais críticos com o regime chileno. Só a sua tremenda popularidade e veia goleadora impediram, por mais de uma vez, de ser detido. No entanto não se livrou de ver a sua mãe detida várias vezes pela polícia política do regime.

A essa liga seguiram-se outras seis nos anos seguintes, a que se juntam várias Copas do Chile e várias performances negativas nas provas continentais. Sem competitividade interna, com muitos resultados combinados de antemão, o futebol chileno travou o seu crescimento e só em 1991, quase vinte anos depois da primeira presença numa final, o Colo-Colo conseguiu o almejado título continental. Foi o primeiro ano depois do final da ditadura e ao contrário do que muitos esperavam, a equipa continuou a vencer. O facto do regime ter saneado, durante a década de 80, as contas do clube permitiu-lhe encarar os anos 90 com uma pujança económica que os rivais não tinham. Os negócios patrocinados pela Junta de Pinochet com o banco HBC, mais tarde levados a julgamento, ajudaram a criar esse tremendo fosso competitivo entre o Colo-Colo e os restantes clubes da liga, uma das heranças mais pesadas do regime ao futebol chileno.

O destino cinzento da “U”

Paralelamente à história de glória do Colo-Colo, o sofrimento da Universidad de Chile durou quase três décadas. Maior força desportiva do país durante os anos 60, a “U” tinha-se posicionado politicamente ao lado dos homens de Allende e pagou-o caro. Enquanto a Universidad Católica desafia ano atrás ano a hegemonia do Colo-Colo, os anos 70 e 80 foram de seca absoluta para um clube que até então dominava a tabela de títulos nacionais do país.

A Universidad Chile não voltou a vencer um título de liga até 1994 tendo sofrido mesmo com uma ágria despromoção a final dos anos 80 nos suspiros finais do regime. Atualmente vivem uma nova era de triunfos, sendo os campeões em título do país.

Uma longa travessia até voltar à elite marcada pelo papel ativo dos homens de Agustin Pinochet nas decisões que moldaram duas décadas de futebol chileno.

6.919 / Por
  • Fernando Walison

    Quem realmente entende de futebol chileno, sabe muito bem que o maior time do Chile é a Universidad de Chile. Tem mais história, ídolos, sem contar que o time revolucionou a história do futebol chileno.
    A maioria de seus ídolos foram destaque pela Seleção Chilena. Aquela Seleção de 1962 não chegou em 3º lugar à toa. E um dos mais futebolistas do país, Marcelo Salas, artilheiro da Roja, é ídolo azul e deu dois títulos para “U” em 1994 e 1995, ainda levou para a semifinal da Libertadores de 1996 e poderia ter chegado a final se o árbitro não fosse contratado pra querer classificar o River Plate à final.
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    Falando do Colo Colo, o time ganhou de destaque nas duas décadas em que Pinochet ficou no poder do Chile, ganhando vários títulos. COLO COLO sem Pinochet não é nada.
    Ele até chegou a oferecer 300 milhões de pesos chilenos para o Estádio do Cacique, mas segundo torcedores, o dinheiro não foi enviado (MAS OFERECEU, ISTO QUER DIZER QUE COLO COLO É TIME SEM GLÓRIA E TRADIÇÃO).

    UNIVERSIDAD DE CHILE É O MAIOR DO PAÍS!

  • nacho diaz del rio

    U DE CHILE NAO TEIN CAMPO, O MELHOR CLUBE E UNIVERSIDAD CATOLICA MAIS NAO E POPULAR NI CORRUPTO COMO SI SON CC Y U DE CHILE(1994 ROBO TACA) FALTA MUITA INFORMACAO …

  • Felipe

    Buen reportaje, soy de la U de Chile y quisiera hacer un alcance, el estadio nacional de Chile, en donde se torturó a miles de chilenos no es de la U, nosotros jugamos de local en ese estadio por no tener estadio propio, la Universidad de Chile se iba a hacer un estadio en los terrenos que actualmente se ubica el parque araucano y el mall parque arauco, terrenos que fueron usurpados por la dictadura de Pinochet. Si quieren profundizar más en ese tema, el periodista chileno Cristopher Antúnez realizó una investigación al respecto.

    Espero que pronto la familia azul, la más fiel del país, pueda celebrar algún gol en un estadio propio.

    Y como dice el cántico de la hinchada de la U:
    (8) Todos sabn de un gran amor,
    de un Bullanguero que no se vendió,
    ni a los pacos ni a la represión,
    ni a las mentiras de la televisión,
    la más fiel de la capital,
    la más gloriosa a nivel mundial,
    a esta hinchada no la callarán, no la callarán (8)

  • Gloriosa

    A LOS CAMARADAS AZULES Despues de combatir contra la dictadura y tener cerca de un millar de muertos la bandera de la U sera ROJA y Azul ¡¡¡ por la sangre de los camaradas caidos, la camandante Tamara patriota del FMR ( ALIAS CECILIA MAGNI), estudiante de sociologia de la Universidad de chile,Combatio contra la Dictadura y entrego su vida por un Ideal que para ella era mas importante NUESTRA LIBERTAD, el Comandante Salvador Patriota del FMR, estudiante de educacion fisica de la Universidad de Chile,Tambien combatio y murio, el comandante Ramiro Patriota del FMR, estudiante de pedagogia de la GLORIOSA UNIVERSIDAD DE CHILE, ademas de dos millares de estudiantes azules muy libertarios que resistieron en las calles como combatientes urbanos su valiente y Gloriosa resistencia le dieron finalmente la libertad a CHILE ¡¡¡¡¡ no olvidar que PINOCHET el padre de los colocolinos Salvo con una bala en el brazo y dos coetes Low en su carro blindado 1986 ¡¡¡¡ el Dictador sabia que no podria sobrevivir mucho tiempo mas sin que lo terminen matando finalmente, asi las cosas acorralado por otros lideres azules Politicos como Aylwin abogado de la Universidad de Chile, Lagos abogado de la Universidad de Chile, Frei ingeniero de la Universidad de Chile, Carolina Toha presidenta de La FECH que organiza marchas y movilizacio nes, y muchos otros Azules muy destacados,Pinochet decidio entregar el poder rapidamente en un pleviscito un año y medio despues 1988,Colo Colo no es nada, para chile,no tiene lucha social, no tiene lideres libertarios, no lucha por su gente, porque es solo una pelota, nada mas, la Gloriosa Universidad de chile y su club es tan inmensa, tan grande que la libertad de chile nada menos a sido su lucha,con cientos de lideres muertos, martires por la libertad, 17 presidentes ex alumnos, con un club de futbol que a sido ejemplo de resistencia a la intervencion politica de dos dictadores y a sobrevivido, gracias a su gente, rebelde, gente combativa, gente indomable,y su barra la unica del pais que con valor fue capaz de cantarle a estadio lleno una y otra vez al Tirano Dictador y en plena Dictadura ¡¡¡ Jovenes azules ejemplos de Valor y de lucha por la Libertad ¡¡¡

  • pedro vasconcellos

    não gosto muito dessas associações simplistas e reducionistas. é como falar que o schalke 04 era o time do nazismo. tanto schalke quanto colo colo já eram clubes de grande representatividade antes da ascensão de ambos os regimes. de fato, em muitos casos existe certa aproximação com algum clube de futebol para se aproximar e tornar-se simpático às coisas do povo, mas isso nao significa que os clubes e seus adeptos adiram a esses regimes. franco era torcedor do madri, mas isso nao fez com que o barcelona desaparecesse do mapa e nem quer dizer que seus torcedores fossem ou sejam franquistas. alias, o clube catalão ganhou inúmeros títulos durante o franquismo. ademais, o próprio texto deixa claro uma coisa: carlos caszely, um dos grandes representantes públicos contra o regime chileno, jogou no colo colo. o único caso que é discrepante é o do porto. durante o salazarismo, o futebol português ficou polarizado entre benfica e sporting, os clubes de lisboa, enquanto o porto, região “rival” ao regime, ficou à míngua. após a revolução dos cravos, o porto ganhou mais de 20 campeonatos. mas mesmo assim é precoce afirmar um favorecimento explícito do regime.

    • Miguel Lourenço Pereira

      Pedro,

      O Schalke 04 era maioritariamente composto por jogadores de ascendência emigrante, muitos deles judeus vindos da Polónia ou do império Austro-Hungaro como Kuzzurra ou Szepan e está muito longe do que se pode imaginar como clube ligado ao Nazismo, ao contrário do Estugarda ou o 1860 Munchen, por exemplo. Aqui já citamos o exemplo do Bayern Munchen como o clube que mais combateu o regime. Em Itália passou o mesmo com o Bologna, Roma e Lazio ligados profundamente a Mussolini e os seus “camisas negras” contra equipas do norte, mais independentes.
      Franco não gostava de futebol (como Salazar) pelo que o apoio dos regimes ibéricos a determinados clubes é uma questão muito mais complexa de explicar e com outros protagonistas.

      O Colo-Colo é, claramente, dentro do panorama político chileno, aquele que mais se aproximou do regime. Não foi um clube formado pelo regime mas foi apoiado, de uma forma muito mais evidente do que qualquer outro emblema chileno pode reclamar. Não significa naturalmente que não existissem muitos adeptos do Colo-Colo anti-Pinochet, pro-Allende ou neutros. Isso não está em causa e Caszely é o melhor dos exemplos.

      Mas da mesma forma que outros emblemas chilenos podem reclamar terem sido discriminados pelo regime até aos anos noventa, o Colo-Colo, pelo contrário, foi o clube mais bem visto pela cúpula política da Junta Militar.

  • Pablo Martínez

    Qué vergüenza de página, cuantas inexactitudes, la u tuvo de presidente en dictadura al abogado y amigo de Pinochet ambrosio rodriguez que contrato en la misma moneda al técnico de moda (luis santibañez). La mitad de la deuda histórica del fútbol chileno es responsabilidad de la u del chiste, que en estos años si recibió ayuda de la dictadura, para llevar a cabo ideas tan imbéciles como la compra de un estadio mecano y no tuvo dirigentes que capitalizaran esto, como si lo tuvo colo colo desde el 86 con dragicevic y menichetti. Les solicito se informen sobre la intervención de los amigos de Pinochet del bhc, que entregaron colo colo con el doble de deuda de cuando lo recibieron, fue tan evidente el mal manejo que la dictadura permitió que colo colo hiciera elecciónes llegando a partir de ahí dragicevic y menichetti la mejor dupla dirigencial de la historia del fútbol chileno, que luego se la comió el ego y las rencillas personales. La u tuvo dirigentes tan amigos de Pinochet como los de colo colo, tuvo tanta o más ayuda económica que colo colo de parte del banco estado comprometiendo a todo el fútbol chileno con la deuda histórica, cuál fue la diferencia? Dragicevic y menichetti… Infórmense antes de hacer eco de la locura sin fundamentos de los hinchas del león con plumas, un equipo que no fue campeón con allende, ni con pinochet ni con aylwin…

    • Fernando Walison

      Universidad de Chile fue el equipo que más sufrió en la epoca de la dictadura, mientras Colo Colo siempre ganaba la plata de Pinochet para salir de las crisis y mantener el club en el alto. No vengas buscar excusas para probar que tu equipo no fue el unico ayudado y atrapajar la U de Chile – este si, logro copas con exito y es grande por meritos proprios!