A cocaína definiu o futebol colombiano no seu apogeu. O dinheiro investido pelos grandes cartéis de droga modernizaram o futebol no país e abriram as portas para a sua etapa dourada. Mas também deixaram a nu o lado mais negro e sangrento da sua história desportiva.

 Gigante adormecido

Da época do Ballet Azul ao regresso da Colômbia em Mundiais de Futebol passaram quase quatro décadas. Um período em que o futebol na Colômbia viveu o seu ponto mais baixo, desaparecendo quase no anonimato da pobreza e dos problemas sociais que asfixiavam um dos países hispânicos mais populosos do Mundo.

Incapazes de investir em infra-estruturas e com pouca vontade de desenvolver o desporto do país, as elites governativas da Colômbia que tinham tentado desafiar a FIFA na criação de uma das ligas mais polemicas dos anos 50 desligaram-se por completo do jogo depois de perceber que o lucro financeiro futuro seria mínimo. Deixaram as equipas adormecer numa espécie de semi-profissionalismo que se assemelhou em muito à realidade de países muito mais pobres como a Bolívia, Peru ou Venezuela, todos eles estados vizinhos. A cocaína foi o ponto de inflexão. A cocaína acabou por salvar o futebol colombiano.

A indústria que se formou à volta do tráfico de drogas significou uma profunda metamorfose da sociedade colombiana. A guerra civil liderada pelas FARC desde a década de 60 começava a fazer as suas primeiras vitimas simbólicas e a desvalorização do café no mercado internacional roubou ao país a sua principal fonte de exportação. Não demorou muito tempo até que os cartéis de droga ocupassem o vazio de poder e transformassem o país num dos maiores exportadores mundiais de cocaína, cada vez mais procurada pelas elites norte-americanas. Com o dinheiro que chegava do outro lado das Caraíbas criaram-se fortunas, compraram-se políticos e juízes para garantir o status quo. Mas, mais importante do que isso, modernizaram-se várias áreas de um país ainda profundamente rural.

E como muitos desses lideres de cartéis vinham das zonas pobres, onde o futebol era um dos poucos luxos que sobrevivia, a paixão pelo jogo acabou por pesar à hora de gastar milhões. Os cartéis aproveitaram as horas baixas do futebol colombiano para comprar clubes a baixo custo e dedicaram-se a lavar dinheiro através das suas instituições legitimas enquanto perfilavam a honesta ambição de levar o futebol colombiano ao patamar dos gigantes do continente. Os anos 80 foram os anos do renascimento, os anos do pó branco e dos títulos inesperados. Os anos em que a Colômbia acreditou que podia recuperar de um só golpe décadas de estagnamento.

O dinheiro dos senhores da droga

No entanto o Mundo estava atento.

Entre os confrontos na selva colombiana com a guerrilha marxista e os ajustes de contas nas ruas de Medellin, Bogotá e Barranquilla entre os cartéis rivais, os países europeus começaram a olhar para a Colômbia como um dos países do cone sul a evitar. A FIFA percebeu que organizar um Mundial em solo colombiano seria um problema e entregou à Televisa mexicana a organização do torneio de 1986. As mortes nos estádios, antiquados e incapazes de receber em total segurança as multidões que redescobriam o prazer pelo jogo, eram o lado negro de uma história que começava a deixar as suas primeiras vitimas pelo caminho.

O juiz e ministro Lara Bonilla denunciou que o futebol colombiano estava corrompido até às entranhas pelos cartéis. Meses depois foi abatido a tiro abrindo assim o longo historial de ajustes de contas no futebol colombiano. Em cinco anos morreriam cerca de 1500 pessoas entre policias, juízes, políticos, directores de empresas e jornalistas, todos ligados de certa forma à contestação do poder absoluto dos senhores da droga no mundo do futebol. Nem os grandes clubes se salvaram. Os presidentes do Deportivo Medellin, Deportivo Pereira e Milionarios foram todos abatidos a tiro por esquadrões dos carteis bem como vários directivos da federação e até técnicos de equipas rivais. A situação chegou ao extremo de um avançado do Deportivo Pereira, Uriel de Jesús, ter sido abatido em pleno estádio quando se preparava para marcar um golo que iria mudar um resultado previamente acordado entre as equipas. Ninguém foi detido.

 

Escobar e o Nacional de Medellin

Por outro lado, os clubes começaram a investir, com o dinheiro injectado pelos carteis que os protegiam, na formação local, patrocinavam programas de reestruturação social nas favelas urbanas e melhoravam as condições de treino para encurtar distâncias com as grandes potências do continente. Até aos anos 80 nenhum clube colombiano tinha sequer chegado à final de uma prova continental. Em 1985 começou a inverter-se uma tendência que mudaria de forma definitiva quatro anos depois.

O America Cali, a par dos Milionários de Bogotá o clube com mais títulos nacionais do país, disputou a final da Libertadores com o modesto Argentinos Juniores. Foram precisos três jogos para dictar o ganhador mas no último e derradeiro encontro, em Asunção, campo neutral, os argentinos venceram por 1-0. O clube era apoiado por um dos maiores cartéis do país que disponibilizou verbas para atrair jogadores como Brown  e até o treinador argentino, Carlos Billardo, foi seduzido para controlar a equipa. O clube marcou presença em mais duas finais seguintes da Libertadores, perdendo  com o River Plate e o Peñarol, mas deixou a nota do que viria a seguir.

Pablo Escobar, reconhecidamente um dos maiores traficantes de droga da história da América Latina, era também um amante do jogo. Desde a infância ambicionou ser jogador e quando o dinheiro do seu cartel, instalado em Medellin, começou a jorrar, o seu primeiro capricho foi investir tudo no clube dos seus amores, o Atlético Nacional. Escobar, ao contrário de muitos dos traficantes colombianos, fazia-o sobretudo pela paixão que o ligava ao futebol e longe de investir apenas financeiramente, envolveu-se de forma directa nos destinos do clube. Contratou um técnico jovem e promissor, Francisco Maturana, para transformar o seu clube no mais atrativo da América Latina e deu-lhe tempo. Tempo precioso que iria pagar os seus frutos.

Maturana montou a sua equipa num 4-4-2 convencional mas dotou-lhe daquilo que faltava ao futebol colombiano: pressão alta, velocidade e defesa zonal, apostando sobretudo num meio-campo de médios talentosos e em avançados móveis. Um esquema inspirado nos ritmos caribenhos do país e que no campo se transformou numa combinação vencedora. O Atletico venceu a liga em 1988 e no ano seguinte tornou-se no primeiro clube colombiano a vencer a Libertadores ao bater na final o Olimpia de Assuncion por penaltys, depois de perder a primeira mão no Paraguai por 2-0. O sucesso foi tal que Escobar financiou, do seu próprio bolso, a preparação da seleção colombiana para o Mundial de 1990 em Itália. E forçou a nomeação de Maturana como selecionador do país. Uma decisão que se provou, uma vez mais, acertada

Da surpresa do Itália 90 à morte de Escobar

Os colombianos chegaram a Itália sem criar grande expectativa.

Mas depois de uma brilhante primeira-fase, que incluiu um empate com a futura campeã, a Alemanha de Mathaus e Klinsmann, a equipa tornou-se numa das favoritas do público. No duelo contra outra surpresa, os Camarões, o erro de Higuita, o polémico guarda-redes do, anulou o brilhante trabalho colectivo de Valderrama, Mendoza, Perea e Rincón. A equipa acabou por perder por 2-0 mas as sementes estavam lançadas e na fase de qualificação para o seguinte torneio chegou a noite mais memorável da história do país. Uma goleada por 5-0 à Argentina em Buenos Aires que não só obrigou os argentinos a disputar um play-off como transformou os colombianos num dos favoritos para brilhar nos Estados Unidos. Mas tal como a era do controlo dos cartéis começava a dar os seus últimos passos, no futebol colombiano, também este seria o inicio do ocaso da seleção do país.

Entre ambos os Mundiais os clubes colombianos voltaram a ser ultrapassados em protagonismo nas provas continentais. Os cartéis descobriram na venda de jogadores para a Europa um novo filão e rapidamente as grandes promessas do país abandonaram a liga. As mortes continuaram a um ritmo imparável. Árbitros, jogadores e dirigentes eram alvos preferenciais. Em 1993 o próprio barão da droga em pessoa, Pablo Escobar, foi abatido. Era o principio do fim, o descontrolo tinha-se tornado absoluto. Durante a preparação para o Mundial a seleção foi tratada pela imprensa sul-americana como a grande esperança do continente. Os senhores da droga apostaram fortunas numa boa campanha dos “cafeteros”. Mas os resultados não acompanharam.

Maturana voltou ao cargo que o tornou célebre a nível mundial e a equipa apresentava ainda mais estrelas do que em 1990. A derrota inaugural com a Roménia foi uma surpresa mas foi o jogo com os anfitriões, os Estados Unidos, que despoletou o fim da era dourada do futebol colombiano. Um auto-golo de Pablo Escobar, central do Atlético de Medellin, aos 35 minutos, abriu caminho para a vitória americana. Os colombianos precisavam agora de um milagre para seguir em frente. Mas o milagre não aconteceu e os favoritos voltaram para casa debaixo de um coro de insultos. Dias depois de aterrar em Bogotá, Escobar foi assassinado sem piedade por um dos carteis de droga que mais dinheiro tinha investido numa vitória colombiana no torneio. Era só mais um para os colombianos mas para o resto do Mundo, até então bastante passivo face à realidade do país, tornou-se um símbolo do quão perigoso o futebol sul-americano se estava a tornar.

Uma nova etapa

A FIFA decidiu intervir e em conjunto com as autoridades colombianas e norte-americanas começou a trabalhar para eliminar das cúpulas directivas do futebol as personalidades ligadas ao tráfico de cocaína. Vários dirigentes foram presos, alguns acabaram por ser extraditados para os Estados Unidos e, a pouco e pouco, o futebol colombiano foi-se afastando do controlo absoluto dos senhores da droga. Mas isso acabou também por voltar a travar, de certa forma, o seu desenvolvimento.

Sem dinheiro para investir, num país ainda envolvido numa guerra civil sem fim, os jogadores voltaram a apostar pela emigração, agora para ligas vizinhas como a argentina e brasileira, antes de dar o salto para a Europa, e os clubes foram empobrecendo com o passar dos anos até voltarem a ser uma força periférica no continente. Depois de duas finais da Libertadores perdidas em 1995 e 1996, as aspirações dos clubes chocaram diretamente com uma nova e dura realidade. Os jogadores continuaram a prestar a vassalagem aos senhores da droga, agora encarcerados, mas o controlo hegemónico do futebol do país tornava-se cada vez menos presente. A maioria dos jogadores da geração dourada tinham, eles próprios, conexões directas com os cartéis. Trabalhavam para eles, como Higuita e Valderrama, e acabavam por servir de ponte para os negócios dos seus mentores quando partiam para a Europa.

Em 2001 fechou-se definitivamente o capitulo do futebol colombiano e da sua relação com os carteis de droga. O país devia organizar a Copa América mas semanas antes começou-se a especular que o torneio seria transladado para a Argentina como acontecera com o Mundial de 1986. Os cartéis de Cali entraram em pânico e raptaram o presidente da Federação, exigindo garantias de que o torneio seguia no país como condição para libertá-lo. Durante meses a prova esteve por um fim, os argentinos decidiram não participar e no final o torneio realizou-se e a Colombia venceu, numa final contra o México, pela primeira vez na sua história.

Mas com o final dessa geração dourada e a progressiva militarização do governo, primeiro com Andrés Pastrana e depois com Alvaro Uribe, o futebol colombiano tornou-se uma paródia de si mesmo falhando todas as grandes provas internacionais. Os cartéis foram dissolvidos em organizações menores, o peso da FARC no tráfico de drogas aumentou à medida que o seu impacto militar diminuía e o futebol do país foi perdendo competitividade. O triunfo do modesto Once Caldas na Copa Libertadores de 2004 foi mais um pequeno parêntesis devido a uma boa gestão desportiva do que o sinal de um renascimento. Hoje os colombianos sonham com os golos de Falcao para voltar a um grande torneio internacional, mas o problema do país continua a estar na falta de estruturas sólidas que preparem o futuro. O Mundial de sub-20, organizado em 2011, foi o primeiro passo para uma nova era num país que procura ultrapassar o fantasma da dependência do tráfico de droga para assumir-se como uma genuína potência continental.

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