Do nada às portas do maior titulo continental em cinco anos. A saga do Cobreloa não conhece paralelo na elite do futebol mundial. O modesto clube chileno irrompeu de forma espetacular na década de oitenta graças ao apoio da maior empresa mundial de exploração de cobre para afirmar-se como um dos mais fortes emblemas do futebol sul-americano.

 Um clube que quebrou todos os recordes

Nunca desceram de divisão. Raramente perdem um jogo em casa. Em cinco anos passaram de disputar a segunda divisão do futebol chileno a forçar o mágico Flamengo de Zico a um jogo de desempate na final da Libertadores.

Se há clubes que parecem sair de um conto de fadas, o Cobreloa seguramente é um deles. Nos anos oitenta foram a grande sensação do futebol sul-americano. Apareceram do nada, de uma das províncias esquecidas do futebol chileno. Durante décadas tentou-se criar uma equipa profissional à volta da comunidade mineira da zona, sem sucesso. Graças à ação definitiva da empresa Coldeco – a maior exploradora mundial do metal vermelho – o projeto passou da teoria à prática a final dos anos setenta. A partir desse momento as raposas do deserto de Calama passaram a ser protagonistas principais na história do futebol chileno relegando para um segundo plano a verdadeiros emblemas históricos de Santiago.

O clube, sempre equipado de laranja em homenagem às suas origens mineiras, é hoje o quarto grande emblema do país em número de adeptos e títulos com a particular diferença de ter começado a sua aventura com mais de meio século de atraso dos míticos Colo-Colo, Universidad Católica e Universidad de Chile, os gigantes do futebol andino. Entre 1980 e 1985, na sua idade de ouro, em plena infância desportiva, os mineiros não perderam um único jogo em casa, na província modesta de Chuquicamata. Um recorde apenas superado por grandes do futebol europeu como o Real Madrid, PSV ou Estrela Vermelha. Foram os anos da loucura futebolística na província, os das finais continentais e dos primeiros títulos. Os anos que se seguiram a um nascimento sui generis.

O nascimento dos rebeldes mineiros

Durante mais de três décadas os trabalhadores das minas de Chuquicamata tentaram fundar um clube profissional para competir contra as grandes potencias do futebol chileno. Nesta província vizinha do árido deserto do Atacama, o futebol era uma das escassas distrações possíveis para os que passavam metade da vida debaixo de terra à procura de cobre e mais cobre.

O Sport Club Condor e o Deportes El Loa foram tentativas falhadas mas deixaram bem vincado o desejo do norte do país em lograr desbloquear uma situação que não avançava devido à posição dos grandes emblemas de Santiago. Os clubes da capital, olhando com certo desprezo mas também com pouca vontade para deslocações incómodas, iam sucessivamente vetando as propostas através da sua influencia na federação. Foi necessária a ação persuasiva da Codelco, o gigante do cobre, junto do novo governador da província, um dos homens de confiança de Augusto Pinochet, o coronel  Fernando Ibañez, para que a federação chilena finalmente aceitasse a oficialização de um novo clube, o Cobreloa, em 1977.

O nome, retirado da fusão das palavras “cobre” e “El Loa”, a província onde estava sediada a Codelco, passou a fazer parte da história do país. Era o primeiro clube a ser fundado em mais de duas décadas. O novo emblema foi inscrito na 2 Divisão nesse mesmo ano, competição que venceu com inusitada autoridade. Graças ao apoio financeiro da empresa mineira e o apoio entusiasmado da população local, o crescimento do Cobreloa quebrou todos os recordes. No final do seu primeiro ano na divisão de elite, em 1978, o clube acabou no segundo lugar apenas atrás do Palestino. Com Vicente Cantatore ao leme e Oscar Wirth, Enzo Escobar, Mario Soto, Héctor Puebla, Nelson Pedetti, Eduardo “El Mocho” Gómez, Eduardo Fournier e Washington “Trapo” Olivera, a equipa desafiou toda a lógica ao permanecer no topo. Repetiu a classificação no ano seguinte, atrás do Colo-Colo e em 1980 chegou o primeiro titulo. Depois de um largo sprint contra o histórico Colo-Colo, a equipa sagrou-se campeã a uma jornada do fim. O titulo garantia também a qualificação automática para a Copa Libertadores.

A saga do clube que roubou o coração da América do Sul

A saga continental começou a desenhar-se em 1981 com duas eliminatórias históricas frente a dois clássicos do torneio, os uruguaios do Nacional e do Peñarol. Utilizando o seu estádio Municipal de Calama como fortim, os chilenos eliminaram os dois favoritos contra toda a expectativa e carimbaram o passaporte para a final onde defrontariam o histórico Flamengo liderado pelo mágico Zico. No espaço de cinco curtíssimos anos uma região sem um clube profissional preparava-se para receber a final da maior competição do futebol sul-americano. Derrotados no Maracanã por 3-1, os chilenos lograram um histórico triunfo longe de casa, em Santiago do Chile, devido à restrição de última hora aplicada pela CONMEBOL do qual os chilenos muito se queixaram. O golo de Merello, nos últimos minutos, forçou uma finalíssima em Montevideo, os brasileiros acabaram por levar para casa o troféu. A glória ficou com o Cobreloa.

Para os que pensavam que a sua aventura iria acabar tão depressa como começou, na temporada seguinte os chilenos repetiram o titulo conquistado em 1980 e voltaram à final continental, agora medindo-se ao Peñarol. Depois de empatar a zero na capital uruguaia, havia a sensação de que algo grande poderia suceder em Santiago mas um tento do Peñarol foi suficiente para devolver o histórico conjunto aos títulos continentais. A gesta continental estava perto de terminar mas não a hegemonia local.

Durante a restante década os duelos Colo-Colo e Cobreloa dominaram o futebol chileno e o conjunto mineiro conquistou outros dois títulos, repetindo o triunfo em 1992. Pelo caminho ficou a hipótese de voltar a uma final sul-americana, e uma curta travessia no deserto até ao renascimento coroado com titulo a princípios da primeira década do novo século com uma equipa estruturada debaixo da liderança de Nelson Acosta. O estatuto dos mineiros estava definitivamente consolidado na história do futebol chileno. Nenhuma equipa na história do futebol continental tem uma trajetória similar. Uma ascensão meteórica de um clube que se transformou no símbolo de esperança para uma das regiões mais inóspitas da América do Sul.

3.805 / Por
  • claudio

    Muy buen articulo. Quizás faltó comentar la altura sobre el nivel del mar (2200 mts. aprox) en que se encuentra la ciudad donde ejerce de local cobreloa, lo que a principios de los años 80, complicaba a la mayoría de los equipos, y que sigue complicando a los equipos del atlántico.

  • Bruno Duarte

    Se não me engano, a AD São Caetano no Brasil teve trajetória semelhante no começo dos anos 2000, saindo do nada para um vice-campeonato de Taça Libertadores da América em um espaço de tempo também curtíssimo.