Um jogador, três clubes. Um cenário possível mas só em Itália. A co-propriedade está no sangue das transferências do Calcio. É uma forma de subsistência, de jogar com a burocracia financeira e de manter debaixo de olho um jogador. Para o resto do mundo, é um enigma.

A luta dos envelopes

Todos os anos, durante dois dias em Junho, os clubes italianos reúnem-se num hotel em Milão.

Cada um traz uma lista de casa, com os jogadores que quer manter a todo o custo, os que vai negociar até ao último suspiro e aqueles dos quais se quer livrar. Os clubes apresentam um formulário com todos os dados necessários. Nome do jogador, informações contratuais e preço. Sobretudo o preço. Depois fecham o envelope e entregam-no a um membro da federação. Selado. E assim fica até ao momento da decisão final.

Este dia é conhecido em Itália como o  “Andare a le Buste”, ir aos envelopes. É a base da filosofia da co-propriedade. Jogadores que pertencem a um, dois e até três clubes vêm o seu futuro decidido nesta jornada dupla. Alguns sabem o que vai suceder por um acordo prévio entre os clubes. Outros dormem essa noite em tensão. Quem pagar mais pelos seus serviços vence.

Uma questão de risco

O modelo da co-propriedade é simples dentro da sua originalidade.

Um clube conta com um jogador que não vai ser opção na primeira equipa. Por ser jovem, por não interessar ao treinador (que durará menos de um ano seguramente) ou por problemas de adaptação. Pode vendê-lo mas tem algum interesse em manter uma conexão, no caso dos mais jovens particularmente. Decide então alienar metade do passe. Outro clube aparece. Está interessado nos serviços do jogador. Oferece-se para comprar metade do passe, assegurar-se que pagará os ordenados e no final do ano, sentar-se a negociar a restante percentagem do passe. Essa é a base da co-propriedade.

O jogador passa para o segundo clube mas mantém a ligação ao primeiro. Em partes iguais. Pode eventualmente ser até emprestado pelo segundo clube a um terceiro, se o primeiro estiver de acordo. E esse clube pode vender a sua metade antes de terminar o ano a outro clube, se a equipa onde o jogador se encontra fisicamente também esteja de acordo. Numa mesma temporada, um futebolista no Calcio pode estar ligado contratualmente a três equipas distintas.

E depois a época chega ao fim. O jogador tem de conhecer o seu destino.

Há várias opções sobre a mesa. Os clubes podem ter acordado previamente um valor pelo restante 50% para a equipa compradora. É o que sucede com Mauro Icardi, futebolista proveniente da Sampdoria que jogará o próximo ano no Inter. Sucede essencialmente por motivos fiscais. Em vez de o comprar de imediato por um valor, o clube paga uma primeira metade num defesa e a outra metade no seguinte.

Também há o caso oposto. Uma das equipas sabe que o interesse pelo jogador deixou de existir. Como ambas terão de fazer uma oferta, o clube que não está interessada, simplesmente oferece zero. A oferta mais alta ganha sempre e nesse caso não há problema. Quando os dois clubes fazem a mesma oferta, o futebolista permanece no clube onde passou a temporada anterior. Esse é o modelo mais habitual. Previamente os clubes já sabem que jogador interessa a quem e pactuam oferecer pouco para garantir que a negociação corre como previsto sem inflacionar o preço. Os valores estão combinados previamente, o jogador conhece o seu destino e a discussão da co-propriedade é uma mera formalidade burocrática, no qual o Calcio é especialista. Depois estão os casos mais sérios, os casos mais polémicos. As negociações a cegas.

Guerra de interesses

Quando o modelo da co-propriedade foi criado, as primeiras transferências foram realizadas sem grande polemica, sempre por base um acordo de cavalheiros prévio. Mas quando um clube sentia que cometia um erro com um jogador, deixando-o sair para testemunhar a consagração do seu talento noutro lado, começaram a desenhar-se as primeiras reuniões tensas.

As regras da co-propriedade
Nem todos os jogadores estão ao abrigo da co-propriedade.

É necessário que o futebolista tenha, como mínimo, dois anos de contrato em vigor para poder ser vendido neste formato. O negócio original dura apenas uma temporada, como um empréstimo. No final do ano os clubes podem decidir prolongar a co-propriedade um ano mais. Em nenhum caso um jogador pode estar em estado de co-propriedade mais do que duas temporadas consecutivas.

No final do primeiro ano, se a co-propriedade não é prolongada por mútuo acordo, recorre-se à negociação por envelope fechado, um leilão que ganha o clube que mais oferecer pelos restantes 50%. O valor mais baixo pago por um clube para fazer-se com os serviços de um jogador foi 1 euro. O mais caro, 11 milhões de euros por metade do passe.

Os clubes não se punham de acordo. O original reclamava o seu direito moral, o clube atual do futebolista defendia-se como podia, declarando que o jogador tinha chegado ao nível vigente precisamente por ter passado aí o ano. Os negócios tornaram-se mais apurados e os envelopes eram abertos debaixo de um clima de grande agitação. Nesse mundo tão transalpino desenharam-se algumas das histórias mais curiosas do Calcio.

A saga Rossi

Nenhuma história é tão exemplificativa desta realidade como a de Paolo Rossi.

O homem que deu o título mundial de 1982 à seleção italiana acabava de regressar de um período de suspensão por fazer parte de uma rede de corrupção. Mas antes, muito antes, Rossi tinha sido uma promessa da Juventus que não parecia encaixar nos planos do clube. Em 1976 apareceu no seu caminho o modesto Vicenza, então a disputar a Serie B, e o clube adquiriu metade do seu passe. Durante dois anos Rossi transformou-se no mais eficaz goleador do futebol italiano, contribuindo com os seus golos para a promoção do Vicenza para a elite do Calcio. De tal forma que, subitamente, Giovanni Trapatonni, o novo treinador da Juventus, exigiu à família Agnelli recuperá-lo para a sua frente de ataque. Mas o Vicenza tinha outros planos e o clube estava preparado a fazer um esforço histórico para manter o jogador.

Na véspera das negociações dos envelopes, o presidente do Vicenza recebeu uma chamada anónima que indicava que a Vecchia Signora estava disposta a pagar o dobro da sua oferta original, cerca de 2 milhões de liras. Desesperado, o presidente do clube preencheu a sua oferta no envelope com 2,6 milhões de liras, para garantir que o jogador ficava com o clube. No final assim foi. Mas a oferta da Juventus era apenas de 600 mil liras. A chamada tinha sido um engodo do clube turinês para aumentar o encaixe financeiro com o jogador. E no fim de contas, o negócio foi o principio do fim do clube. Repleto de dívidas, foi despromovido um ano depois, Rossi acabou emprestado ao Peruggia – onde foi condenado por se envolver no escândalo de apostas que abalou a Serie A em 1980 – e depois da suspensão acabou mesmo por ser jogador da Juventus.

Modelo de sustentabilidade

O clube de Turim tem-se especializado em casos de co-propriedade.

Entre as mais recentes incorporações ao clube bianconero estão Mauricio Isla, Kevin Asamoah, Emanuelle Giacherinni, Giorgio Chiellini e Sebastian Giovinco, todos eles parte do modelo do co-propriedade. Giovinco foi um caso de sucesso. Emprestado ao AS Parma por um ano, o clube parmesão ficou de tal forma impressionado com o seu potencial – que não encontrava espaço em Turim – e adquiriu metade do passe do jogador por 4 milhões de euros. Dois anos depois, já transformado numa estrela do Calcio, vendeu a mesma percentagem por 11 milhões. Hoje Giovinco é um dos nomes fundamentais do plantel da Vecchia Signora e sem a aprendizagem no Ennio Tardini teria sido dificil afirmar-se como internacional italiano.

Durante todo o ano, as relações entre os clubes preparam os negócios de co-propriedade que se formalizam no Verão. Um modelo que permite controlar os riscos e fintar os relatórios de contas. Muitos futebolistas vêm o seu valor de mercado subir ou baixar nestes negócios de forma pouco realista. Para devolver um favor, um clube pode vender a co-propriedade de um dos seus futebolistas por valores irrisórios para depois recuperá-lo por 1 euro. Para os jogadores é uma forma de ter minutos sem quebrar o vinculo com a casa-mãe. Se fossem apenas emprestados corriam o risco de passar mais tempo no banco que em campo. Com metade do passe nas mãos de cada clube, há um interesse nas três partes que o caso funcione bem e a relação seja um sucesso.

Ao contrário do modelo sul-americano, cada vez mais comum em Portugal, a co-propriedade é limitada a clubes, não a agentes ou fundos, e é sempre num molde de riscos partilhados em partes iguais. Para um campeonato em profunda crise financeira é uma alternativa lógica aos buracos de tesouraria. Mas a sua origem, que remonta aos anos sessenta, explica de certa forma como o jogo é entendido pela sociedade italiana. Um espaço comum, onde todos encontram sempre forma de lucrar algo. Por muito pouco que seja.

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