O futebol é dos adeptos é um dos refrões mais românticos e antigos do futebol. Nem sempre é certo. Ao longo da história foram vários os clubes que foram fundados ou apoiados por grandes empresas. Algumas deram os seus nomes aos emblemas que fizeram história em campo. Esta é a sua história.

As histórias de sucesso da Philips e da Bayer

A 31 de Janeiro de 1913 um grupo de trabalhadores reuniu-se para assinar a carta que indicava a fundação de um novo clube de futebol, um desporto que começava a despertar paixões na Holanda. Na véspera, o comité dos trabalhadores tinha solicitado a autorização de utilizar o nome da empresa para a qual trabalhavam como referência do clube. A proposta foi aceite. Nascia o Philips Sport Veerening Eindhoven, o clube dos operários da fábrica que à época já era um dos máximos referentes mundiais em produção de lâmpadas. Em 1988, em Estugarda, os sucessores espirituais desse grupo de trabalhadores sagrou-se campeão da Europa ao bater o SL Benfica em grandes penalidades. Foi a primeira – e até hoje única – ocasião em que o campeão europeu era um clube que devia as suas origens e o seu nome a uma empresa.

O PSV, um dos maiores mitos da história do futebol no Velho Continente, é apenas o caso mais emblemático entre os clubes que cresceram com os nomes das empresas que serviram de génese colados ao emblema. Houve outros clubes fundados á volta de fábricas e empresas como o Arsenal, criado pelos trabalhadores do arsenal de Woolwich, ou a Juventus, clube dos operários da FIAT por oposição ao vizinho Torino. Mas o caminho desses emblemas trilhou-se de forma independente ás suas origens, sobretudo na questão fulcral da nomenclatura.

No caso do PSV Eindhoven o nome da Philips permaneceu sempre associado à sua história.  O primeiro emblema do clube, bem a propósito, era simplesmente composto por uma lâmpada igual ás produzidas na fábrica. Um dos maiores clubes da Holanda e do futebol europeu, o PSV está longe de ter sido caso único na história de futebol. Antes da sua fundação já se tinham registado outros casos de clubes patrocinados pelas marcas que empregavam os seus fundadores. Em 1904 os operários da farmacêutica Bayer, sediada em Leverkusen, fundaram um clube de várias modalidades onde o futebol não era, sequer, o principal protagonista. O tempo foi transformando a vida do clube da Bayer e desde 1979 que o emblema compete na Bundesliga, onde esteve perto de conquistar por diversas vezes um título que sempre encontra forma de se lhe escapar no último momento. Tal como sucede com os vizinhos de Eindhoven, também o clube de Leverkusen cresceu à sombra da celebridade da fábrica que deu forma ao clube e nunca se dissociou das suas origens.

Os clubes das empresas portuguesas

Em Portugal também houve espaço para os clubes fomentados por empresas.

O mais célebre exemplo conhecido é a CUF. Fundado a 27 de Janeiro de 1937 como Grupo Desportivo CUF, o clube foi criado pelos operários da Companhia União Fabril, sediada no Barreiro, como forma de distração nos fins-de-semana passados na margem sul da capital onde o volume de operários concentrados aumentou exponencialmente com os primeiros anos do Estado Novo. A popularidade da CUF na zona aumentou consideravelmente e durante as quase quatro décadas seguintes o emblema verde e branco tornou-se presença habitual na primeira divisão portuguesa, alcançando inclusive a participação nas competições europeias. Em 1974 a nacionalização da companhia, após o 25 de Abril, provocou a queda do clube no esquecimento, incapaz de sobreviver sem o peso financeiro do gigante empresarial. Com o adeus da CUF o futebol português teve ainda um último caso de sucesso, ainda que relativo, de um clube com nome de empresa.

Fundado em 1958, o Grupo Desportivo Riopele representava os trabalhadores e proprietários da fábrica Riopele, especialista na indústria têxtil no vale do Ave. No pós-25 de Abril, a época aurea de crescimento económico da zona, o clube foi escalando posições na hierarquia do futebol nacional logrando a promoção ao Campeonato da 1º Divisão em 1976 numa equipa que contava com o atual treinador do SL Benfica, Jorge Jesus, nos habituais titulares. A experiência durou apenas uma época e o Riopele nunca mais voltou a estar perto da glória mas serviu ainda como ponte para vários jovens jogadores da zona como o futuro internacional Vitor Paneira, darem os seus primeiros passos como profissionais, antes de ser oficialmente extinto em 1985. Uma década depois um clube também patrocinado por uma empresa – a Delta Cafés – mas sem o nome da companhia na designação oficial, o Campomaiorense, tentou repetir a façanha dos seus antecessores antes de acabar por conhecer o mesmo fim.

O circuito mundial de clubes de empresas

O fenómeno de clubes criados, comprados ou patrocinados por marcas é tão antigo quase como o próprio futebol mas não deixa de ser um fenómeno residual. Atualmente existem poucos mais de vinte clubes com o seu nome oficial associado a uma empresa ou companhia.

Entre os casos mais célebres estão o clube francês Evian Thonon Gaillard, baptizado com o nome da célebre água local, ou o Red Bull Salzburg e Red Bull New York, dois clubes que pertencem ao império desportivo da marca de bebidas energéticas (que também conta com outros clubes que patrocina mas sem o nome oficial como o RB Leipzig, bem como equipas de automobilismo e desportos radicais).

No Oriente o fenómeno das empresas apoiarem e fundarem clubes de futebol remonta ao desenvolvimento moderno do jogo nos anos oitenta e é prática corrente na Coreia do Sul (Suwon Samsung ou Ulsan Hyunday), Japão (Honda Motor FC), Indonésia (Semen Padang) ou India (Air India). O fenómeno está também presente, de forma mais tímida, na América. Os casos mais simbólicos são os do Audax Pão de Açucar e do Inti Gas Deportes, emblemas modestos do futebol brasileiro e peruano respectivamente. Na Europa encontramos ainda casos mais residuais como os galeses do Airbus UK, os ingleses do Vauxhal Motors FC, os finlandeses do FF Jano ou os polacos do KSZO Ostrowiec.

A presença de marcas automóveis é habitual nesta conexão com o mundo do futebol. Para lá dos casos da Peugeot (através do Sochaux), da FIAT (Juventus)  e da VW (com o Wolfsburg) também a russa Lada deu origem a um modesto clube de futebol conhecido como Lada Togliati criado propositadamente para os empregados da fábrica da companhia. Na Grécia o fenómeno é diferente. Em 1991 a marca local importadora dos veículos Skoda adquiriu o clube Xhanti e mudou o nome do clube para ostentar igualmente o da marca checa. Particular é também a história do Sheriff Tiraspol, clube fundado por empregados da fábrica moldava aberta após a queda do Muro de Berlim, e que tem não só dominado o futebol moldavo como também se transformou com o tempo no principal simbolo de independência da causa da República da Transnitria.

4.323 / Por
  • Nuno Leão

    Lembrei me de mais um:
    Carl Zeiss Jena

  • Ca

    Acredito que ainda surgirão muitos clubes com nomes de empresas…

  • Gustavo Sousa

    No equador tem o EMELEC – EMpresas ELetricas del ECuador

  • Gustavo Sousa

    No equador tem o EMELEC
    EMpresas ELetricas del ECuador

  • Pingback: CUF, o clube empresa do futebol português | Futebol Magazine()

  • Murteira Good Fellas

    O Sporting Clube da Vista Alegre é exemplo de que essa ligação perdurará

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    Tusker FC no Quênia

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    Lao Toyota F.C. em Laos

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