Em Manchester todos conhecem a “Class of 92”, a geração que cimentou os êxitos da era Ferguson, lançando vários juvenis do clube para o estrelato mundial. No entanto, não foi a primeira vez que os Red Devils viveram essa realidade. Quarenta anos anos, a “Class of 52” marcou o ponto de viragem mais importante da história do clube.

A saga da geração que chegou quarenta anos antes da Class of 92

Beckham, Giggs, Scholes, os irmãos Neville, Butt. Em 1992 Alex Ferguson começou a olhar seguramente com mais atenção que nunca para as camadas jovens do Manchester United. O escocês era há seis anos treinador principal dos Red Devils e ainda não tinha conquistado um título de campeão nacional apesar de somar já uma FA Cup e uma Taça das Taças. No final, entre a incorporação de Schmeichel e Cantona e a promoção desta inesquecível geração, os mancunianos transformaram-se num clube de projeção mundial nos anos seguintes. Olhando atrás no tempo, em 1968, o clube celebrou a sua primeira Taça dos Campeões Europeus – depois de vencer duas ligas em cinco anos – com uma geração forjada essencialmente a partir de 1962 onde despontava um tal de George Best, bem acompanhado pelos golos de Law e o génio de Bobby Charlton que, por sua vez, era também produto da geração forjada a final dos anos 50 e o último sobrevivente do trágico acidente de Munique.

Três gerações, três histórias míticas que forjaram o ADN do Manchester United. E no entanto é possível que nenhuma delas tenha sido tão importante como a “Class of 52”, a primeira geração campeã de Inglaterra desde os anos da I Guerra Mundial com o escudo do Manchester United ao peito. Sem eles, provavelmente, a história do Manchester United tivesse sido muito diferente.

Golos de veteranos e jovens promessas para o título

Matt Busby chegou a Old Trafford em 1945. Era um Old Trafford destruido pelos bombardeamentos da Lufftwafe de tal forma que os primeiros jogos ao leme da equipa foram disputados, em casa, no vizinho Maine Road do eterno rival, o City. Busby era um homem com a disciplina militar que se valorizava á época – viviamos os anos de glória da herança de Champan e também do técnico do Wolverampton, o Major Buckley – mas também um profundo conhecimento táctico do jogo de toque, cultivado no continente, e um óptimo formador de atletas. Os seus primeiros seis anos, como os de Ferguson, quase meio século depois, foram marcados pela ausência de títulos e uma profunda reestruturação do plantel e das infra-estruturas do clube. Pouco a pouco Busby foi moldando o United ao seu gosto, contratando jovens promessas, trabalhando no sistema de formação, até à altura inexistente, com o seu inseparável número dois, Jimmy Murphy, como coordenador, e aprofundando o seu modelo táctico. Em 1951/52 a sua metamorfose encontrou o momento perfeito para desflorar e deslumbrar o futebol inglês.

Busby misturou o melhor dos veteranos com que ainda contava como o capitão John Carey, John Ashton e o goleador Jack Rowley com as incorporações de Roger Byrne, John Berry e Jack Blanchflower, três nomes que mais tarde fariam parte dos onze tipo de toda a década de cinquenta até á catástrofe de Munique. Os golos de Rowley – marcou uma trintena – foram determinantes num óptimo arranque de temporada. O United perdeu pela primeira vez á quinta jornada, contra o Bolton, mas só á décima voltou a tropeçar, quando liderava isolado a classificação, num duelo mano a mano com o Tottenham de Arthur Rowe, o pai do “push and run“. A sequência outonal foi desastrosa com mais quatro derrotas e cinco empates até Janeiro mas a partir de aí, com a definitiva incorporação no onze de Byrne, como extremo esquerdo, e Blanchflower, como interior, precipitaram uma mudança fundamental e o United arrancou para uma sequência histórica de vitórias e salvo três empates, só voltou a perder a 22 de Março, contra o Huddersfield, quando já tinha os Spurs a dez pontos de distância. Um novo tropeção com o Portsmouth e um golo cedo doBurnley alimentou as esperanças dos Spurs mas o empate sobre a hora de Byrne – que, como Giggs, quarenta anos depois, se especializou em golos decisivos nesse fim de época – o United logrou o empate. Não voltaria a perder esse ano e sagrar-se-ia oficialmente campeão a 14 de Abril, de novo contra o Burnley, diante de mais de 50 mil adeptos e com uma goleada histórica, por 6-1.

Os nomes próprios da Class of 52

O título conquistado em 1951/52 não foi apenas o primeiro de Busby ao leme do clube. Foi o primeiro em quarenta anos de história do Manchester United que desde os dias longevos de Billy Meredith, o génio galês que jogava de palito no canto da boca, quando o mundo ainda não tinha sequer vivido os horrores da I Guerra Mundial. Graças ao seu categórico triunfo, Busby não só devolveu o Manchester á elite nacional como confirmou o seu posto como manager, o que lhe permitiu nos dois anos seguintes seguir com o seu projeto promovendo vários adolescentes da formação á primeira equipa á medida que os veteranos campeões se iam retirando. Foi assim que tal como Scholes, Beckham, Butt ou os Neville foram somando minutos até se estabelecerem como titulares entre 1992 e 1996, também nesses anos que se seguiram ao título de 1952 começaram a aparecer na equipa de Busby nomes que ficariam na história, como David Pegg, Bill Foulkes, Ray Wood, Dennis Viollet, Tommy Taylor e claro, Duncan Edwards. Verdadeiros filhos da “Class of 52” – alguns deles com minutos em jogos oficiais e não oficiais nesse ano de 1952 – esses serão os nomes que vão levar o Manchester United ao seu primeiro título em quarenta anos lançando igualmente as bases para as restantes ligas conquistadas nos anos cinquenta e que alimentaram o sonho europeu, adiado por Munique e confirmado uma década depois em Wembley, colocando um ponto final ao projeto que Busby começou a desenhar em 1945 entre destroços de uma guerra maldita e um clube em estilhaços que renasceu das cinzas para brilhar o mais alto possível.

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