Nos imensos subúrbios de Paris, uma cidade que sempre viveu de forma especial a sua relação com o futebol, encontramos  Clairefontaine. Pequena localidade, anonima até aos anos noventa, é hoje o berço da fábrica dos sonhos das jovens promessas do futebol francês. Por lá passaram os melhores jogadores gauleses das últimas duas décadas. Um local sagrado onde se cruzam as técnicas do futuro com a pureza do futebol de rua do passado.

A Universidade do futebol francês

Todos os anos, no Outono, a Federação Francesa de Futebol assume por um dia o protagonismo habitualmente reservado a clubes e ao mercado de transferência. Na sua página oficial é divulgada a lista dos candidatos que foram aceites a integrar o seu centro de estágio durante um ano. O ano que pode mudar para sempre as suas vidas. Em Clairefontaine os jovens aspirantes a ser o próximo Zinedine Zidane ou Thierry Henry vão conhecer a crua realidade que os pode separar de eternas promessas a jovens estrelas.

Foi um percurso realizado por muitos e conquistado por poucos. Mas os que sobreviveram à dura exigência que significa treinar no mais completo centro de formação da Europa têm habitualmente um destino de ouro escrito nas estrelas. De Thierry Henry e Nicolas Anelka, figuras chave da geração de ouro francesa de final dos anos noventa, às jovens estrelas de hoje como Medhi Benatia e Abou Diaby, as perspectivas de sucesso aumentam com o certificado de qualidade de um centro que aglutina tudo aquilo que falta ao futebol francês. Até recentemente, antes da entrada em peso de investidores estrangeiros, o futebol francês foi sempre gerido de forma displicente, sem grande ambição internacional. O país teve de esperar por 1993 para ter o primeiro vencedor da Champions League e o Olympique Marseille acabou por ser também o mais polemico dos campeões. No mesmo ano foi despromovido por corrupção na Ligue 1 e a UEFA, apesar das suspeitas de suborno na fase de grupos a jogadores do Rangers, limitou-se a vetar o clube em participar na Supertaça Europeia e Taça Intercontinental. Escassos clubes venceram provas europeias mesmo nas competições secundárias. Os estádios estão entre os mais belos mas também humildes da Europa. São poucos os jogadores internacionais que procuraram a liga francesa para conseguir dinheiro e mediatismo.

A formação sempre foi a grande arma dos gauleses. Aproveitando as influências coloniais, desde os anos vinte que a liga de futebol nacional vive do talento genuíno de magrebinos, centro-africanos e caribenhos para lá das comunidades de emigrantes italiana, catalã e da Europa de Leste.  Mas apesar da brilhante rede de olheiros e de uma qualidade formativa superior á de muitas potências europeias, nenhum clube francês dispõe um centro de importância mundial reconhecido internacionalmente. Não é preciso. Clairefontaine cumpre a missão perfeitamente.

A ideia de Stefan Kovacs transformada em realidade

O Centro Técnico Nacional Fernand-Sastre, conhecido comummente como Instituto Nacional de  Clairefontaine, foi fundado em 1988. É a versão futebolística francesa da Sorbonne de Paris, uma verdadeira Universidade sem paralelo no futebol europeu.

1988 foi um ano simbólico para o futebol francês. Michel Platini, o herói de uma década de renascimento depois de vinte anos sombrios que separaram as gestas de Kopa e Just Fontaine das de Platini, Giresse, Tigana, Fernandez ou Genghini, tinha-se acabado de retirar. Dois anos depois era nomeado selecionador nacional. Foi o primeiro passo para uma carreira fora dos relvados que prosseguiu como dirigente da candidatura mundialista de 1998 e que acabou na presidência da UEFA.

Nesse mesmo ano o Olympique Marseille de Bernard Tapie começou a sua hegemonia nacional lançando as bases do que viria a ser, efetivamente, a primeira grande potência gaulesa internacional desde os “Les Verts” do Saint-Etienne a princípios dos anos 70. Numa esfera complementar, a criação de uma universidade de formação de futebolistas de elite abria as perspectivas de um futuro brilhante para o futebol francês. Tinha sido idealizada uma década antes por Fernand Sostres, então presidente da Federação francesa, depois de várias conversa com Stefan Kovacs, selecionador gaulês e campeão europeu com o Ajax. Para Kovacs, que conhecia tão bem os centros de treino romenos patrocinados pelo regime comunista como as escolas de formação ajaccied, o futuro do futebol francês passava exclusivamente pela formação. Tinha razão. Dez anos depois da sua inauguração o país organizaria o Mundial de Futebol conseguindo alcançar o seu primeiro titulo de campeão. Entre os convocados por Aimee Jacquet estavam os primeiros produtos de sucesso da Academia.

Centro de formação exemplar

A Academia funcionou desde o principio como uma universidade.

Os jogadores do país apresentavam as candidaturas, realizavam vários dias de provas diante dos treinadores, professores, psicólogos e dirigentes responsáveis pelo centro antes de que o INF – a sigla pela qual a Academia é conhecida – publicasse a exclusiva lista dos que eram aceites. Os candidatos tinham de ter idades exclusivas entre os 13 e os 15 anos. Durante dois anos – dependendo se aprovavam os exames ao final do primeiro curso – os jogadores passavam pela exigência máxima dentro e fora do relvado defendida pelos criadores do projeto. Clairefontaine não era apenas uma universidade de futebol jogado. Os alunos tinham aulas de táctica, preparação física, nutricionismo e de educação convencional. Dormem nas instalações de Clairefontaine, são inscritos na escola preparatória vizinha de Rambouillet e são obrigados a aprovar todos os exames escolares como condição prévia para seguir na Academia.

Tudo é pago pela Federação Francesa em forma de bolsa escolar renovada durante os dois anos tendo em conta os resultados obtidos.

Aos fins-de-semana podem ir para casa dos pais e continuar os treinos nos clubes  a que já estão – na esmagadora maioria dos casos – inscritos. Eles são os que mais lucram com este projeto de formação já que recebem aos 15 anos futebolistas com preparação de elite.

Aos 15 anos, cumprida a formação, os jogadores aprovados recebem um diploma e são reenviados para os seus clubes. Passam também a fazer parte imediatamente da lista de seleccionáveis do selecionador de sub 16 francês que habitualmente realiza as suas convocatórias quase exclusivamente baseadas em jogadores com passado no INF. Eles são o futuro do futebol gaulês.

O futuro do futebol gaulês

Paralelamente a funcionar como Universidade do Futebol, Clairefontaine transformou-se também na casa espiritual dos Les Bleus.

Desde 1998 que os estágios da federação são organizados no enorme campo desportivo com mais de 56 hectares de campos, ginásios e centros de preparação física. O sucesso inaugural de Clairefontaine permitiu à Federação Francesa de Futebol continuar a sua aposta na formação. Nos últimos quinze anos foram inaugurados outros doze centros de elite de formação espalhados pelo país. Inicialmente a Clairefontaine acudiam jogadores sediados nos quatro cantos do país mas atualmente o Centro pertence exclusivamente a jovens com domicilio na região de Ille de France – Paris e arredores – sendo que os restante podem candidatar-se ás academias criadas no resto do país seguindo os mesmos padrões de treino e formação instaurados há vinte e cinco anos no INF.

O sucesso de Clairefontaine é inegável. Sete em cada dez dos inscritos na Academia com mais de 18 anos têm atualmente contrato com clubes da Ligue 1 e vários somaram dezenas de internacionalizações. A saga que começou com Thierry Henry e Nicolas Anelka tem sido seguida por Willem Gallas, Hatem Ben Arfa, Jerome Rothen, Louis Saha ou Blaise Matuidi. Devido à ascendência gaulesa, o centro formou também vários internacionais de paises francófonos como Marrocos, Senegal, Costa do Marfim, Argélia, Tunisia, Camarões e Togo.  O futuro do futebol em francês continua a ser fabricado dentro das suas portas. É em Clairefontaine, mais depressa do que nas ruas de Marselha, que seguramente, vamos encontrar o próximo Zinedine Zidane.

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