Godfrey Chitalu, o mito dos 107 golos num só ano

107 golos num ano natural. O recorde não é oficial, a própria federação da Zâmbia admite-o. Mas mesmo assim a margem de erro é tal que é difícil não acreditar que Godfrey Chitalu é o verdadeiro detentor do máximo recorde de golos marcados num só ano natural.

O rival de Messi

Lionel Messi logrou o que nenhum goleador nos últimos quarenta anos fora capaz.

Os seus 86 golos superaram o feito histórico de Gerd Muller e entronizaram, ainda mais, se é que era necessário, o génio argentino como um jogador de excelência. Messi marcou num ano em provas da mais alta exigência, da Liga BBVA à Champions League sem esquecer a Copa del Rey e a Supertaça de Espanha. Ter logrado os seus registos no futebol atual, onde os espaços e o trabalho defensivo está muito mais avançado do que se encontravam homens golo como Muller na década de 70, tem ainda mais mérito.

Muller marcou 85 golos em 1972, um ano em que o Bayern Munchen venceu a Bundesliga mas onde na Europa ainda tinha um papel marginal. Foi o ano em que a RF Alemanha venceu o Europeu da Bélgica, com a sua preciosa contribuição. Mas segundo os historiadores, não foi o recorde do ano. Nem o recorde máximo da história do futebol. Porque em África, um avançado zambiano tinha superado os registos de Muller por uma diferença abismal.

107 golos num ano natural. Um recorde que nunca ninguém reconheceu de forma oficial, porque uma das provas em que Godfrey participou foi organizada à rebelia da Federação nacional. Os números variam portanto, conforme as fontes e vão desde 101 a 107, a cifra que mais se repete. Mas o que parece evidente é que Godfrey Chitalu superou a marca dos 100 golos num só ano.

A complexidade dos registos goleadores

Naturalmente, o recorde do zambiano não pode ser comparado nem ao de Muller e muito menos ao de Messi. A natureza do futebol na Zâmbia de 1972 assemelhava-se muito mais ao futebol amador europeu que às provas de alta competição mundial onde se moviam as grandes estrelas mundiais.

Da mesma forma que demonstramos que o recorde goleador de Pelé era irreal, mergulhar no passado de Chitalu é também uma viagem ao engano. Mas no final de um ano em que se fez história vale a pena conhecer este outro lado do espelho do universo goleador. Porque Chitalu foi, durante toda a sua carreira, um verdadeiro homem-golo.

O primeiro zambiano a vencer o prémio ao melhor jogador nacional nasceu num território que em 1941 ainda era conhecido como Rodésia do Norte, protectorado britânico no sul de África. Quando começou a sua carreira como futebolista o país ainda não era reconhecido internacionalmente como Zâmbia mas entre os seguidores do futebol africano o seu nome já era conhecido.

No Kitwe United tornou-se numa das estrelas mais populares do país, mas o seu temperamento era tão conhecido como o seu talento. Foi o jogador mais expulso da liga local, culpado por agressões múltiplas a adversários e árbitros, por simulações numa era onde essa atitude era impensável e até por mentir à equipa de arbitragem. Num célebre jogo com a camisola da seleção, da qual é o maior goleador histórico com 76 golos, recebeu um amarelo do árbitro inglês Arthur Davis. Quando lhe perguntou o nome, para anotar na folha de jogo, Chitalu respondeu ao árbitro que se chamava Dennis Law. O amarelo tornou-se imediatamente em cartão vermelho. E não foi um caso isolado.

O ano dos 107 golos

Apesar do seu comportamento pouco recomendável o seu apetite de golos não era apenas lenda. Em 1968 venceu a primeira edição do prémio a Futebolista Zambiano do Ano. A sua popularidade era já reconhecida internacionalmente e apesar de não ser o avançado titular da seleção, algo que nunca perdoou aos técnicos que o acusavam de ser excessivamente individualista, em cinco anos apontou um total de 374 golos nas provas nacionais da Zâmbia, uma média de 75 golos ao ano. Golos dos quais há um registo fatual com uma ligeira margem de erro, algo que nesta época e nas circunstâncias em causa não deve deixar de ser tida em consideração.

Em 1972, já ao serviço dos Kabwe Warriors, e depois de ter vencido o seu segundo Futebolista do Ano, chegou a cifra mágica e mítica  107 golos numa só época, entre golos com a seleção da Zâmbia na fase de qualificação para o Mundial da Alemanha e nas competições nacionais e continentais.

A transferência do dianteiro para o Kabwe esteve rodeada de polemica e nos primeiros seis meses da temporada, o final de 1971, Chitalu esteve impedido de jogar. Estreou-se apenas em Janeiro, apontando dois golos contra o Matanja na Taça dos Campeões Africanos. Quando chegou ao mês de Novembro, num jogo contra o Copperbelt, na fina da Taça Challange, tinha atingido os 107, assinando nesse dia o último dos seis 17 hat-trick no ano.

Nessa época Chitalu participou em cinco competições distintas, dos quais uma, a Taça da Liga, não estava reconhecida pela Federação, o que invalida o seu recorde de forma oficial até aos dias de hoje. A Federação da Zâmbia já reconheceu que vai investigar os registos, para apresentar à FIFA o número definitivo contabilizando apenas as suas provas, mas os registos da época indicam que, mesmo se for o caso, a cifra andará à volta da centena de golos.

Entre os vários jogos da época contam-se golos nas vitórias sobre Zambia Police (2), dois contra o seu ex-clube, o Kibwe United na Charity Shield do Zâmbia (Supertaça), 3 ao Maseru United, 4 ao Rangers Norlo, para a Taça, sete ao Sothos, 2 e 3 respectivamente ao Ndoca United e Chibuku, também para a Taça, 7 ao Mufukila, 5 ao Buseko United e ao Rohn FC e 3 ao Kalushi United, o jogo que encerrou a temporada e onde atingiu os 100 golos. Os restantes sete foram divididos nos confrontos contra o Kibwe – outra vez – onde marcou 4, na final da Taça e o hat-trick na final da Taça Challenge.

O seu clube venceu todas as quatro competições nacionais em que participou, incluindo a não-oficial e Chitalu foi o melhor marcador oficialmente reconhecido em todas elas. Na Taça dos Campeões de África ficou-se pelos Quartos de Final. No total os 107 golos (entre os quais 17 hat-tricks) nas várias provas em que participou ficam assim repartidos:

– 62 golos no campeonato nacional

– 29 golos nas taças da Zâmbia, Liga e Challenge

– 11 golos na Taça dos Campeões Africanos

– 5 ao serviço da seleção da Zâmbia, incluindo um amigável com o Lesotho

O registo é sobretudo fiável no que se trata dos jogos ao serviço da seleção – um amigável e nos jogos de apuramento para o Mundial de 1974 – e os disputados na competição continental. Ao serviço do Kabwe Warriors apontou os onze golos nas vitórias sobre o Majantja (2-2 e 0-9), AS Saint Michel (2-1 e 3-0) e na derrota, nos Quartos de Final, com o Hearts of Oak (7-2 e 1-2).

Dois anos depois, Chitalu seria uma das estrelas da seleção zambiana na presença histórica do país numa final da Taça das Nações Africanas, altura em que venceu o terceiro prémio ao melhor jogador nacional, feito que repetiu por mais duas vezes, no final da década, quando já era um dos jogadores mais veteranos do país.

Em 1980, depois de se ter sagrado nos anos anteriores de forma consecutiva como melhor goleador da liga da Zâmbia, marcou o único golo do pais numa participação olímpica  nos Jogos de Moscovo num encontro que acabou 3-1 favorável aos da casa. Foi o último jogo oficial ao serviço da seleção de um avançado para a posteridade.

O autor da equipa que a Zâmbia nunca esquecerá

Dois anos depois retirou-se de forma definitiva, com 41 anos e mais de duas décadas de carreira. Apesar do polémico recorde, recebeu um prémio da própria FIFA que reconhecia o feito com uma placa comemorativa. Não teve a felicidade de desfrutar de ela muito tempo.

Onze anos depois, Chitalu era agora um dos treinadores mais bem sucedidos do país, o primeiro em vencer o prémio ao Treinador do Ano depois de ter sido galardoado com o prémio ao melhor jogador. A sua popularidade levou-o ao cargo de selecionador nacional. Montou uma equipa de sonho, provavelmente uma das melhores da história do futebol africano, e tudo indicava que iria marcar presença no Mundial dos Estados Unidos. A 27 de Abril, quando partia para o Senegal onde iria disputar mais uma eliminatória de qualificação para o Mundial, o avião que transportava a equipa desapareceu sob as costas do Gabão.

Entre os 30 mortos estava Godfrey Chitalu, o mais inspirador homem do futebol que o pequeno país africano conheceu e o único goleador que ainda tem a honra de poder olhar para baixo e ver atrás de si os melhores goleadores da história tentarem igualar o seu registo mitológico.

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