Charles Reep, o primeiro analista do futebol

A análise estatística e de performance no futebol começou na tarde do 18 de Março de 1950. Desde então, tornou-se parte fundamental da indústria que rodeia o beautiful game. Charles Reep, o primeiro analista da história tornou-se, com o tempo, um dos homens mais polémicos da história do futebol.

O homem que trouxe a estatística para o futebol

O comandante Charles Reep estava de licença. E tinha um projeto paralelo à sua missão militar que queria desenvolver. Algo que o conectava com um mundo que começou a conhecer nos dias da II Guerra Mundial, quando assistia com regularidade aos jogos de futebol entre os regimentos da R.A.F.  Na tarde do 18 de Março de 1950 – a poucos meses do desastre mais simbólico da história do futebol britânico até então – abandonou o quartel militar onde estava instalado e deslocou-se ao modesto campo do Swindon Town. A equipa local defrontava o Brighton. Um jogo sem expressão mas que foi o ponto de partida para o que hoje conhecemos como análise estatística no futebol.

Reep sacou de um caderno de notas, de uma caneta e passou os seguintes noventa minutos a registar dados. Remates, remates à baliza, passes correctos, passes falhados, cantos, livres. Dias depois, de novo no campo do Swindon. Repetiu a rotina. E assim durante anos, Charles Reep dedicou-se a coleccionar dados estatísticos dos campos de futebol. Estava determinado a descobrir os padrões que explicavam qual era o caminho mais rápido para o sucesso no futebol: o golo.

Reep encontrou o caminho. Pelo menos o seu. A sua fórmula tornou-se célebre nas entranhas do futebol inglês. Durante várias décadas trabalhou com clubes, treinadores e selecionadores nacionais partilhando a sua filosofia. Desenvolveu vários estudos, apresentou trabalhos escritos e criou uma escola de pensamento. O pai espiritual do kick-and-rush tornou-se, com o tempo, mais do que o primeiro analista do futebol. Era o alvo preferencial dos que criticavam a sua abordagem ao jogo. Os seus estudos foram analisados até à exaustão para descobrir quais eram as falhas na sua linha de pensamento. Aquela que defendia que para marcar um golo o ideal seria dar o mínimo número de passes possível. A que descartava o jogo de possessão como uma opção válida e defendia a velha ideia dos futebolistas ingleses do século XIX do pontapé do esférico para a área. Com o tempo Reep tornou-se tão grande como a sua própria ideia.

Três passes, a medida exacta do golo

A filosofia de Charles Reep foi exposta pela primeira vez ao mundo no seu trabalho “Talento e Oportunidade no Futebol”, em 1968. Era uma exposição cientifica que recolhia quinze anos de análise e estudo de jogos de várias competições, presenciais e via televisão. Nele, Reep acreditava ter encontrado o padrão ideal para ganhar um jogo de futebol. O analista defendia que cada equipa precisava, em média, de nove ocasiões para conseguir um golo e que à medida que uma equipa ia trocando a bola entre os seus jogadores, aumentava a percentagem de erro e, portanto, a percentagem de perder o esférico e dar a oportunidade ao rival. Os seus números indicavam que 92% das jogadas acabavam com o quarto passe.  A partir desses números Reep criou a teoria de que para chegar ao golo cada equipa não deve superar uma sequência de mais de três passes encadeados. Futebol o mais directo possível.

Reep não era um amante do futebol. Desde a infância, passada numa Cornualha sem tradição futebolística, que as suas paixões sempre tinham estado relacionadas com o mar e o exército. Mas era um homem racional, analítico e que gostava de acreditar que o acaso não existia. Quando entrou em contacto diário com o futebol e o habitual discurso da aleatoriedade das vitórias e derrotas, decidiu provar que a sorte, no futebol, podia ser controlada. Viajou por Inglaterra durante quase vinte anos, registando com o seu bloco de notas os dados necessários para o seu projeto. Juntou à sua avaliação gravações de importantes encontros internacionais. E a partir de aí definiu a sua teoria que era, curiosamente, muito similar aquela defendida, entre outros grandes managers britânicos, por Herbert Chapman e Stan Cullis.

Essa era a base estatística do seu trabalho mas a sua investigação ia mais longe. Em 1968 Reep colocou no papel as bases do pressing, defendendo que mais de 30% das recuperações de bola na área do adversário acabavam em oportunidades claras de golo. Metade de todos os golos apontados resultavam dessa recuperação imediata à perda de bola, conceitos hoje tidos como básicos e que, na época, não eram colocados em prática de forma consciente. Mas foi a sua defesa incondicional do futebol directo que o tornou célebre e, ao mesmo tempo, um nome maldito.

Com a sua investigação – que defendia que mais de três passes eram prejudicais, que a maioria dos golos aconteciam dentro da grande área e que a probabilidade de erro aumentava com a bola nos pés – Reep estabeleceu um modelo de jogo para quem o quisesse ouvir. As equipas não se deviam preocupar em ter a bola mas sim colocá-la sempre que possível dentro da área, garantindo que assim não a perdiam perto da sua – dando oportunidade de golo ao rival – e procurando aumentar a média de disparos. Se cada golo surgia, segundo os seus números, a cada nove disparos, que melhor alternativa do que disparar o máximo número de vezes para aumentar as possibilidades estatísticas de conseguir furar as redes do rival?

O analista que se transformou no profeta do jogo directo

Reep apareceu numa era de transformação do futebol.

O seu trabalho como analista foi pioneiro. Mas a sua filosofia entrou em choque com o desenvolvimento do jogo de matriz continental, o renascimento de uma escola danubiana interpretada tanto pelo Brasil que conquistou o Mundial de 1970 como pela Holanda e Alemanha que dominaram o futebol europeu da década de setenta. Mesmo em Inglaterra, onde o seu trabalho era mais conhecido, Reep foi abertamente criticado por treinador como Bill Shankly e Brian Clough, que favoreciam uma abordagem mais continental. Mas houve sempre quem estivesse disposto a ouvi-lo. Nos anos setenta o analista – já um veterano militar reformado e com muito tempo livre – associou-se ao jovem promissor treinador do Watford, Graham Taylor. Em conjunto desenvolveram um esquema de jogo que aplicava toda a filosofia de Reep. Com ele o Watford revelou-se na grande sensação do inicio dos anos oitenta em Inglaterra. Uma equipa que sofria golos mas encontrava forma de marcar sempre mais e que fazia do pontapé para a área e do jogo aéreo a sua grande arma.

Taylor e Reep obtiveram sucesso – e o treinador foi nomeado selecionador nacional quando Charles Hughes, director técnico da F.A. e admirador confesso das ideias de Reep – o escolheu para suceder a Bobby Robson, mas o modelo provou ser facilmente ultrapassado. O último suspiro de êxito da filosofia de Reep aconteceu com a seleção da Noruega nos anos noventa. O seu selecionador, Egil Olssen, correspondia-se regularmente por carta com Reep e pedia-lhe conselhos que, postos em prática, levaram o país nórdico a viver os melhores anos da sua história, com uma dupla qualificação para os Mundiais e um histórico primeiro lugar no ranking FIFA. Ironicamente o primeiro Mundial da história da Noruega foi alcançado depois de uma vitória dos homens de Olsen sobre os “Pross” liderados por Taylor. Um duelo onde a filosofia de Reep foi levada ao extremo.

O homem que cunhou o termo “match performance analysis” foi o primeiro a entender que a análise dos números que fazem parte de um jogo de futebol são fundamentais para estabelecer padrões de treino, modelos tácticos, investidas no mercado de transferência e princípios de jogo. Desde o primeiro jogo que analisou, Reep lançou as bases para os sistemas de análises estatísticos onde hoje trabalham centenas de profissionais a cargo de clubes ou de empresas reconhecidas internacionalmente. No entanto, o seu posicionamento ideológico inflexível, tornou-o quase numa persona non grata para os amantes românticos do beautiful game. Sem esse fantasma, a imagem de Charles Reep não deixa de ser fundamental para entender os princípios mais básicos do futebol de hoje!

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