Cebollitas, o início da lenda de Maradona

Todos os mitos nascem a partir de lendas misteriosas. A de Diego Armando Maradona forjou-se nas ruas apertadas de Villa Fiorito e nos campos de terra e lama dos subúrbios de Buenos Aires. Diego ainda não era “Dios” mas com a equipa juvenil Los Cebollitas desenhou o seu caminho rumo às estrelas.

O Pibe de Villa Fiorito

Chovia, chovia e não parava de chover. Era um 5 de Dezembro traiçoeiro e os céus de Buenos Aires tinham desabado sobre a cidade sem piedade de um grupo de crianças que olhava desesperada para um campo onde nem se intuía que houvesse relva. Muitos choravam, de raiva sobretudo. O mais desconsolado tinha dez anos mas ninguém acreditava nele. Parecia muito mais novo. Como não tinha trazido consigo os papeis oficiais de registo a suspeita permanecia. Mas tinham decidido dar-lhe uma oportunidade. Uma oportunidade para integrar os escalões de formação do Argentinos Juniores. Uma oportunidade que a chuva estava a arruinar, gota a gota. Subitamente, um homem mais velho, colocou-lhe a mão sobre o cabelo e disse-lhe que não chorasse. Não se podia jogar aqui, jogava-se noutro sitio. Iam todos cumprir o seu destino.

Diego Armando Maradona começou a sua história nesse momento.

O pequeno prodígio era a estrela incontestada das ruas estreitas e abandonadas da modesta Villa Fiorito, um dos bairros mais pobres dos subúrbios de Buenos Aires. Jogava sempre contra rapazes mais velhos e ninguém tinha encontrado forma de o travar. Era de tal forma talentoso que convenceu o pai a organizar uma equipa de miúdos do bairro para entrar nos torneios locais nos seus tempos livres. A equipa chamava-se Estrela Vermelha e os pequenos sabiam que a vitória era certa. Bastava passar a bola ao “Pelusa” e problema resolvido. A sua fama foi tal que um dos treinadores do Argentinos Juniores começou a seguir os torneios do bairro. Detectou imediatamente quatro jovens com potencial para realizar as captações para o clube. A idade mínima exigida era de dez anos mas o mais talentoso de todos não parecia ter sequer oito anos. A principio pensou em não levá-lo mas os pais juraram-lhe que tinha cumprido os dez anos. Francis Cornejo decidiu acreditar neles. Algo lhe dizia que aquele pequeno estava destinado a grandes feitos. Convocou os pequenos para um treino no dia 5 de Dezembro de 1970 às portas do campo de treinos do clube. Maradona saiu nessa manhã com os seus amigos e uma mochila cheia de ilusões e sonhos. Apanhou o autocarro 28 e a meio caminho mudou para o 44. Durante quase uma hora atravessou a capital debaixo de um temporal, rezando para que a chuva parasse. Os céus tiveram pouca piedade mas o destino fintou as adversidades. O treino realizou-se noutro pequeno campo e Maradona e o seu grupo foram recrutados. Começava a saga dos Cebollitas.

A saga dos Cebollitas

Durante seis anos a aventura dos Cebollitas ganhou contornos de lenda.

Todos os grandes jogadores começaram as suas carreiras em pequenos clubes de bairro ou nas ruas. Os Cebollitas era o nome com que o Argentino Juniores tinha baptizado a geração nascida em 1960 para disputar os campeonatos de formação até terem idade suficiente para integrar a equipa dos júniores. Maradona causou um impacto imediato mas os primeiros tempos foram complicados. O seu grande rival nos torneios de Villa Fiorito, Goyo Carrizo, era o titular da equipa porque tinha um corpo mais desenvolvido para a sua idade e manejava-se melhor com os duros defesas rivais. Mas não possuía a chispa de magia que desde cedo marcou a carreira de “El Diez”.

Com o tempo Diego provou a Cornejo que ele era mais do que uma arma secreta para ter no banco e passou a ser utilizado até nas equipas de idades superiores. Poucos mesesdepois de ter começado a treinar com a equipa da sua idade, os Cebollitas perdiam contra a equipa de formação do Racing de Avellaneda. A maior parte dos jogadores em campo tinha mais três anos que Maradona e o jovem estava impaciente no banco até que o técnico o mandou entrar. Em dez minutos o pequeno marcou dois golos e assistiu um terceiro resolvendo a contenda. A pouco e pouco a sua fama crescia e o nome Maradona começava a ser uma celebridade.

Para enganar os rivais, Cornejo utilizava uma estratégia. Contra o Boca Juniores, na corrida rumo ao título desse ano, levou Maradona consigo para o banco mas registou-o na ficha de jogo com outro nome, Montanya. Na primeira volta Diego não tinha jogado contra o seu futuro clube e ninguém sabia como ele era fisicamente. Quando o marcador estava em 3-0, favorável aos “xeneizes”, lá entrou Diego para igualar o marcador. E assim foi. O jogo acabou empatado e enquanto celebravam, os jovens do Cebollitas pegaram em ombros ao pequeno Diego gritando pelo seu verdadeiro nome. Desesperado, o treinador do Boca Juniores aproximou-se de Cornejo e disse-lhe na cara “És um traidor “boludo”, atiraste para cima de mim o Maradona“. Um nome que repetiriam na Argentina eternamente até hoje com a mesma admiração.

A ascensão ao mundo dos adultos

Os Cebollitas tornaram-se numa equipa de culto do futebol argentino.

Realizaram várias digressões pela América Latina e estiveram 136 jogos invictos nos torneios de formação e competições regionais. Entre 1973 e 1975 foram tricampeões nacionais do futebol juvenil argentino. Na década de noventa, mais de vinte anos depois da sua gesta, uma série juvenil televisiva adotou o nome da equipa em homenagem aos seus dias de glória. Dias em que jornais do prestigio do Clarin ou El Gráfico realizaram reportagens sobre a equipa, sempre focando o carácter indomável do mais pequeno dos seus talentos. A dez dias de cumprir dezasseis anos, Maradona cumpriu com o seu tempo na equipa. Era já evidente para todos que apesar da idade, tinha qualidade suficiente para jogar pela primeira equipa do Argentinos Jrs. Estreou-se a 20 de Outubro de 1976 num jogo do campeonato e durante cinco anos colocou o modesto clube dos subúrbios no centro do mundo. Nunca foi campeão, uma tarefa praticamente impossível, mas logrou um subcampeonato que foi festejado no bairro como se de um troféu se tratasse.

O génio adolescente tomou rapidamente a batuta da equipa e a sua ascensão foi de tal forma meteórica que houve um genuíno clamor popular para inclui-lo na seleção argentina que ia disputar o Mundial. Maradona não tinha ainda 18 anos cumpridos e foi chamado ao estágio prévio por César Menotti mas o selecionador acabou por descarta-lo, dando a entender que era demasiado jovem para a tremenda exigência psicológica a que os jogadores da “Albiceleste” iam estar sujeitos. Diego nunca lhe perdoou a possibilidade de ter sido campeão do Mundo com a idade de Pelé frente aos seus adeptos. Um ano depois, enquanto continuava a distribuir magia pelas “canchas” argentinas, levou a seleção olímpica ao título mundial de sub-19 em Tóquio. Depois veio a polemica transferência para o Boca Juniores, a desilusão do Mundial de Espanha, a chegada a Barcelona, os anos difíceis na Cidade Condal e Nápoles. E o Azteca. E a mão de Deus. E o golo de Deus. E os títulos no San Paolo. E toda a história transformada em lenda impossível de repetir. A história que todos conhecem começou depois. Antes houve os invencíveis Cebollitas. Antes houve a voz conselheira do professor Cornejo. Antes houve um Diego à solta, cabelo ao vento, em campos de areia perdidos por Buenos Aires sonhando com uma lenda que já estava escrita para ele.

2.117 / Por