Debaixo de uma chuva de papeis brancos e azuis os jogadores argentinos abraçaram-se no relvado mesmo ao lado dos cabisbaixos holandeses. Depois de quarenta e oito anos a Argentina sagrava-se finalmente campeã mundial. Mas nem todos celebraram. Á distância, Jorge Carrascosa, olhava silencioso para um momento histórico que ele tinha decidido seguir à distância. Ele, o capitão da Albiceleste que tinha preferido ser fiel aos seus ideais antes de ser campeão do Mundo.

O Mundial da vergonha

Em 1978 Johan Cruyff não marcou presença no Mundial. Muitos associaram á época a decisão do holandês com um protesto formal à ditadura militar que governava a Argentina. Não foi. Cruyff podia ser um homem de ideais mas nunca abandonaria um torneio por política. Já o dinheiro e a pressão famíliar, era outra coisa. Foram esses os motivos que fizeram Cruyff manter a renúncia à seleção Laranja do mesmo modo que nenhum outro país sofreu com renúncias de jogadores para entrar na competição. O Mundial seria o primeiro disputado num país governado por uma ditadura desde o Itália 34, mais de quatro décadas antes. Os suecos foram os únicos que fizeram um pequeno esboço de protesto, visitando as mães e avós dos desaparecidos da Plaza de Mayo de forma simbólica. Um protesto singular mas que não passou de aí.

O mundo preferiu olhar para outro lado, seguindo a canção de embalar entoada pela FIFA que era agora presidida por um homem, João Havelange, que tinha igualmente ascendido politicamente num país governado por uma ditadura militar. O apoio do brasileiro aos generais argentinos – e aos espanhóis, que garantiram a organização do Mundial de 1982 antes de se formalizar o fim do Franquismo – foi determinante mas estes fizeram o seu próprio trabalho de casa. Silenciaram toda a oposição, iniciaram a sua particular politica de relações públicas institucionais criando a sensação à imprensa estrangeira que o país estava a viver um período de paz e prosperidade e desafiaram inclusive as convenções ao nomear um reconhecido militante de esquerdo, Céar Menotti, como selecionador nacional. No entanto nem todos estavam dispostos a alinhar com o branqueamento político do regime. Muitos jogadores argentinos indicaram, anos depois da queda da Junta Militar, que na altura não entendiam que estavam a ser utilizados e que jogavam apenas pelos adeptos. Nem todos pensavam do mesmo modo. Jorge Carrascosa foi um deles.

O desgaste emocional de um revolucionário

Carrascosa começou a brilhar no futebol argentino como lateral de grande projeção ofensiva ao serviço do Banfield antes de passar pelo Rosario Central. Mas foi no Huracan, a modesta equipa de Buenos Aires que tinha assaltado o título argentino em 1973, que se converteu numa referência nacional. Menotti era o treinador do “Globito” e num onze que incluía ainda o genial René Housemann, o Huracán permitiu aos argentinos recuperarem algo de amor próprio no seu futebol depois de uma década violenta onde predominaram equipas como o Racing de Avellaneda ou o Estudiantes de la Plata, formações que privilegiavam o jogo de contacto físico sobre a superioridade técnica. Carrascosa era um lateral fabuloso e um líder de balneário.

O seu carácter era de tal forma impactante que rapidamente foi nomeado como capitão da seleção à frente de outros pesos pesados como Daniel Passarella. Era um homem da rua, com uma profunda convicção politica, e um dos mais acérrimos defensores do espírito igualitário no balneário. O seu estilo casava perfeitamente com o pequeno universo do Huracan mas com a Albiceleste – reconhecida historicamente como uma equipa onde competiam mais os egos entre si do que contra os rivais – o seu discurso encontrava-se muitas vezes com altos muros e silêncios incómodos. Todos o respeitavam mas pouco partilhavam do seu espírito quase amador e solidário. A tal ponto que Carrascosa ponderou, antes de tempo, abandonar o futebol. Tinha conhecido o continente americano com a camisola do Huracan e viajado pelo mundo com a seleção e sentia que não havia nada mais que o pudesse surpreender pela positiva num universo cada vez mais sombrio. Tudo começou em 1974.

Nesse torneio mundial, disputado na Alemanha, Carrascosa foi surpreendido pela decisão da federação argentina em dar um prémio de jogo secreto aos jogadores da Polónia para que vencessem a Itália, o único resultado que permitia a passagem dos argentinos à segunda fase. A decisão foi polemica e o lateral imediatamente manifestou a sua repulsa. O acordo foi assinado em surdina, a Polónia cumpriu a sua parte do papel e a Argentina apurou-se para acabar humilhada pela Holanda na ronda seguinte. A alma do jogo parecia perdida para sempre para o jogador que se encontrou nos anos seguintes com outras situações similares na liga argentina. Menotti, eleito novo selecionador, prometeu-lhe que com ele ao comando tudo seria diferente e o lateral, que já tinha pensado em renunciar, manteve-se entre os selecionáveis mais três anos. Até que os militares chegaram ao poder e começaram a contactar diretamente com Menotti e os jogadores, relembrando-lhes da importância de um triunfo no Campeonato do Mundo. Para o capitão albiceleste essa pressão vinda de quem vinha era insuportável. Para ele o futebol não era uma questão de “vida ou morte” e não podia ser cúmplice de algo assim.

O capitão que não levantou a taça

Menotti passou semanas a tentar convencer Carrascosa a mudar de ideias. Foi até sua casa em várias ocasiões ficando a discutir com ele até altas horas da madrugada. Mas sempre que o selecionador tentava desviar o foco da Ditadura para os adeptos anónimos, Carrascosa coçava a barba e abanava a cabeça, desiludido por ver como um homem que comungava dos seus ideais políticos se deixava persuadir pelo sonho da glória desportiva.

Ele era incapaz de participar no que ele entendia ser uma farsa política por muito que se tentasse desviar a atenção. Na véspera do dia em que foram conhecidos os 22 convocados finais o grande debate na Argentina era a inclusão do jovem Diego Armando Maradona. Poucos conheciam a opinião vincada do capitão. Menotti voltou a tentar pela última vez. Minutos antes de divulgar os nomes voltou a ligar ao lateral. Do outro lado da linha ouviu pela última vez um não. “Não posso César”.
Menotti divulgou a lista e de repente muitos se surpreenderam com a ausência de um jogador que ninguém tinha por lesionado. Carrascosa mudou-se para La Plata, para afastar-se do ruido mediático que a sua renúncia acabaria por provocar. O tema foi capa de jornais e esteve em debate largos dias. No entanto, quando a bola começou a rolar, foi deixado para segundo plano. O futebolista foi apenas uma vez ver, ao vivo, os colegas, no jogo contra a Itália que provocou que os argentinos fossem destinados a Rosario na segunda poule de classificação. Não voltou a sair de casa em dias de jogos. Nem mesmo quando Passarella, o homem que ficou com a sua braçadeira, levantou o troféu num Monumental completamente extasiado.

O exemplo argentino contra a ditadura

Os princípios de Carrascosa foram abafados à época pela imprensa argentina que conseguiu comprar mais quatro anos de estabilidade política graças ao triunfo no Mundial. Depois, quando a situação já era desesperada, o golpe da Guerra das Malvinas parecia servir de entrada para um novo ataque ao trono mundial que falhou redondamente em Espanha. Carrascosa também não viajou ao país vizinho. A sua decisão de abandonar tinha sido definitiva. O seu último jogo como profissional foi disputado em 1979, apenas um ano depois da sua renúncia pública à seleção. À medida que o tempo passava a sua decisão foi ganhando mais admiradores principalmente quando o lado mais escuro do regime saiu à luz do dia. “El Lobo”, como era conhecido, converteu-se num símbolo de resistência ao regime. Ironicamente Carrascosa sempre disse que tinha tantos problemas com a ditadura militar como com a forma como o futebol argentino era gerido como um todo – a corrupção, o doping e o poder crescente das Barras Bravas era evidente – e que o seu desencanto tinha tanto de político como de emocional.

O triunfo nos anos oitenta dos regimes democráticos na América do Sul procurou também as suas referências no desporto mas se o Chile tinha Caszely e o Brasil a Sócrates e a Democracia Corinthiana, parecia que na Argentina não havia um só herói que louvar. Carrascosa ocupou, silenciosamente, o lugar e converteu-se num ídolo emocional para os que queriam esquecer que todo um país se tinha alinhado com a ditadura para ser, finalmente, campeão mundial. Um prémio histórico mas que para o veterano lateral era um preço demasiado caro a pagar pela tranquilidade da sua própria consciência.

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