O impacto social do fenómeno manga na sociedade ocidental só começou realmente a sentir-se nos anos 90. Por essa altura a maioria dos jovens adolescentes saía para a rua com uma bola na mão e um nome na cabeça. Captain Tsubasa desafiava as leis da gravidade e despertava o Mundo para um fenómeno de mitologia futebolística criada por uma série de animação japonesa. Entre estrelas do futuro e anónimos eternos a imagem do herói nipónico tapa o profundo vazio audiovisual que o futebol ainda não conseguiu preencher.

Originalidade japonesa

Contamos pelos dedos das mãos os filmes, livros e séries dedicados ao mundo do futebol. Questões de direitos, sempre foi a desculpa mais recorrente, e no entanto em Captain Tsubasa o seu protagonista passa de jogar num clube local japonês a actuar nas ligas brasileira, espanhola. Os seus parceiros da aventuras aparecem na Alemanha, Itália e França e apesar de ninguém conhecer o FC Brancos, o FC Catalunya, FC Piedmonte ou Intalia, todos reconhecem facilmente as cores de São Paulo, Barcelona, Juventus ou Inter, protagonistas secundários da narrativa.

Muitas vezes esquecemos a prolifera filmografia que existe disponível sobre os mais variados desportos americanos, a enorme bibliografia animada europeia sobre automobilismo, onde destaca a eterna imagem de Michel Vaillant. E no entanto o futebol desperta pouco interesse e coragem para desafiar a tradição e passar à produção cultural de massas. Foi o Japão, como sucede tantas vezes, quem decidiu quebrar o tabu e romper a letargia. A Europa só conheceu verdadeiramente o impacto de Captain Tsubasa nos anos 90 mas o sucesso tremendo da série, primeiro na sua versão manga e depois na adaptação televisiva, remonta a 1981. Um projeto que se prolongou no tempo face à sua tremenda popularidade, ajudando a reforçar os ténues laços entre a cultura nipónica e o beautiful game. Quando entrou na Europa, como sucederia mais tarde com outras séries de grande impacto social, fê-lo em força e tornou-se num ícone juvenil de forma imediata. Os nomes dos seus heróis, traduzidos ou não, passaram a fazer parte do vocabulário de qualquer jogador de rua e termos como “Duo Dourado” ou “remate orientado” eram linguagem cifrada para os que bebiam cada gesto técnico inverosímil com a fome de futebol perdida no olhar.

Do Japão a Barcelona, um fenómeno mundial

Yoshi Takahashi era um adolescente japonês desconhecido apaixonado pela imagem de Pele e Johan Cruyff, nomes que à maioria dos nipónicos soava a chinês. Quando entrou um dia no gabinete directivo da mítica editorial Shueisha. Não sabemos como persuadiu os executivos mas o projeto foi aprovado e em 1981 saia para a rua a primeira edição das aventuras do pequeno Tsubasa Oozora, um prodígio de 10 anos que vive agarrado á sua bola na pequena localidade de Nankantsu. Com a sua equipa de colégio rodeia-se de outras jovens estrelas em potê
ncia para ganhar ano atrás ano os títulos juvenis do país. Até que dá o salto, fruto da sua amizade com um técnico brasileiro, Roberto Hongo, para a liga brasileira.

No Brasil a imagem de Tsubasa teve por isso um impacto prévio ao que sucederia mais tarde na Europa. As suas aventuras ao serviço do FC Brancos (São Paulo) contra o FC Domingos (Flamengo) tornaram-se parte da magia juvenil dos adeptos brasileiros. O sucesso mediático da série levou mais tarde o protagonista para a Europa, onde os primeiros episódios tinham acabado de chegar com o mesmo impacto. Naturalmente a diáspora dos principais protagonistas (Genzo Wakabayashi, Shingo Aoi, Shun Nita, Taro Mizaki) cobriu todo o espectro europeu e as suas distintas realidades futebolísticas mas em todos os casos episódios inteiros deliciavam o público juvenil com remates impossíveis, defesas e cortes improváveis no último segundo, pontapés de bicicleta que se eternizavam nos céus e saltos apoiados nos postes das balizas desafiando as leis da gravidade. O realismo fantástico da anime encontrou a dose certa para misturar-se com a própria complexidade humana que significa o futebol de alta competição. O resultado foi um produto juvenil que ganhou o direito a tornar-se num dos principais representantes audiovisuais da história do jogo.

Inspiração para gerações

Apesar dos episódios originais remontarem a uma época onde Diego Armando Maradona era ainda uma promessa por cumprir, gerações de jogadores cresceram e apaixonaram-se pelo jogo com Captain Tsubasa na cabeça. A célebre vaga de jogadores nipónicos dos anos 90, onde pontificavam Hidetoshi Nakata e Shinji Ono confessaram várias vezes a sua profunda gratidão à série e mesmo no espectro europeu os italianos Alessandro Del Piero e Francesco Totti ou o espanhol Fernando Torres publicamente reconheceram ser fãs da série.

Como sucede nestes produtos longevos de anime a produção de Tsubasa continua ativa. Entre novas versões escritas, videojogos para diversas plataformas e a continuação da anime audiovisual, a imagem de Tsubasa continua a estar intimamente ligada ao futebol japonês contemporâneo. Em constante evolução visual a série sabe também estar preparada a piscar o olho às novas gerações. Não é por acaso que  o mais improvável dos heróis futebolísticos continue agora a brilhar ao serviço de um Barcelona que no campo se parece cada vez mais à equipa de desenhos animados com que muitos cresceram. As fronteiras entre realidade e ficção podem muitas vezes ser bastante ténues.

4.170 / Por
  • Vitor Zenha

    Só faltou enunciar que por vezes a corrida de uma área à outra, demorava um episódio inteiro!!!
    De resto relembro-me de todas as passagens que enunciadas…

    Valia a pena acordar cedo ao Sábado de manhã…
    Abraço

  • Miguel Lourenço Pereira

    @Vitor,

    Sem dúvida, uma série tremenda para passar horas pela tarde a ensaiar os remates e lances impossíveis de repetir.

    um abraço