Qualquer um que siga a atualidade futebolística em páginas inglesas já se deparou várias vezes com a palavra “cap” associada aos jogos internacionais disputados pelos futebolistas de vários países. Qual é a origem da associação do termo boné, em inglês, com os jogos de seleções?

Fenómeno britânico

Cap.

Uma palavra que na linguagem quotidiana se resume a um boné, no mundo do futebol tem um significado metafórico muito mais profundo. A versão portuguesa fala de “internacionalizações”, jogos disputados por um jogador que representa o seu país. É uma expressão comum na linguagem futebolística do resto do Mundo, com os pequenos variantes linguísticos habituais.

Mas no universo britânico, apesar de se falar sempre em “international football”, para distinguir os jogos de seleções com os de clubes, a palavra “cap” repete-se constantemente. E muitos, naturalmente, perguntam-se porquê.

A resposta é relativamente simples e explica bem a forte relação que os britânicos têm com o cordão umbilical que os liga ás origens do jogo. Essa velha herança histórica de refundadores do futebol que se mistura bem com a já tradicionalmente conservadora mentalidade social britânica. De tal forma que a ninguém nunca se lhe ocorreu que o “cap” que originou o termo há muito que passou a fazer parte do folclore da história.

Uma questão logística

No final do século XIX, quando os jogos internacionais começaram a ser prática comum entre as quatro federações britânicas, o jogo ainda estava numa fase embrionária. Não havia as facilidades de hoje em dia em formar uma equipa nacional e muitas vezes os onzes eram escolhidos diretamente de um ou dois clubes. Da mesma forma, a indumentária de um jogo de futebol estava muito longe do modernismo contemporâneo. Ás habituais botas pesadas, militares quase, juntavam-se calções largos, sempre pelos joelhos, camisolas de tecido leve e eventualmente casacos.

O problema logístico da organização destes jogos passava também pela dificuldade em encontrar uma indumentária igual para todos os participantes. Ocasionalmente ora os calções ora as camisolas variavam dentro de uma mesma equipa. Para não confundir os espectadores – os jogadores conheciam-se relativamente bem – as federações nacionais decidiram oferecer um boné com as cores de cada nação sempre que eram convocados pelo seu país. Com esse boné – à época o jogo de cabeça ainda era uma raridade – garantia-se que havia um elemento de união entre todos os jogadores da mesma equipa e um sinal distintivo para o público nas bancadas.

A partir desse momento, a imprensa começou a baptizar as convocatórias nacionais como “caps/bonés”, que os jogadores levavam para casa no final de cada jogo. A proposta foi tornada pública por um dos mais célebres dirigentes do Corinthians, o símbolo derradeiro do amadorismo no futebol britânico, Lane Jackson a finais dos anos oitenta, mas já era prática comum desde o primeiro jogo oficial disputado entre escoceses e ingleses em 1872.

A simbologia no presente

Com a evolução do jogo e a estandardização dos equipamentos oficiais, os bonés desapareceram do terreno de jogo mas não a terminologia utilizada que se manteve no vocabulário britânico até aos nossos dias. Para perpetuar a memória desses primórdios, as principais federações das ilhas ainda oferecem aos jogadores bonés comemorativos quando alcançam um número simbólico de jogos internacionais. Um conceito que foi recentemente apropriado pela própria UEFA e as restantes federações do continente quando um futebolista disputa 100 jogos oficiais pelo seu país.

Atualmente o futebolista com mais “caps” da história do futebol internacional é o egípcio Ahmed Hassan, que disputou 178 jogos pela seleção dos Faraós. No caso do futebol britânico, Billy Wright, central fundamental da história do futebol inglês, tornou-se nos anos cinquenta no primeiro jogador a receber um boné comemorativo dos cem jogos pela seleção inglesa. A partir desse momento o termo “cap” ficou inevitavelmente associado à sua aura de capitão e estrela mundial. O principio de uma história que ainda perdura na mente dos adeptos insulares.

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