Em 1994 Jorge Valdano aterrou em Madrid para colocar um ponto final na era dourada do Dream Team de Cruyff. A sua ideia era recriar na capital espanhola a filosofia que mais tarde aplicaria com Florentino Perez, a dos Galácticos, os melhores do mundo em cada posição para recuperar o prestigio perdido do clube. O primeiro nome na sua lista chamava-se Eric Cantona. E o francês rejeitou trocar Old Trafford por ser o primeiro rei da Galáxia.

Madrid, uma cidade galáctica

Em 2000 Florentino Perez candidatou-se a presidente do Real Madrid. Ao seu lado, como diretor desportivo, a figura de Jorge Valdano era fundamental. O argentino era a alma do projeto desportivo, o homem que Perez ouvia sobre todos os assuntos que estavam relacionados com o futuro do Real Madrid. Os merengues tinham acabado de conquistar a sua segunda Champions League em três anos mas as finanças do clube estavam um caos e o plantel carecia de figuras emblemáticas como as que brilhavam noutros clubes europeus. Valdano e Perez entenderam que para projetar o clube para outra dimensão era necessário procurar contratar os melhores jogadores do mundo. Perez faria com que esses jogadores ajudassem a reequilibrar as contas do clube graças a uma agressiva política de marketing. Valdano, por outro lado, seria o responsável de transformar essa constelação de estrelas num plantel de sonho com vistas a emular o sonho de Santiago Bernabeu nos anos cinquenta.

Para Perez era a possibilidade de recuperar os dias de infância em que o pai o levava ao estádio de Chamartin a ver a constelação de estrelas que Bernabeu ia montando ano a ano com novas inclusões “galácticas”. Para Valdano era a possibilidade de ouro de por em prática uma ideia que defendeu apenas seis anos antes quando foi apresentado como treinador do Real Madrid depois de três brilhantes temporadas como treinador do Tenerife, onde foi responsável direto por dois títulos perdidos pelos merengues ás mãos da equipa que encantava os amantes do futebol, o Dream Team de Cruyff. Valdano olhava para a mistura de jogadores espanhóis e de estrangeiros como Romário, Stoichkov, Laudrup e Koeman – os melhores do mundo nas suas posições – com inveja. O seu objectivo era emular esse espirito em Madrid numa altura em que ninguém desconfiava que, meses depois, a Lei Bosman ia mudar para sempre o futebol. Em 2000 Perez ganhou essas eleições com a contratação de Figo debaixo do braço. O português foi o primeiro Galáctico oficial. Mas Eric Cantona esteve a ponto de inaugurar a galáxia.

Cantona, a primeira estrela do marketing moderno

Em 1994 o francês era a estrela mais emblemática do futebol mundial.

Futebolista maldito em França, esteve a ponto de abandonar precocemente os relvados mas graças á intervenção de Michel Platini e Gerard Houllier, selecionadores franceses e genuínos admiradores do génio maldito gaulês, Cantona redescobriu em Inglaterra a paixão pelo jogo. A sua contratação, em Fevereiro de 1992 pelo Leeds foi fundamental para que os homens de Elland Road conquistassem o último título da First Division. Meses depois uma discussão com Howard Wilkinson levou o “enfant terrible” até ás mãos de Alex Ferguson. Foi em Manchester que Cantona confirmou tudo aquilo que se suspeitava dele. O seu génio inspirador foi determinante para que os Red Devils conquistassem a primeira edição da Premier League da história. Em 1994 caminhavam arrogantemente para um segundo título consecutivo, sempre liderados em campo pelo génio de Cantona. A entrada em força da empresa norte-americana Nike no mercado do futebol ajudou a catapultar ainda mais a popularidade do jogador, a sua primeira bandeira mediática. Com Cantona começaram os célebres anúncios televisivos que mais tarde seriam história. Ele era o rei do marketing a meados dos anos noventa quando o futebol ainda não sabia muito bem que direção tomar. E Valdano, que já sabia em Abril que seria o próximo treinador do Real Madrid, rapidamente entendeu que era o jogador perfeito para liderar o seu projeto Galáctico em Madrid.

O treinador argentino tinha elaborado um relatório á direção do Real Madrid em que deixava claro que o clube tinha de procurar outro modelo que passava pela dispensa dos extra-comunitários que já contava em filas – o chileno Ivan Zamorano e o argentino Juan Esnaider – e apostar tudo num trio de ases que poderiam levar o clube a outro patamar. Valdano queria levar consigo de Tenerife um dos melhores médios centro do futebol mundial, o argentino Redondo. O negócio estava praticamente fechado. A ele caber-lhe-ia trazer o equilíbrio necessário a uma equipa eminentemente ofensiva que se apoiava numa defesa exclusivamente espanhola com Buyo na baliza e Quique Sanchez Flores, Mikel Lasa, Chendo, o polivalente Luis Enrique, Fernando Hierro e Manolo Sanchis na defesa. A partir da posição de Redondo vinham as novidades. O pivot da mudança seria Cantona.

Cantona, Laudrup, Redondo…a primeira galáxia abortada

O Real Madrid começou a realizar contatos sérios a finais de Abril. O clube abordou por um lado o jogador e por outro o Manchester United. Ferguson não estava pelos ajustes e rejeitou de imediato a primeira oferta do Real Madrid pelo jogador. Cantona, por outro lado, parecia pouco interessado em mudar-se até ter sido contacto com o que poderia ter sido o seu futuro treinador. Valdano falou pessoalmente com o futebolista para convencê-lo que ele seria em Madrid o centro de todo o jogo colectivo da equipa, um jogo ofensivo e onde o argentino procuraria replicar na figura de Eric a que Maradona tinha em Nápoles ou na Argentina. Foi prometido ao francês que o clube contrataria outro jogador de classe mundial para o ataque e que seria o futebolista mais bem pago do mundo. Durante semanas houve negociações entre ambas as partes e finalmente Cantona disse que sim. Pedia apenas que terminasse a temporada para sentar-se a falar cara a cara com Ferguson.

Chegou o mês de Maio e o Manchester United conseguiu a sua primeira Dobradinha em décadas com a conquista da FA Cup e da Premier League, pelo segundo ano consecutivo. Em Madrid pensavam que isso era uma boa notícia já que Cantona podia sair com o sentido de dever cumprido. Ao mesmo tempo, Valdano tinha logrado juntar um segundo Galáctico á sua lista. Com Redondo já fechado, o clube tinha assinado um acordo com Michael Laudrup. O génio dinamarquês tinha sido colocado de parte por Johan Cruyff no Barcelona – apostando no tridente Koeman-Stoichkov-Romário – sem explicações e estava profundamente magoado no orgulho. Tanto que se mostrava disposto a assinar com o eterno rival. Pep Guardiola, amigo pessoal de Laudrup, chorou convulsivamente num restaurante barcelonês quando descobriu, pelo seu agente – que era o mesmo do dinamarquês – que o negócio estava fechado.

Cantona, Laudrup e Redondo. Valdano parecia ter o seu trio de ases completo mas subitamente o francês voltou atrás com a palavra e comunicou ao Real Madrid que não tinha qualquer interesse em abandonar Manchester. O clube recebeu, ao mesmo tempo, um fax dos Red Devils que reforçava a posição inflexível de negociar o francês. Em poucos dias o sonho do argentino esbarrou contra a realidade. No final, o Real Madrid procurou uma alternativa mais económica, a do croata Davor Suker que brilhava no Sevilla depois de que também Roberto Baggio tivesse rejeitado uma oferta do Real Madrid. O problema de Suker é que Zamorano se rejeitava a aceitar qualquer oferta para sair do Real Madrid. Valdano disse-lhe diretamente que não contaria com ele e que corria o risco de ficar um ano inteiro sem jogar. O chileno respondeu-lhe que não se importava e que demonstraria a sua valia nos treinos. A situação chegou a tal extremo que Zamorano esteve largas semanas a treinar sozinho. A sua posição manteve-se inflexível e no final a direção merengue não avançou para a contratação de Suker – chegaria dois anos depois – na impossibilidade de garantir a saída de Zamorano.

O título de campeão que Cantona não quis ganhar

No final, Valdano não conseguiu cumprir o seu sonho mas isso não o impediu de demonstrar que o seu plano estava certo. Redondo e Laudrup foram absolutamente fundamentais durante a temporada que permitiu ao Real Madrid reconquistar o título de Liga, com o bónus de devolver exatamente um ano depois os 5-0 que o Barcelona lhes tinha aplicado em casa na temporada anterior. Nesse jogo Zamorano foi determinante como sucedeu durante toda a época. Tanto ele como Amavisca – á partida o jogador descartado que acabou por ocupar a posição que era para Cantona – tinham começado o ano sem estarem inscritos mas revelaram-se determinantes. No Verão seguinte o Real Madrid voltou á carga. Valdano tentou de novo a contratação de Cantona para esbarrar novamente com a rejeição do Manchester United. Ironicamente a agressão de Cantona a um adepto em Selhurst Park em Janeiro de 1995 levou o jogador a ser suspenso durante largos meses e o Manchester United colocou-o á venda. Houve ofertas nesse verão tanto do Inter como do próprio Real Madrid mas o futebolista negou-se a aceitar qualquer uma e permaneceu com figura máxima dos Red Devils em Old Trafford.

Nesse mesmo Verão Valdano voltou á carga e apontou baterias a um jovem brasileiro que parecia prometer muito, Ronaldo Nazário. Os problemas financeiros do Real Madrid abortaram qualquer negócio e poucos meses depois o próprio Valdano era despedido. Teria de esperar meia década para voltar a colocar em prática em Madrid o seu sonho de uma constelação de estrelas. Figo, Zidane, Ronaldo, Beckham, Owen…uma lista que podia ter começado anos antes com Laudrup, Cantona, Ronaldo…o que o destino não quis que sucedesse antes do tempo.

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