Revolucionou o futebol inglês e foi o rosto mediático que deu a conhecer a Premier League ao mundo. Eric Cantona foi polémico e marcante em partes iguais e um dos nomes fundamentais do futebol moderno em Inglaterra. No entanto, a sua chegada às ilhas británicas fez-se pela porta pequena. Em Sheffield ainda hoje se perguntam como deixaram escapar o génio único de“Le Roi”.  Uma história que é bastante diferente do que a mitologia guardou.

 O enfant terrible maldito de França

França nunca mais. Cantona tinha clara a ideia de que na liga gaulesa não ia voltar a jogar. Tinha passado quase uma década desde a sua estreia precoce e o génio incombustível estava cansado do estilo dos dirigentes, da atitude dos directores federativos e do ambiente nos balneários. Eric tinha crescido em Marselha, vestido as cores do Olympique em duas ocasiões distintas – era parte do plantel que foi vice-campeão da Europa em 1991 – e também jogado pelo Martigues, Bordeaux, Montpellier, Auxerre e Nimes. Muitos já o tinham como o herdeiro natural de Michel Platini dado ao seu talento inato e nas categorias juvenis do futebol francês demonstrou que as perspectivas de futuro eram as melhores. A passagem à seleção principal dos “Bleus” foi mais turbulenta especialmente porque coincidiu com o pior momento da história recente do país.

Ausentes do Euro 1988 e do Mundial de 1990, os franceses olhavam cada vez mais com desconfiança para os sucessores da “Age D´Or” onde se encontravam Stopyra, Papin, Ginola e o próprio Cantona. A paupérrima prestação no Euro 92 – o único torneio internacional em que o jogador participou – reforçou essa suspeita. Um ano e meio depois a Bulgária aplicava o “coup de grace” a essa geração. Para Cantona – e não só – a França tinha-se tornado um inferno. No seu caso, mais do que as performances desportivas com a seleção, o problema estava no seu carácter turbulento que o tinha levado a confrontar abertamente treinadores como Goethels, Ivic, Beckenbauer, dirigentes como Bernard Tapie e Claude Bez ou os próprios homens fortes da federação gaulesa. Suspenso em 1991 por atirar uma bola a um árbitro, Cantona decidiu retirar-se do jogo depois de chamar “idiota” a cada um dos membros da FFF que o suspendeu. Parecia o ponto final na carreira de um “enfant terrible” de talento único mas sem títulos ou exibições em campo que o confirmassem para a posteridade. Podia ter sido o fim. Mas não foi.

A influência decisiva de Michel Platini e Gerard Houllier, o staff técnico dos “Bleus” à época, levou Eric a dar a si mesmo uma última oportunidade. Isso sim, seria longe do “hexágono”. Do outro lado da Mancha os contactos sucederam-se e o Sheffield Wednesday, um histórico em horas baixas, interessou-se pelo jogador. O Marselha, detentor do passe de Cantona, pediu um milhão de libras para libertar o jogador. O clube inglês torceu o nariz à operação mas uma chamada de Platini ao treinador da equipa, o homem que tinha batido, quase uma década antes, o recorde de transferencia do país, Trevor Francis, mudou o curso da história. Mas não para os “Owls”.

 A farsa de Sheffield que revolucionou o futebol inglês

Eric Cantona chegou a Sheffield nos primeiros dias de Janeiro de 1992.

Trevor Francis exigia ver o jogador no habitat britânico para medir a sua real valia. Conhecia-o de nome – quem não conhecia de nome Cantona, para o bem e para o mal – mas queria vê-lo em campo, a interagir com os colegas e, sobretudo, com os rivais, para saber se o avultado investimento podia fazer sentido. Eric, nunca um homem capaz de pensar pouco de si mesmo, a principio hesitou à ideia de fazer um “trial” depois de dez anos de carreira e vários momentos mágicos ás costas. Mas era uma situação de desespero e nesses momentos tudo parece valer. Acedeu e apresentou-se em Hillsborough para colocar-se às ordens de Francis.

Durante uma semana o antigo internacional inglês – herói do primeiro titulo europeu do Nottingham Forest – e o génio gaulês observaram-se mutuamente nas sessões de treino.  Ambos sabiam como tudo ia terminar mas representaram os seus papeis. Não havia, desde o primeiro momento, o menor interesse de Francis em contratar Cantona. Nos anos seguintes o treinador – e o Sheffield Wednesday por extensão – foram acusados pela imprensa e pelos adeptos, em geral, de terem perdido uma oportunidade histórica nessa semana. Mas tanto um como outro sabiam que tudo não era mais do que um golpe de teatro, desses golpes que fariam de Eric uma celebridade.

Amigo pessoal de Platini, o treinador do Sheffield aceitou receber Cantona nos treinos do Sheffield como um favor pessoal como confessou anos mais tarde em entrevista. Pária no resto da Europa, Platini e Houllier queriam que Cantona seguisse com a sua carreira em Inglaterra mas era preciso atrair clubes interessados. Graham Souness, treinador do Liverpool, tinha recusado abrir Anfield ao francés quando Platini lhe ligou. Então o selecionador gaulês, atual presidente da UEFA, voltou a pegar no telefone e conseguiu um sim de Francis. Cantona treinaria uma semana, o suficiente para atrair a atenção mediática necessária, e depois seguiria o seu caminho. O Sheffield não tinha nem o dinheiro – tinha acabado de ser promovido e a esmagadora maioria dos jogadores ganhavam ainda o salário habitual da Second Division – nem a vaga no plantel necessária para o manter. Mas seria fundamental em atrair outros clubes. E assim foi.

Cantona treinou durante toda a semana e disputou apenas um jogo com a camisola do Wednesday. Um jogo que nem sequer se disputou em Hillsborough e que entraria para a posteridade como o primeiro encontro disputado por Eric com um clube inglês.

 Um hat-trick indoor com a camisola do Sheffield Wednesday

O péssimo tempo invernal que se abatia por Inglaterra tinha impedido o Sheffield de treinar ou jogar no seu estádio e durante a estadia de Cantona todas as sessões foram dentro de um complexo indoor com relva artificial que o clube tinha á sua disposição. Foi aí, no Sheffield Arena, que Cantona foi colocado à prova pela primeira vez em Inglaterra. Nas bancadas quase todos os clubes da First Division estavam representados através dos seus olheiros. O truque tinha funcionado. O jogo terminou com um 4-3 a favor do Sheffield contra os americanos do Baltimore Blasts. Cantona apontou um hat-trick e mostrou estar em plena forma apesar de levar semanas sem jogar. Foi tudo o que a sua imagem necessitava.

Dias depois desse jogo, Cantona abordou Travis e contou-lhe de uma oferta realizada pelo Leeds United, então treinado por Howard Wilkinson, demonstrando interesse em contrata-lo. Para a imprensa, a história oficial era de que Francis tinha dito ao francês que necessitava vê-lo jogar em relva e que tinha de ficar uma semana mais em testes, agora que o tempo parecia melhorar. Este não aceitou o ultimato e mudou-se para Leeds. A verdade era bem distinta e poucos sabiam que não passava de uma estratégia para apressar os clubes interessados a apresentar as suas propostas. O negócio com os “Whites” oficializou-se a meados de Janeiro e Cantona começou a treinar no relvado de Elland Road com aqueles que seriam os seus companheiros nos meses seguintes. A sua chegada ao clube foi determinante na sua cavalgada rumo ao titulo. O Leeds, um histórico do futebol inglês que tinha passado a maior parte da última década nos escalões inferiores, logrou num sprint final memorável um titulo com quem ninguém contava. Os golos e assistências de Cantona foram determinantes numa equipa que tinha ainda Gordon Strachan, Gary McAllister ou Lee Chapman. Um grupo sólido mas que contava essencialmente com o génio do francês para fazer a diferença. Pouco mais de cinco meses depois de aterrar em Inglaterra, Cantona levantava o seu primeiro titulo de campeão. Não seria o último.

“1966, o ano mais importante para o futebol inglês. Nasceu Cantona”

 

A principio da seguinte temporada, depois de entrar em confronto – uma vez mais – com o seu treinador de então, Cantona assinou pelo Manchester United no que foi, provavelmente, o negócio mais importante da história do futebol inglês. Em Old Trafford o francês atingiu a condição de divindade e ajudou os Red Devils a acabar com um hiato de mais de 25 anos sem títulos revolucionando para sempre a instituição. O seu primeiro ano em Manchester coincidiu também com o arranque da Premier League, o novo formato mediático da competição. Um formato que rapidamente se apropriou do carisma e imagem do internacional francês, mal amado no seu país e adorado nas ilhas a tal ponto que em 1996, no ano do Europeu organizado em Inglaterra, a empresa norte-americana Nike se atreveu a lançar uma campanha publicitária que dizia apenas, com a bandeira inglesa de fundo, que “1966 foi um grande ano para o futebol inglês. O ano em que nasceu Cantona”.

Toda essa saga arrancou nessa semana em Sheffield, nesse golpe de teatro preparado com antecipação e que passou para a memoria colectiva como uma oportunidade perdida para um clube que serviu apenas de escaparate para que Cantona pudesse transformar-se naquilo que muitos sabiam que podia ser, um dos maiores jogadores da história do futebol. Afinal a história teve um final feliz. Menos para os adeptos dos “Owls”. Mas isso, como diría Billy Wilder, é outra história.

2.121 / Por