Canon Yaounde, quando África teve a melhor equipa do Mundo

Em 1980 o Nottingham Forest tornou-se bicampeão europeu e o Nacinal de Montevideo o campeão sul-americano. Duas equipas míticas da história do futebol. No entanto, talvez nenhuma delas fosse a melhor formação do planeta futebol à época. No coração de África, a saga do Canon Yaounde ganhou contornos fascinantes. A bandeira dos Camarões foi provavelmente a melhor equipa da sua geração.

 A hora de África

Quando o TP Mazembe eliminou o Internacional de Porto-Alegre brasileiro nas meias-finais do Mundial de Clubes em 2010, houve quem falasse no início de uma nova era. Finalmente os clubes africanos podiam compensar os anos perdidos num modelo de Taça Intercontinental que os deixava de lado como parias do futebol. Vários equipas históricas do “Continente Negro” nunca puderam medir o seu real valor contra europeus e sul-americanos num torneio oficial. Quão diferente podia ter sido a história do futebol e a percepção ocidental de como o jogo se desenvolvia em África se esses encontros se tivessem disputado é algo que nunca saberemos. Mas podemos imaginar. As grandes hegemonias de equipas europeias e sul-americanas permitem analisar tendências. Mas os africanos estão habitualmente excluídos desta equação. Um erro imperdoável. Durante alguns períodos da história do futebol, ainda que curtos, os clubes africanos poderiam perfeitamente ter-se batido em duelo com os eixos centrais da evolução do jogo dos dois lados do Atlântico. Alguns deles, seguramente, teriam ganho os seus duelos. Um deles seria o Canon Yaoundé.

A equipa dos Camarões marcou um antes e um depois na história do futebol africano.

A sua hegemonia continental, na viragem da década de oitenta, colocou um ponto final na época dourada dos clubes da “África Negra”. Até então os grandes campeões de África vinham habitualmente da costa dourada, entre o Gana e o sul do continente. Quando o sol se pôs no curto domínio imperial dos camaroneses, os clubes da África a norte dos desertos ocupou o seu lugar durante um largo período. Enquanto as seleções nacionais dos países meridionais africanos ganhava proeminência, os seus clubes perdiam protagonismo. E a aura mítica do Canon Yaounde tornava-se cada vez maior. E muitos juravam a pés juntos que naquele Verão de 1981 não havia nenhum clube no Mundo capaz de os bater. Nem a equipa de Clough. Nem a de Mujica.

O feiticeiro Nkono

Apesar de ser um dos clubes mais antigos dos Camarões, o primeiro título de campeão do Canon Yaounde chegou apenas em 1970, quarenta anos depois da sua fundação. Duas Taças dos Camarões eram um espólio pequeno para um clube com tantos adeptos, um símbolo da capital do país e o mais reputado rival do proeminente Oryx Douala. Mas os anos setenta trouxeram um novo vento de mudança e de prosperidade para os “Kpa-Kum”.

Entre 1974 e 1986, o clube venceu sete campeonatos nacionais tornando-se na equipa mais bem sucedida da história do país. Passaram trinta anos em que o clube venceu, ao menos, um título por temporada. Mas o reconhecimento chegou das competições continentais. Em 1971 a equipa conquistou o seu primeiro troféu africano, batendo o mítico Asante Kotoko ganês numa final disputada em três apaixonantes jogos. Quando Emanuelle Etéme marcou o que seria o único golo do encontro, começaram os protestos dos seus rivais do Gana. Foi um golo (aparentemente mal anulado) ao Asante quando faltavam dez minutos para acabar o jogo que acabou com a final. Em protesto os ganeses abandonaram o estádio e a vitória do Canon foi oficializada. Pela segunda vez o troféu ia para os Camarões numa década. Foi o primeiro passo. Entre 1977 e 1979 os grandes momentos do clube foram vividos na segunda prova continental africana, a Taça das Taças do continente. Finalista vencido na primeira tentativa, o Canon Yaoundé ganhou a prova em 1979 contra os nigerianos do Enugu Rangers. Foi um ano mítico para o futebol camaronês com o US Douala a vencer a Taça dos Campeões nesse mesmo ano. E o prelúdio do que se viveria na temporada seguinte.

Liderados pelo tremendo carisma de Thomas Nkono, os camaroneses marcaram uma era com uma equipa ofensiva, bem organizada tacticamente e com jogadores que marcaram uma era de ouro do futebol africano. Vários deles estavam, dois anos depois, a conquistar o coração do mundo em Espanha com a sua seleção. Nkono – talvez o melhor guarda-redes africano da história – era um muro intransponível. Dagoubert Moungam, Emmanuel Kundé, Ibrahim Audou, Jean-Daniel Eboué, Jean Paul Akono formavam a sua particular guarda-pretoriana. A classe pura pertencia ao capitão Theophile Abega. Os golos tinham a assinatura de Jean-Manga Onguene. E a magia, desde o banco de suplentes, do veterano internacional camaronês Eboa Laurent. Uma combinação letal que deixou pelo caminho todo aquele que se lhe opusesse. O Canon era praticamente uma equipa invencivel. Os melhores do Mundo.

Heróis do Espanha 82

Em 1982 o mundo conheceu finalmente a magia do futebol dos Camarões.

O país tinha dominado o futebol africano nos anos anteriores, tanto a nível de clubes como de seleções. Mas poucas noticias desses feitos chegavam ao “Velho Continente”. Por isso mesmo muitos se surpreenderam com a espantosa prestação da equipa dos “Leões Indomáveis” no Mundial de 1982. Não foi só o facto dos africanos terem estado a um golo de se apurarem para a segunda ronda. Foi a sua elevada cultura táctica, a impecável organização defensiva que concedeu apenas um golo em três jogos. E a classe dos seus jogadores. Para o Canon foi a confirmação da ideia de que a equipa podia medir-se com os grandes. Mas o torneio significou também o fim dessa formação mítica. O lider espiritual do grupo, Nkono, ficou em Espanha onde deu inicio a uma bem sucedida carreira ao serviço do Espanyol. Sem o seu particular feiticeiro dos postes, a magia do Canon foi-se perdendo nas sucessivas edições da Taça dos Campeões africanos. Nove anos depois do Mundial, o clube venceu o seu último campeonato de liga do século. A velha e gloriosa geração da viragem de década despedia-se em glória. Teriam de passar mais de dez anos para o clube voltar a levantar um troféu.

A mitologia do futebol africano tinha deixado de ser um mito. As grandes exibições das seleções africanas nos Mundiais que se seguiram ao Espanha 82 abriram os olhos ao Mundo. Os grandes clubes europeus começaram a procurar no mercado africano jogadores de talento. A finais dos anos noventa o futebolista de origem africana estava mais na moda do que nunca. Tinham passado quase vinte anos da gesta memorável do Canon Youndé. Demasiado tempo para o grande público se lembrar que houve uma altura em que a melhor equipa da Europa e a melhor equipa da América do Sul talvez não tivessem sido a melhor equipa do Mundo. Essa equipa, provavelmente, pela primeira e talvez não a única vez, estava em África. No coração de um continente à espera de ser descoberto.

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