A história do futebol português pode resumir-se pelas etapas das suas grandes figuras individuais. Se entre jogadores é a linha tradicional evoca a Peyroteo, Eusébio e Cristiano Ronaldo como figuras máximas, no caso dos treinadores não existe discussão quando se fala do pódio histórico onde José Maria Pedroto e José Mourinho acompanham a um pioneiro absoluto e figura fundamental do jogo em Portugal, o inimitável Cândido de Oliveira.

A mais complexa personalidade do futebol português

Foi tudo o que alguém podia ser numa só vida. Jornalista, jogador, treinador, espia, funcionário público, resistente político e, sobretudo, uma figura visionária em todas as áreas onde se moveu. Um humanista do futebol que foi fundamental para transformar todas as facetas do futebol em português, tanto em campo como fora de elas, pagando igualmente o preço de ser uma figura polémica, discordante e de uma moralidade acima de qualquer discussão. Podia ter morrido na prisão do Tarrafal mas acabou por despedir-se do mundo a fazer aquilo que mais desfrutava, ver futebol da mais alta qualidade, como enviado especial ao Mundial de 1958 na Suécia. Não há futebol em Portugal na primeira metade do século XX sem Cândido de Oliveira. Não haveria futebol, tal como o conhecemos, na segunda década sem ele também. Essa é a genuína dimensão da sua relevância em todos os sentidos possíveis.

Não só conseguiu passar pelos três grandes clubes deixando uma impressão excelente nos três casos como foi igualmente seleccionador nacional em diferentes ocasiões e, igualmente, o primeiro capitão num jogo oficial da equipa das Quinas de sempre. A história corria desde cedo nas suas veias.

A saga de um mestre que se fez grande na Casa Pia

Alentejano de alma e coração, Cândido nasceu em Fronteira, a 24 de Setembro de 1896 mas passou a juventude na Casa Pia de Lisboa, onde aprendeu os valores desportivos que cultivou ao largo de toda a sua vida. A sua chegada ao instituto casapiano, já orfão, com apenas nove anos de idade, coincidiu com a emergência definitiva do futebol como grande modalidade colectiva a nível nacional, ao tempo que o regime popularizava o ciclismo e a ginástica como actividades principais.

A sua paixão pelo futebol foi imediata e acompanhou-o toda a vida apesar de que dominava igualmente outras modalidades desportivas com grande solvência. Fez parte da primeira geração de grandes atletas lusos multidisciplinares e da história da fundação dos grandes clubes da capital e da sua afirmação. Em 1914 assinou pelo Benfica, clube onde ficou até 1920, passando grande parte da sua adolescência ao lado de figuras iminentes como Cosme Damião e Artur José Pereira, o seu grande ídolo. Com a equipa encarnada fez-se popular como centrocampista mas um certo distanciamento com a gestão do clube encarnado levou-o a liderar um movimento de vários jogadores de distintos clubes lisboetas para fundar um clube associado directamente à instituição que o formou. Em 1920 nascia assim o Casa Pia A.C., clube que desde o primeiro dia capitaneou e liderou, de tal forma que no ano seguinte, quando Portugal viajou a Madrid para disputar o seu primeiro jogo internacional havia três jogadores casapianos entre os titulares.

Cândido, inevitavelmente, não só era um deles como levava a braçadeira de capitão.  Os “Gansos”, como eram conhecidos, transformaram-se na grande sensação do futebol lisboeta durante os primeiros anos da década de vinte. Tinha 26 anos e era a maior referência desportiva em Portugal.

Pax, o espião que quase morreu no Tarrafal

Funcionário dos correios, Cândido de Oliveira desde cedo decidiu transferir a sua paixão pelo jogo do campo para fora dele, começando a assinar várias crónicas e textos críticos publicados em distintos jornais durante os anos vinte e trinta até começar a publicar livros sobre o estudo do jogo e da sua importância em Portugal. Depois de abandonar os terrenos de jogos, aceitou levar o comando da selecção lusa que disputava em 1928 os Jogos Olímpicos em Amesterdão, deixando uma excelente imagem que abriu as suas portas a uma carreira nos bancos. Após essa passagem treina ainda Casa Pia e Belenenses antes de aterrar no Sporting onde vive os seus maiores anos como técnico, orientando uma equipa onde já pontificavam alguns dos célebres “Violinos”. Com os leões vence dois títulos de campeão nacional na sequência de hegemonia leonina no futebol português dessa época, deixando igualmente as sementes que seriam colhidas por vários sucessores espirituais como Fernando Vaz. No entanto, os seus anos de consagração chegam depois dos meses mais duros da sua vida.

Democrata convicto, já nos anos vinte Cândido era um militante político aberto e a sua opinião ouvida e conhecida dentro do seu circulo e todos sabiam do seu distanciamento com o regime que resultou do golpe militar de Maio de 1928. A sua anglofonia, alimentada por várias viagens a Inglaterra onde entrou em contacto com o futebol local e se empapou de conhecimento, serviu como porta de entrada para o seu difícil trabalho como espião aliado durante os anos da II Guerra Mundial, com o nome de código “Pax”,  onde Portugal se mantinha neutral o que transformava Lisboa numa zona cinzenta onde alemães e ingleses lutavam surdamente. Funcionário público e portanto fortemente vigiado pela polícia política acabou por ser apanhado e detido numa das suas missões de correspondência secreta em 1942 enviado ao Tarrafal para morrer. Esse poderia perfeitamente ter sido o seu destino – foi gravemente torturado durante meses – se os avanços favoráveis aos Aliados e a pressão das autoridades inglesas sobre o regime de Salazar não lhe tivessem dado uma segunda oportunidade.

Livre, mas sempre vigiado, voltou a Lisboa já com a guerra no bolso dos exércitos Aliados e decidiu, juntamente com os amigos Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo, abrir um jornal de enfoque desportivo, seguindo a escola francesa, para dar um novo enfoque à cultura desportiva nacional. Das suas mãos nascia assim A Bola, jornal que dirigiu e para o qual escreveu até ao último dia da sua vida e que se transformou na grande referência jornalística da sua geração.

Morrer em serviço, a moralidade segundo Cândido de Oliveira

Já reconhecido como jogador, treinador e jornalista, Cândido converteu-se também num dos mais reputados analistas e estudiosos do jogo, lançando as bases de discussões tácticas e de gestão de competições que podiam ter avançado o jogo uma década caso tivessem sido tomadas em conta pelas autoridades. No entanto, o seu passado jogava contra ele e raramente os seus conselhos e expectativas encontravam eco positivo. Talvez por isso tenha rumado em 1950 ao Brasil para assumir o comando do Flamengo. Foi aí que tomou contacto directo com uma nova realidade – ao mesmo tempo que vários treinadores húngaros, entre os quais Bela Guttman, e checos estavam a levar importantes inovações tácticas para o país – e regressou a Portugal mais convicto do que nunca na necessidade de trabalhar as equipas a nível táctico. Num país onde o amadorismo era ainda indisfarçável, onde os jogadores raramente treinavam na máxima exigência requerida para atletas de alta competição e onde os conceitos tácticos básicos do WM ainda primavam, as suas ideias eram não só inovadoras como também chocavam com um status-quo que ninguém estava interessado em alterar.

Só depois da sua morte, quando Otto Gloria e Bella Guttman, dois defensores da mesma metodologia, conseguiram colocá-las em prática no Benfica, é que o jogo em Portugal deu um considerável avanço. Cândido já não estava cá para ver. Na viagem á Suécia, para cobrir o Mundial de futebol que iria confirmar as suas suspeitas e consagrar um novo modelo de treino e jogo, adoeceu e ainda contra conselho médico abandonou o repouso para continuar com o seu trabalho como correspondente da Bola, acabando vitima de uma saúde debilitada. Faleceu a 23 de Junho de 1958, na véspera das meias finais do torneio.

Deixou um país com um futebol terceiro mundista mas que na década seguinte se transformaria, em parte graças ás suas ideias, numa potência por direito próprio. Não viveu para ver o seu sonho consagrado mas sem ele Portugal hoje continuaria a ser talvez um país absolutamente periférico na história do desporto que Cândido de Oliveira mais amou.

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