Canadá, o gigante que só acordou uma vez

Em 1986 um dos maiores países do Mundo quebrou a sua longa história de desencontros com o beautiful game. A viagem do Canadá ao Mundial do México fechou um ciclo histórico dentro do futebol norte-americano. A experiência não voltou a repetir-se mas, por um verão, os amantes do futebol souberam que a bola também rola no longínquo e verde horizonte canadiano.

O peso da revolta cultural contra os ingleses

Não deixa de ser curioso que os ingleses, os que reinventaram o jogo para o Mundo desfrutar, tenham tido tanta dificuldade em transformá-lo no desporto favorito das suas principais colónias. Nem a Índia, nem a Austrália nem sequer o Canadá, partes fundamentais desse Rule Britania vigente quando o jogo saltou das escolas públicas para as ruas, consideram ainda hoje o beautiful game como o seu desporto de eleição. No caso australiano o passar dos anos tem invertido a tendência mas apenas porque as imensas comunidade de emigrantes latinos e eslavos promoveram uma importante mudança de fundo na mentalidade local. Na Índia e no Canadá, estados imensamente vastos e distintos, o jogo nunca penetrou na alma dos adeptos. Há quem diga que é um processo de rejeição da imposição cultural dos ingleses e é bem possível que assim seja tal como sucedeu na Irlanda secessionista na primeira metade do século XX, nos próprios Estados Unidos e até na África do Sul. Uma forma de responder negativamente às principais armas culturais dos ocupantes, particularmente porque a expansão desportivo se fez através dos desportos das elites e não da sua esfera mais popular e comercial como se confirmou pelo triunfo do hockey no gelo no Canada e no cricket na Índia, reforçando também essa predilecção de ambos estados por desportos distintos do beautiful game. Mas se a Índia é ainda hoje um dos grandes ausentes históricos dos Mundiais de futebol – depois de ter abandonado à última da hora a possibilidade de participar na edição de 1950 – no Canadá o futebol já teve o seu momento de glória. Curto, efémero, datado até, mas de glória instantânea. No Verão de 1986, contra todos os prognósticos, os adeptos de futebol espalhados em todo o Mundo tiveram a possibilidade de ver pela primeira vez na elite mundial uma seleção com Canadá escrito no peito. Literalmente.

A gesta de um gigante que acordou rumo a um Mundial

Depois da FIFA ter retirado o Mundial de 1986 à Colômbia e entregue o mesmo ao México ficou aberta uma vaga habitualmente ocupada pelos mexicanos na qualificação para a competição. Era uma altura em que o torneio de finalistas da CONCACAF dava, efetivamente, o passaporte para o Mundial. Os canadianos arrancaram a fase de qualificação seguramente pensando em todos os cenários menos na vitória. O jogo estava profundamente atrasado no país. Ao contrario dos Estados Unidos que tinham sofrido um boom com a NASL durante a década de setenta, os canadianos viviam ainda na idade da pedra em termos de organização. Salvo por duas franchises que tinham participado no campeonato americano, os canadianos não tinham sequer liga própria profissional. No entanto, a nível universitário o cenário estava a mudar progressivamente e em 1984, contra todas as expectativas, o Canadá conseguiu qualificar-se na fase de grupos do torneio de futebol nas Olimpiadas de Los Angeles batendo os africanos dos Camarões. Nos quartos-de-final do torneio a equipa mediu-se contra os super-favoritos do Brasil e aguentou estoicamente até às grandes penalidades antes de declarar-se vencido. O mundo tomou nota mas catalogou o evento como uma mera anedota olímpica.

Muitos desses jogadores, no entanto, foram recrutados para representar o país a nível sénior na qualificação para a Gold Cup que iniciava o seu percurso no ano seguinte. Muitos dos futebolistas tinham aproveitado a popularidade da exibição da seleção olímpica para assinar por equipas norte-americanos e europeias como Colin Miller, a principal figura da equipa que jogava no Glasgow Rangers à época. Ironicamente havia também alguns jogadores locais que passavam a maior parte da temporada disputando torneios de futebol indoor. Era uma forma pouco profissional de preparar o assalto a um lugar no próximo Campeonato do Mundo da FIFA mas a sorte estava do seu lado. A desistência da Jamaica evitou que os canadenses tivessem de disputar a fase prévia à Gold Cup entrando diretamente na ronda de grupos da competição. Aí a equipa superou o Haiti e a Guatemala com duas vitórias qualificando-se para a fase final, um grupo de três equipas onde todos jogavam contra todos. Frente a frente os norte-americanos iriam ter as seleções das Honduras e da Costa Rica. Os primeiros tinham estado no Espanha 82 e os segundos marcariam presença no Itália 90 mas esta era a ocasião de ouro dos canadianos. Uma vitória por 2-1 no jogo decisivo contra os hondurenhos fechou as contas do grupo. Contra todas as expectativas o Canadá estava entre os finalistas do México 86.

A grande surpresa do México 86

Poucos davam algo por uma equipa que era praticamente desconhecida do mundo. Mais ainda quando o sorteio os colocou no mesmo grupo de húngaros, soviéticos e franceses. Os dois últimos eram claros favoritos a vencer o torneio e a seleção centro-europeia vivia a sua última idade de ouro. Não havia no Canadá grandes expectativas. Sair com a cabeça alta era o único objectivo possível. Em Maio a expedição canadiana partiu para o México com uma série de jogadores que jamais teriam imaginado que estariam nesta situação. A estreia no torneio ficou marcada para a cidade de León contra a França, vigente campeã da Europa e máxima favorita a levantar o título no México. Havia quem esperasse uma goleada similar à aplicada pelos húngaros a El Salvador, quatro anos antes, que ainda hoje é a maior na história dos Mundiais (10-1). Apanharam uma surpresa.

O conjunto norte-americano, plenamente consciente das suas limitações, organizou-se defensivamente de forma a conceder poucas oportunidades aos virtuosos gauleses que, sem espaços, sofreram para criar perigo. O golo solitário de Yannick Stopyra a onze minutos do fim impediu uma surpresa maior mas deixou também o aviso. O Canadá não vinha para fazer turismo ao México. Os húngaros, humilhados pelos soviéticos no primeiro jogo do grupo, vinham agora prontos a fazer sangue com a inexperiência canadiana mas uma vez mais a defesa dos encarnados provou ser mais forte do previsto e o conjunto europeu venceu apenas por 2-0. O Canadá podia estar oficialmente eliminado com dez dias de competição mas todos eram unânimes em classificar a sua participação como um sucesso. A terceira derrota, contra a União Soviética, era esperada e em nada mudou a percepção geral. Os canadianos voltavam para casa mas longe de sofrer a humilhação que muitos previam.

A história de uma falsa largada

Houve até quem pensasse que este podia ser o ponto de partida para uma reformulação definitiva da mentalidade dos canadianos face ao beautiful game. Não foi assim. Vinte e oito anos depois o Canadá continua sem ser capaz de aproximar-se sequer de voltar a repetir o feito desse verão mexicano. O país continua sem uma liga profissional à altura e os seus melhores clubes, Vancouver e Toronto, disputam campeonatos dentro da esfera dos Estados Unidos – como aliás sucede noutros desportos – enquanto que a seleção nacional defina no lugar 122 do ranking FIFA. A vitória da Gold Cup de 2001, o único ponto alto da história do futebol do país posterior à aventura mexicana, provou ser mais um falso alarme. O futebol e o Canadá continuam desencontrados mas os sinais do passado deixam entender que algum dia os caminhos de ambos acabarão por voltar-se a cruzar.

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