Durante décadas vendeu-se a história de que a Académica de Coimbra foi a primeira equipa a vencer a Taça de Portugal. Não é verdade. A popular competição a eliminar arrancou quinze anos antes dessa tarde futebolística que coroou os estudantes sob o nome de Campeonato de Portugal. O verdadeiro início das competições organizadas de futebol em Portugal.

Campeonato de Portugal, o torneio herdeiro da FA Cup

A 26 de Junho, no estádio das Salésias, uma jovem formação de estudantes de Coimbra defrontou o SL Benfica na final da primeira edição da Taça de Portugal. Venceram, contra todas as expectativas, por 4-3. Para a posteridade ficaram com o título de primeiros triunfadores da “Festa da Taça”, como popular e carinhosamente se habitualmente referem à competição. Mas ao contrário da lenda, os “estudantes” estão longe de ser a primeira equipa a vencer a prova a eliminar do calendário profissional português. Antes da formação de Coimbra já sete clubes diferentes tinham levado para casa o troféu. A diferença é que, então, a taça se chamava Campeonato de Portugal. O nome mudou, a competição permaneceu a mesma.

A mutação do Campeonato de Portugal para Taça de Portugal é idêntico ao que se operou com a Taça dos Campeões Europeus e a Champions League ou entre a Taça UEFA e a Liga Europa. Houve mudança na nomenclatura mas não na estrutura ou na essência. Tal como a mais antiga competição de clubes do mundo, a FA Cup, em Portugal também a mais antiga competição entre clubes se disputou em formato de eliminatórias e não de liga.

Quando o Campeonato de Portugal deu lugar à Taça de Portugal, em 1938, já existia um campeonato com fase regular mas que excluía a maioria das federações distritais do país. Era um torneio fechado, exclusivo e distante da ideia de universalidade que o Campeonato/Taça de Portugal sempre defenderam. Alguns cronistas e historiadores associam a primeira competição à ante-sala do que é hoje a Primeira Liga. Não é. O Campeonato de Portugal proclamou os primeiros campeões portugueses nos anos vinte mas fê-lo da mesma forma que a Taça de Portugal continuaria a fazer até aos dias de hoje.

A taça dos modestos num país centralista

Em 1921 surgiu finalmente a ideia de criar uma competição nacional de clubes.

Existiam já alguns torneios distritais – principalmente em Lisboa, Porto e Portalegre – e jogos entre federações distritais. Mas não havia uma competição de cariz nacional. Num país onde o futebol era já um fenómeno de popularidade mas onde não havia infra-estruturas, profissionalismo e capacidade de organização, era complicado dar forma a um torneio destas caracteristicas que emulasse a FA Cup ou a Copa del Rey. Talvez por isso a primeira edição tivesse sido apenas disputada pelos clubes campeões dos distritos de Lisboa e Porto, Sporting e FC Porto. Era a grande rivalidade desportiva da década de vinte, a das duas equipas que dominavam com maior autoridade a sua competição distrital. Disputado a duas mãos, o torneio terminou com uma vitória para cada lado que levou à realização de um terceiro jogo, em campo neutral, no estádio do Bessa. Os leões protestaram que o jogo decisivo fosse disputado na cidade do Porto e os azuis-e-brancos acabaram por sair vencedores por 3-1 já no prolongamento. O clube da Cidade Invicta tornava-se então, ao contrário da fórmula que credita a Académica, no primeiro vencedor do Campeonato/Taça de Portugal.

Na temporada seguinte o torneio foi aberto aos campeões de mais distritos e o Sporting venceu em Faro, em jogo único, a Académica de Coimbra por 3-0 num torneio em que entraram também o Sporting de Braga, o Maritimo, o FC Porto e o Lusitano de Vila Real de Santo António. Foram precisos quase trinta anos para que a liga regular de clubes tivesse representantes de zonas tão distantes do país numa mesma edição.

O formato do Campeonato de Portugal manteve-se nos anos seguintes alargando-se a participação, inicialmente a representantes de mais federações distritais e mais tarde a mais do que um representante por distrito. Os jogos moviam multidões, registaram-se as primeiras enchentes em cidades como Coimbra, Viana do Castelo, Santarém, Évora, Barcelos ou Beja com a visita de clubes de outros pontos do país. Os futuros “Três Grandes” começaram a passear pelo país e a cimentar a sua popularidade. Em 1923 o Olhanense venceu o FC Porto na final disputada no Campo Grande de Lisboa e tornou-se no único clube algarvio a vencer um troféu de primeiro plano no futebol português. Dois anos depois, no estádio do Ameal no Porto, o Maritimo bateu o Belenenses e conquistou o primeiro troféu para o futebol insular. Dois anos depois foi a vez do modestissimo Carcavelinhos bater o Sporting em Lisboa para sagrar-se campeão de Portugal. Foi o mais modesto de todos os vencedores da história da competição.

Durante quinze anos os títulos foram repartidos de forma equanime entre Sporting CP e FC Porto (4), Belenenses e Benfica (3). Estava desenhada a primeira fila de potências desportivas para as décadas seguintes.

O nascimento dos “Quatro Grandes”

O sucesso do Campeonato de Portugal permitiu ao futebol português avançar progressivamente a um modelo mais competitivo que culminou na honrosa participação nos Jogos Olimpicos de 1928 em Amesterdão. A partir desse ano a qualidade do futebol decaiu e a instabilidade política e a crise económica, consequência do crash da bolsa de Nova Iorque, ralentizaram o sucesso desportivo da competição. As eliminatórias passaram passaram a ser disputadas a duas mãos até à final o que reduziu, de certa forma, o efeito surpresa de alguns clubes modestos. As finais deixaram também de realizar-se na habitual peregrinação pelo país que levaram a que alguns dos jogos decisivos fossem jogados em cidades tão distantes como Faro ou Viana do Castelo para concentrar-se no Porto, Lisboa e Coimbra até ao final da competição.

Inevitavelmente o sucesso surpreendente de modestas formações nos primeiros anos do Campeonato de Portugal desapareceu nos últimos dez anos do torneio com as finais a tornarem-se monólogos do quarteto FC Porto, Belenenses, SL Benfica e Sporting com uma dupla excepção surpreendente do Barreirense. Em 1934, paralelamente ao Campeonato de Portugal, foi criado o primeiro Campeonato da Liga, o verdadeiro antecessor da Primeira Liga de Clubes atual.

A primeira edição foi ganha pelo FC Porto e as três seguintes pelo SL Benfica. Os títulos só recentemente foram validados pela Federação Portuguesa de Futebol como iguais aos campeonatos conquistados pelos respectivos clubes a partir de 1939, o que levou a que o Benfica passasse de comemorar o seu 27º titulo em 1994 a celebrar em 2014 a conquista do 33º campeonato português.

A nova nomenclatura do Estado Novo que nada mudou

Em 1938 a Federação Portuguesa de Futebol decidiu remodelar o sistema de competições nacionais. Decidiu criar uma nova nomenclatura para dois torneios que já existiam. Foi uma decisão do regime do Estado Novo. Tudo mudava para tudo ficar na mesma.

O Campeonato Nacional da I e II Divisões substituía o Campeonato da Liga após quatro edições em que o formato era o mesmo. Representantes de apenas quatro distritos (Lisboa, Porto, Coimbra e Setúbal) que se mantiveram até ao final da década de quarenta disputariam o titulo de campeão nacional. Já o Campeonato de Portugal transformava-se na Taça de Portugal. Mas com o mesmo formato, jogos a eliminar com participantes de todos os distritos desde a ronda inaugural até a uma final disputada em campo neutral que passaria a ser preferencialmente o estádio do Jamor após a sua inauguração.

A partir desse momento começaram a desenhar-se as lendas modernas. O FC Porto, que tinha vencido a primeira edição do Campeonato da Liga, venceu também a primeira edição do Campeonato Nacional da I Divisão. Mas os azuis-e-brancos, detentores da edição inaugural do Campeonato de Portugal foram eliminados pelo SL Benfica nas meias-finais (a duas mãos) e viram como a Académica de Coimbra reclamava para si o seu direito histórico de reclamar ser o detentor original do único torneio a eliminar da história do futebol português, o Campeonato de Portugal.

7.441 / Por
  • Nuno Caetano

    Miguel,

    Que grande baralhada que para aqui vai!

    Não concordo nada com esta citação e acho que é dos maiores erros que já vi sobre a História do Futebol no geral: «A mutação do Campeonato de Portugal para Taça de Portugal é idêntico ao que se operou com a Taça dos Campeões Europeus e a Champions League ou entre a Taça UEFA e a Liga Europa. Houve mudança na nomenclatura mas não na estrutura ou na essência».

    Não houve qualquer “mutação” do Campeonato de Portugal para Taça de Portugal e, a ter havido, nem por sombras seria idêntica à que sucedeu com a TCE/Liga dos Campeões ou Taça UEFA/Liga Europa, as quais, desde logo, não são entre si comparáveis.

    Primeiro, porque o Campeonato de Portugal atribuía o título de campeão nacional e a Taça deixou de o fazer. Logo, houve uma mutação na essência…

    Depois, porque a “mutação” da TCE para Liga dos Campeões implicou, ainda que posteriormente, que os clubes participantes na Liga não fossem, necessariamente, os campeões nacionais. Portanto, houve mutação na estrutura E na essência…

    Portanto, só com a transformação da Taça UEFA em Liga Europa é que só houve mutação na estrutura e não na essência.

    Por último, mas não menos importante, não quero deixar de realçar que existe constantemente uma confusão e uma “menorização” do Campeonato de Portugal por ter sido disputado em eliminatórias directas e não em sistema de “poule”, querendo, por isso, transformá-lo num “antecessor” da Taça de Portugal, quando não o foi. Terá sido, isso sim, um antecessor do Campeonato Nacional.

    Aliás, basta pensar que em muitos outros países europeus o campeonato nacional começou por ser disputado em sistema de eliminatórias directas (basta pensarmos na Alemanha ou na Itália).

    Tenho para mim que estas análises pecam sempre por serem descontextualizadas em relação à realidade que se vivia na época. Mas isso seria conversa extensa…

    Um abraço,

    • Miguel Lourenço Pereira

      Nuno,

      Obrigado pelo comentário.
      O Campeonato de Portugal foi o único torneio de dimensão nacional até ao aparecimento do Campeonato de Liga. Da mesma forma, em Inglaterra, o vencedor da FA Cup foi considerado campeão nacional até ao aparecimento da First Division. Aliás, durante décadas depois do aparecimento da FD, a importância da FA Cup continuava a ser muitissimo superior à da competição em formato regular de liga. Nos paises da Europa Latina, sobretudo, as primeiras competições organizadas foram as suas respectivas Taças que sempre serviram como forma de apurar o campeão nacional. Aconteceu, por exemplo, na vizinha Espanha em que durante anos o ganhador da Copa del Rey era, em nome, campeão nacional. Naturalmente o aparecimento das ligas transferiu essa importância para as ligas, o que não menoriza a importância – tremenda – das provas em formato de taça que seguiram o seu curso como segundas provas nacionais nesse formato.

      O Campeonato de Portugal arrancou nessa forma e perdeu, progressivamente, a sua importância com a expansão dos torneios distritais e o nascimento do Campeonato de Liga, transformado em Campeonato de 1º Divisão. Entre o periodo de quatro anos que coincidiram, o “campeão nacional”, reconhecido unanimemente, não foi o vencedor do Campeonato de Portugal. Quando a estrutura dirigente decidiu reformular o panorama competitivo das provas profissionais foi claro em manter uma linha continuista entre o torneio Campeonato da Liga-Campeonato 1º Divisão (mesmo formato, mesmo apuramento via distritais, mesmo imobilismo regional) e Campeonato de Portugal-Taça de Portugal (aberto a clubes de vários distritos sem quotas, formato a eliminar, final em campo neutral). Não houve nunca o eliminar de uma ideia para nascer outra.

      Quanto ás provas europeias, a Liga dos Campeões nasce, no seu formato original, com um formato de campeões nacionais mas com mais jogos – fiel á metamorfose do modelo dos Mundiais, que passaram de torneios a eliminar para torneios com fase de grupos – e só a partir de finais dos anos 90 se abre a uma segunda vida, a das equipas que não são campeões nacionais. Quando a Taça UEFA termina e dá lugar á Europa League já conta com fase de grupos, clubes repescados pela Champions League e o mesmo número de participantes. É uma mudança de marketing, de imagem, de nome digamos. O Campeonato de Portugal mudou o nome, afinou alguns detalhes mas a sua nova versão, a Taça de Portugal, é a competição que lhe sucede directamente no organigrama de competições portuguesas.

      Um abraço

  • Pedro Lucas

    Caro Miguel,

    É um facto que o campeonato de portugal continuou na taça de portugal e é realmente estranho que o mesmo não seja reconhecido pelas instâncias superiores, como é relativamente ao campeonato da liga/campeonato nacional. Relativamente ao comentário anterior, a simples co-existência do campeonato de portugal e do campeonato da liga retira ao primeiro a evidência de apurar o campeão nacional, até pelo seguimento que o campeonato da liga teve. Em termos de competições europeias, é efectivamente como o Miguel explica: na primeira edição da Champions (naquela que foi considerada a edição experimental) apenas constavam os campeões nacionais. A entrada de 2ºs e 3ºs classificados apenas se terá verificado lá para 1996 ou 1997, sem contudo o nome da competição ter sido alterado.

    Já agora, aproveito para responder a uma dúvida que surgiu no reflexãoportista nos comentários a este mesmo texto, relativa a um video que por aí rola, onde um jornalista refere o 27º titulo do SLB em 93/94. A resposta a esta confusão está efectivamente na continuidade do campeonato da liga/campeonato nacional. Até meados dos anos 90, havia quem fizesse a separação. em 93/94 havia quem atribuisse ao Benfica 27 campeonatos nacionais e 3 campeonatos da liga. Actualmente já são unanime os 33 do Benfica, tal como são os 27 do Porto, ao invés dos 26 + 1 que seriam realidade caso a anterior visão da questão vingasse. (apenas publico isto aqui, porque não consigo publicar nor eflexãoportista)

    Abraço.

    • Miguel Lourenço Pereira

      Caro Pedro,

      Efectivamente até aos anos noventa houve grandes incertezas sobre a contabilização – ou não – dos titulos do Campeonato da Liga no historial da 1º Divisão. O jornal A Bola sempre o defendeu, o Record sempre esteve contra, a FPF nunca se posicionou. Cada um lidava com a situação como queria. A meados da década chegou-se à conclusão, lógica a nosso ver, que os quatro anos do Campeonato da Liga são, efectivamente, a primeira parte do que foi depois o Campeonato da 1º Divisão, com outro nome como depois teve no futuro. E portanto parece lógico que o SL Benfica contabilize 33 títulos e o FC Porto 27.

      Quanto ao Campeonato de Portugal, basta estudar a origem de cada liga europeia e da sua respectiva taça. A Taça prevaleceu sempre, cronologicamente, e até ao aparecimento da liga, por ser a única prova organizada, era realmente o torneio que determinava o campeão de um país. Quando nasceu a liga esse titulo foi transferido (em Portugal, em 1934) e as competições seguiram no formato de Taça, algumas delas mudando inclusive o nome. Para nós foi o que sucedeu com o Campeonato de Portugal!

      Abraço

  • Nuno Caetano

    Caro Miguel (e também Pedro),

    Não concordo, mais uma vez, com os vossos comentários. Vamos por partes.

    De pouco me interessa o que tem defendido A Bola e o Record (que acabou por “ir na corrente”, talvez por o grande defensor da “minha tese” ter perdido influência neste jornal). Não é isso que me faz ter uma opinião, pois esta baseia-se na informação que vou recolhendo da época e não daquilo que me dá “mais jeito” ou menos trabalho a investigar.

    Depois, não me parece minimamente correcto estarmos a comparar a “transformação” da TCE/Liga dos Campeões com o que sucedeu em Portugal no início do Séc. XX. São “mundos” completamente distintos e diversos

    Também não corresponde inteiramente à verdade que o Campeonato de Portugal seja comparável com a “origem de cada liga europeia e da sua respectiva taça”. Talvez mais com o exemplo espanhol (que sempre nos foi, por todos os motivos, muito “próximo”).

    Na Itália a taça nunca teve grande tradição. A primeira edição foi em 1922 e a segunda em 1927 e com carácter “regular e oficial” só mesmo em 1942/43, para ser interrompida por causa da guerra. Penso eu, porque cito de cor… O próprio regime ditatorial foi visto como o grande “impulsionador” da competição e ainda hoje a Lega Pro e a Lega Nazionale Dilettanti têm as suas próprias Taças (e, pasme-se, até “selecções”…).

    Por outro lado, na Alemanha, durante muito tempo nunca houve um “campeonato nacional”. Aliás, basta pensar que foram celebrados em 2013 os 50 anos da Bundesliga. Daí nunca ter havido uma “tradição” da “primazia” dos campeonatos nacionais em detrimento da Taça. Aliás, a primeira competição por eliminatórias directas (a Tschammerpokal) durou escassos 8 anos (35-43), foi interrompida pela Guerra

    A própria DFB-Pokal, que “ressurgiu” em 1952, não é, propriamente, uma competição aberta a todos os clubes alemães, sendo disputada por todos os clubes da 1 e 2 Bundesliga, pelos primeiros quatro classificados da 3 Liga e pelos vencedores das competições regionais (estas sim, com uma forte tradição na Alemanha).

    É que na Alemanha, tal como em Portugal, sempre se teve receio de criar um campeonato de dimensão nacional que não fosse rentável e que criasse prejuízo para os clubes.

    Daí se ter optado, no nosso país, pela criação dos “Campeonatos das Ligas” como provas experimentais, “provas-piloto” para que se averiguasse da viabilidade de se organizar um “campeonato nacional” em formato de “poule”.

    Aliás, é isso que vem expresso nas actas da Federação («ficou resolvido promover a título experimental os campeonatos da Liga, I e II Divisões, sem prejuízo dos campeonatos distritais, nem do campeonato de Portugal») e que Henrique Parreirão deixou plasmado no livro “1.º Centenário do Futebol Português”, curiosamente uma obra «oficial» da FPF: «a Federação Portuguesa de Futebol promoveu a disputa dos Campeonatos da Liga das I e II Divisões, de 1934/35 a 1937/38, em «poule» – que, todavia, nunca substituíram os Campeonatos de Portugal realizados naquelas mesmas épocas. Foram bem aceites como experiência para um futuro melhor, mas nunca se sobrepuseram aos Campeonatos de Portugal, pelo contrário, como a sua própria regulamentação nos mostra».

    Portanto, só me parece lógico que o Benfica contabilize como 33 os seus títulos se o fizer contando com os Campeonatos de Portugal que ganhou e não com “as Ligas”, mas receio que não seja isso que acontece porque, como tive oportunidade de ver num palmarés que se encontrava na loja da marca que patrocina o clube, “esqueceram-se” de colocar essa competição.

    Tal como me parece lógico que se considere que o Olhanense, o Marítimo e o Carcavelinhos foram, in ilo tempore, Campeões de Portugal.

  • Ricardo Santos Pinto

    «Vai, no domingo próximo, dar-se início ao Campeonato Nacional – nova denominação do antigo Campeonato das Ligas – a disputar em moldes semelhantes ao seu antecessor. Como aquele, terá duas categorias, agora chamadas I e II Divisão, a substituir a nomenclatura que durante 4 anos tiveram de I e II Liga. Para a mais importante Divisão, a mecânica do torneio é absolutamente igual à anterior.» (Norte Desportivo, 5/1/39)

    «Trata-se, como se sabe, de uma prova exactissimamente igual à que desde 1934-35 se estava disputando com o nome de I Liga. No projecto de remodelação de estatutos e regulamentos da Federação Nacional, a comissão procurara dar nova feição aos campeonatos da Liga, estabelecendo direito de promoção ao campeão da II Liga. E daí o ter proposto a modificação do nome para «Campeonato Nacional». Mas ao discutir-se o articulado do regulamento da prova, o Congresso recusou, por maioria, essa nova estrutura e manteve o sistema de «prova fechada» anteriormente seguido.
    Mas no final das contas, recordando bem as coisas, não há que admirar, porque, no que respeita a nome dado às várias competições organizadas no nosso país, é pecha antiga a impropriedade das designações…
    Este novo Campeonato Nacional é, pois, mais um torneio impropriamente intitulado. E tão impróprio que até custa a tomá-lo como seguimento dos anteriores campeonatos de Portugal…» (Os Sports, 6/1/39)

    «Pode considerar-se a Taça de Portugal como prova sucessora do Campeonato de Portugal que se disputou 17 vezes sob 3 fórnmulas diferentes. E pode considerar-se porque continua a ter todas as suas virtudes sem lhe faltar um único dos velhos defeitos… que são autênticos atentados e desrespeitos à ideia puramente desportiva.» (Norte Desportivo, 11/5/39»)

    Parece-me óbvio que a Taça de Portugal foi a sucessora directa do Campeonato de Portugal e que o Campeonato Nacional sucedeu ao Campeonato Nacional da I Liga. Porque só mudou o nome – não mudou o regulamento, não mudou o número de clubes (os próprios clubes participantes no último Campeonato da Liga eram os mesmos do primeiro Campeonato Nacional), não mudou a forma de acesso.
    Desde que apareceu o Campeonato da Liga, a imprensa passou a falar em Campeão Nacional referindo-se ao Campeão da Liga. Era sem dúvida a prova maior do futebol português.
    Esses 4 anos devem, pois, ser contabilizados, da mesma forma que são contabilizados todos os títulos antes de 1999. É que, nesse ano, o Campeonato Nacional passou a chamar-se Campeonato da I Liga. Nem por isso se diz que é uma prova diferente.
    Se faz sentido fazer alguma distinção no historial, que o façam antes de 46/47 (salvo erro), ano em que passou a haver subidas e descidas de divisão e já não apuramento via regionais. Aí, sim, uma mudança significativa.
    Cumprimentos.