Cambados, o clube dos narcos galegos Nos anos oitenta o tráfico de droga transformou completamente a vida do Cambados, um clube que passou dos torneios locais aos nacionais graças aos narcos

Uma das regiões mais pobres de Espanha viveu a sua idade de ouro nos anos noventa. Graças à emergente industria de contrabando o futebol na Galiza encontrou um inesperado apoio financeiro para lutar contra os restantes rivais nacionais. No meio desse mundo perigoso de traficantes um clube fez história e graças à ajuda do Pablo Escobar espanhol passou dos campeonatos locais às portas da II Divisão em apenas três anos.

O futebol galego e a fariña

Em 1991 a operação Necora colocou por primeira vez o Estado espanhol em guerra aberta com os traficantes da Galiza, especialistas na década anterior na importação ilegal de tabaco, primeiro, e de droga, mais tarde. Liderada pelo juiz Baltazar Garzon, a operação judicial deteve a quase todos os narcos galegos, recuperou milhões de pesetas e quilos de cocaína, haxixe e heroína e marcou o primeiro golo contra a impunidade dos narcotraficantes que tinham vivido a seu belo prazer nos anos anteriores. A operação acabou por resolver-se com penas muito menos pesadas do que se podia imaginar – a influência política dos detidos, sobretudo dentro do Partido Popular – e muitos dos seus protagonistas continuaram durante os anos noventa livres, a coordenar o tráfico de droga no noroeste da península ibérica.

Na mesma época o futebol galego viveu o seu apogeu. Teve, por primeira vez na história, três clubes na primeira divisão – o Deportivo la Coruña, Celta de Vigo e Santiago Compostela – e o Deportivo não só se sagrou campeão como, com o rival de Vigo, passou a ser figura habitual nas provas europeias. A relação directa entre a época dourada do tráfico de droga e os seus clubes nunca se provou mas o ciclo temporal de êxito de ambos seguiu caminhos paralelos. O que não há duvida é que um dos projectos mais ambiciosos do futebol galego de então era liderado por um narco consumado. O único que sobreviveu às detenções da Operação Necora, Sito Miñanco.

Sito Miñanco, o narco de Cambados

O rei da “Fariña” – o nome popular dado à cocaina na Galiza – era não só um reconhecido traficante local como um admirador confesso do colombiano Pablo Escobar. Nascido José Prado Bugallo, “Sito” tornou-se conhecido como um dos mais velozes pilotos de barcas de contrabando quando era adolescente. Na época era o tabaco e não a droga o que imperava nas rias baixas galegas, entre Vigo e Vilanueva de Arousa. Com o passar dos anos foi ascendendo na hierarquia dos traficantes locais até que começou a trabalhar por conta própria. Rapidamente passou do tabaco para a droga, primeiro trabalhando com cartéis do Panamá e mais tarde com os temidos cartéis colombianos de Cali e Medellin.

A sua relação directa com o tráfico de cocaína na Colombia colocou-o debaixo da atenção de Pablo Escobar e imitar o seu ídolo tornou-se numa prioridade. Além de mudar o aspecto físico para assemelhar-se ao colombiano, Miñanco partilhava com o rei da cocaína a paixão pelo futebol. Foi assim que em 1986 adquiriu o Juventud Cambados, clube da sua localidade natal, de apenas 12 mil habitantes, uma pequena localidade das rias de Arousa e que historicamente apenas tinha competido a nivel local.

De forma a integrar a sua fortuna na comunidade – uma prática habitual entre os narcos locais – Miñanco decidiu apostar na compra do Juventud num processo de relações públicos que o transformou numa personagem tremendamente popular na zona. Que utilizasse a engenharia financeira do Cambados para lavar parte do dinheiro das suas operações era um bónus igualmente.

A irresistível ascensão do Cambados

O investimento de Miñanaco foi imediato e fez toda a diferença.

O clube abandonou o campo pelado por um novo estádio relvado de 2000 lugares que era único na região, passou a pagar a jogadores até então absolutamente amadores cifras de futebolistas das divisões profissionais e a integrar os melhores jogadores da região com as cores amarelo e azul do Cambados. Em três anos a ascensão desportiva do clube foi meteórica. Passou primeiro da divisão local de Arousa ao campeonato distrital galego e de aí até à Segunda Divisão B espanhola. Tal era a ostentação à volta do clube que a chegada ao campeonato nacional fez com que o traficante aproveitasse uma das suas viagens de negócio à América Central para levar o plantel consigo numa tour de um mês pelo Panamá e Colômbia onde jogaram contra outros clubes associados aos traficantes locais. Miñanco e os jogadores não estavam sós. A claque oficial do clube – Comando Legal – era ao mesmo tempo parte da sua rede de narcotrafico, cidadãos locais que por um salário tinham como missão pilotar as barcas, vigiar a policia e outros traficantes e que utilizavam o clube como escudo para as suas operações.

A rápida escalada de categorias chamou imediatamente à atenção do futebol espanhol e no seu ano de estreia na Segunda B o clube esteve a duas vitórias apenas de selar a sua quarta promoção consecutiva – acabando finalmente no quarto lugar – e plantar-se directamente na Segunda divisão onde, na época, militavam o Deportivo e o Celta de Vigo. Nesse mesmo ano de 1989 o clube de Escobar, o Atlético Nacional, venceu a Copa Libertadores um feito inédito na história do futebol colombiano. Foi o apogeu do narcotráfico no mundo do futebol.

A decadência do império narco galego

A operação Necora obrigou Miñanco a refugirar-se no Panama. Quando voltou a Espanha acabou por ser detido, meio ano depois, e os anos seguintes passou entre estâncias em prisão, fugas milagrosas e episodios novelescos. A vida de galã e patrono local de Cambados desapareceu quase completamente à medida também que se notavam os primeiros efeitos mortais da invasão da cocaína, haxixe e heroína na costa galega.

Com essa metamorfose também o Juventud Cambados deixou de ser um capricho e um projecto ambicioso a transformar-se num problema logístico para Miñanco. O traficante deixou o clube em mãos de um homem de confiança mas também acabou por deixar de investir as fortunas que tinham provocado a sua meteórica subida de categorias. Onde antes ao clube chegavam os melhores jogadores da zona, muitos dos quais recebendo dinheiro por fora do bolso do próprio Miñanco – era conhecido por oferecer carros desportivos aos jogadores mais destacados cada mês do clube – agora ficavam apenas os habituais praticantes locais.

Depois de três temporadas na Segunda Divisão B, voltou a cair no poço do futebol local galego em poucos anos de onde nunca mais voltou a sair. Sem o investimento garantido de um benfeitor, a gente de Cambados teve de contentar-se em ver os dois gigantes regionais afirmarem-se na primeira divisão e a levantar troféus perguntando-se se esse não teria sido também o seu futuro se Sito Miñanco não tivesse finalmente caído nas mãos da justiça espanhola. De ser o terceiro clube da Galiza durante um par de anos a cair no esquecimento. Uma história de “fariña” e futebol que só se podia ter vivido num paraíso do narcotráfico no continente europeu como foi a Galiza dos anos oitenta e noventa.

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