Cagliari, o triunfo dos bandidos

O silêncio na ilha substituído pelo trovão. O trovão do golo. Em 1970 o Cagliari oficializou a Sardenha como parte de Itália. Vencendo a Serie A, derrotando as grandes potencias do continente. Os que não acreditavam que uma equipa de pastores e bandidos pudesse ser campeã de Itália.

Riva, o trovão da Sardenha

Há poucas gestas históricas tão impactantes. Sagas tão fascinantes, histórias que merecem ser repetidas tantas vezes para não cair no esquecimento como as que deram forma e cor à ascensão do Cagliari de clube de terceira linha a senhor do Calcio.

Em 1969 muitos italianos não sabiam onde estava a Sardenha. Não sabiam que a Sardenha era tão sua como a Sicília. Colónia prisional, destino de férias, um posto avançado de África perdido no Mediterrâneo. Nada nem ninguém pensava de outra forma sobre a ilha nas ruas de Florença, Milão, Turim ou Roma. E como o futebol na Sardenha praticamente não existia, não havia forma de saber se a lenda era verdade ou mentira. Mas esta história não começou na ilha. Forjou-se nos vales dos Alpes, no ponto mais a norte de Itália, onde nasceu, cresceu e aprendeu a disparar uma bola um jovem prodígio chamado Luigi Riva. Um trovão que estava destinado a prosperar na fértil região a norte do Pó e que se viu, em 1962, a caminho de uma cidade que não conhecia de lado nenhum. “Para mim”, disse anos mais tarde numa entrevista, “a Sardenha era um local onde mandavam prisioneiros”. Não parecia um destino apetecível mas a vida tem destes paradoxos.

O homem que suspeitava de Cagliari e das suas gentes transformou-se rapidamente no seu profeta. Vezes sem conta foi abordado pelos grandes clubes italianos à medida que a cada época que passava o seu número de golos e prémios pessoais aumentava. Disse sempre que não. Aos milhões do Milan que o queria a jogar ao lado de Rivera. Ao milhões do Inter que pensava nele para substituir Jair. Aos milhões da Juventus que o queria, simplesmente, porque era o melhor. A resposta foi sempre a mesma, a resposta foi sempre não. Porque essa Sardenha desconhecida tinha-se tornado na sua casa e esse seu carácter nortenho ganho novo sopro de ar debaixo do calor asfixiante do Mediterrâneo. Riva nunca mais sairia de Cagliari da mesma forma que Cagliari nunca sairia de dentro dele. Juntos, seriam uma força imparável. Como um trovão, de curta duração mas imparável.

A irresistível ascensão dos bandidos e pastores sardos

O Cagliari era um clube modesto, dos mais modestos do futebol italiano.

Um clube que andava regularmente entre a Serie B e C, perdido em viagens de barco para o continente, para jogar em campos de terra batida e relvados destroçados. Era o seu hábitat. Em 1964 a equipa fez história e garantiu a promoção à Serie A. Eram candidatos a descera inda antes do torneio ter começado. Muitos dos clubes nem sabiam sequer como chegar à Sardenha, essa ilha que alguns sabiam que não era a Sicilia mas que confundiam com a francesa Corsega. Mas o Cagliari aguentou-se. Brilhantemente. Com os golos de Riva terminou a época no sexto lugar. Nos três anos seguintes não caiu abaixo do 11º posto na tabela classificativa. As tardes no Amsicora transformaram a vida da ilha. A imprensa milanesa qualificava o clube como o último reduto dos bandidos e pastores sardos. Nesse pequeno rectângulo, a alma da ilha pululava a cada jogo em casa. Na mais rural parte do país, as televisões e rádios eram um luxo a finais dos anos sessenta mas o futebol e os surpreendentes triunfos da equipa, com os golos de Riva, as assistência de Bonisegna, os passes de Domeghini e as defesas de Albertosi começavam a trazer um sopro de modernidade. A Sardenha aprendeu a gritar golo.

Em 1968-69 o Cagliari esteve perto, muito perto, de fazer história. Debaixo da cirúrgica liderança de Manlio Scopigno, a equipa deu um salto de qualidade evidente, ombreando diretamente com os grandes candidatos com o Scudetto. Riva estava num estado de forma imparável, Cera e Nicolai dominavam o meio-campo e os Rossoblu pareciam demónios. Mantiveram o pulso com a Fiorentina e o AC Milan até aos últimos suspiros da temporada, caindo apenas nas jornadas finais. O segundo lugar conquistado não era só o melhor resultado de sempre da história do clube. Era um genuíno milagre desportivo. Os bandidos sardos começaram a inspirar terror em vez de risos. Ninguém estava disposto a apostar contra eles com facilidade na temporada seguinte. Nem a perda de Domegnhini – contratado pelo Inter – debilitou o Cagliari que arrancou com uma frieza cirúrgica para a nova época. A primeira derrota chegou apenas à jornada 12, num duelo insular contra o Palermo. A equipa era a mais eficaz na defesa e no ataque de toda a liga e seguia líder com autoridade. Ia ser uma longa corrida mas a cada golo de Riva a Sardenha tornava-se maior no mapa. Tudo ia ser decidido no último mês de temporada.

O triunfo sobre o “sistema”

Havia receio dos sardos, justificado por anos e anos de corrupção desportiva, que algo ia suceder nas jornadas finais. Os dirigentes da Juventus, que disputavam a liderança, acusaram o clube de ser financiado pela máfia local quando Riva voltou a rejeitar, publicamente, uma oferta turinesa que triplicava o seu salário. Alguém tinha de o estar a ameaçar ou a pagar por fora, diziam em Turim. Não fazia sentido negar jogar pela Vecchia Signora quando se está numa ilha perdida no meio do nada. Mas Scopigno, um ás dentro e fora de campo, não teve meias medidas e respondeu à letra, acusando os nortenhos de serem responsáveis pela recorrente compra de campeonatos.

Uma acusação habitual e que anos mais tarde seria também defendida pelos modestos campeões do Hellas Verona. Era um jogo de nervos que antecedia um duelo em campo. Com a polemica servida – um penalty para cada lado – Juve e Cagliari empataram no Comunale de Turim. O titulo estava praticamente selado. Ao Cagliari bastava não perder mais de dois jogos dos quatro que tinha de disputar. E não falhou. A 12 de Abril, com dois jogos para terminar a liga, os sardos coroaram-se campeões de Itália perante uma multidão incrédula que incluía dos fugitivos, capturados pela policia nas bancadas mas que tiveram autorização especial de ficar até ao fim do jogo antes de voltar a ser enfiados atrás das grades. Bandidos e pastores podiam ser, sem dúvida, mas vencedores no fim de contas. Inesperados e merecidos vencedores.

Uma aventura demasiado curta

O titulo de 1970 transformou Cagliari numa das cidades mais respeitadas do futebol italiano. O clube tornou-se presença regular na primeira divisão nas décadas seguintes mas nunca mais repetiu o feito histórico dessa Primavera. Um quarto e um sexto lugar foi o melhor que os Rossoblu conseguiram. Sem as defesas impossíveis de Albertosi, os passes perfeitos de Domeghnini e os golos magistrais de Riva, o “Trovão” como Gianni Brera o alcunhou, a saga perdeu força, a história perdeu vida.

Quatro anos depois pouco ou nada restava da brilhante equipa campeã entre lesões, retiradas e vendas para equilibrar contas. O status quo tinha regressado a Itália e ao seu futebol. Os pastores e bandidos sardos no entanto não esqueceram. Os rádios e as televisões tinham chegado para ficar, as bandeiras italianas voltaram a desfraldar com orgulho e em qualquer cidade da bota todos os adolescentes sabiam agora onde apontar Cagliari no mapa. Estava em cada cromo, em cada cara, em cada golo eterno de Luigi Riva. Estava, oficialmente, no coração do país.

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