Soava a Quinta Sinfonia de Beethoven. No mastro, uma bandeira branca com três letras azuis bordadas timidamente. Em campo, alinhados disciplinarmente, estavam onze jogadores que traziam às costas toda a herança do futebol soviético. Durante quase dois anos o mundo do futebol europeu conviveu com uma seleção sem país. O caso mais absurdo do caótico fim da Guerra Fria.

 O conturbado fim da URSS

Em Novembro de 1989 a queda do Muro de Berlim abriu todas as gretas do império soviético. Foi o acto simbólico que marcou a inevitável mudança que se vinha a desenhar desde meados dos anos oitenta. A Guerra Fria estava a chegar ao fim. Durante a segunda metade da década, o trabalho diplomático de Mikhail Gorbatchov, o novo presidente do Partido Comunista soviético, em conjunto com a pressão política de Ronald Reagan, Margaret Tatcher e o papa João Paulo II tinham aberto caminho a uma nova era de transparência política e equidade social. Era questão de tempo até que as muralhas construídas pelo homem fossem derrubadas por este novo sopro de mudanças. O fim do Muro marcou o principio do fim do império dos estados comunistas na Europa de Leste. Nos dois anos que se seguiram os governos patrocinados pelo regime foram caindo como um Castelo de cartas. Até que a mudança chegou a Moscovo e para espanto de um mundo a viver em contra-relógio, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas deixou, formalmente, de existir. Estávamos a 25 de Dezembro de 1991. Nos campos de futebol, no entanto, a mudança teria um sentido muito mais profundo.

O futebol soviético  tinha vivido a sua época dourada durante os anos oitenta, uma viagem em contra-mão ao estado social do país. Aos títulos europeus conquistados pelo Dínamo de Tiblissi e Dínamo de Kiev seguiram-se exibições de gala da seleção no Mundial de 1982, 1986 e no Euro 88. Uma geração moldada, sobretudo, com base nos talentos de Kiev e treinada, a meias, entre dois génios tão diferentes entre si como Eduard Malofeev e Valery Lobanovsky, os soviéticos tinham granjeado a merecida fama de potencias mundiais. Com uma equipa formada por ucranianos, georgianos, bielorrussos e russos, os homens com o imponente CCCP ao peito foram a Itália disputar o Mundial de 1990 conscientes de que a história estava a caminho do fim. As tensões internas nas repúblicas soviéticas tinham aproveitado a queda do Muro para acelerar o seu processo secessionista e os jogadores pensavam já mais na sua patria futura do que na presente. A campanha soviética foi decepcionante e a seleção acabou última do seu grupo. Foi o ponto final para uma geração única, a dos Dassaev, Aleinikov, Zavarov , Rats ou Belanov. Mas não o foi da sua seleção.

C.E.I, a solução de emergência

Em 1990 arrancou a campanha de apuramento para o Euro 92.

A Europa estava a procurar adaptar-se a um novo mundo. A UEFA ainda reconhecia a vigência da Republica Democrática da Alemanha e incluía no mesmo grupo de qualificação que sua congénere ocidental. O duelo não se chegou a disputar graças à unificação proclamada dos seus estados. Mas na URSS notava-se que o cenário seria mais complexo. Em 1990 as repúblicas bálticas disseram adeus ao império moscovita. Durante o ano, à medida que os jogadores soviéticos, em campo, carimbavam de forma categórica o apuramento para o Europeu – como se aquele Mundial nunca tivesse existido – eliminando com autoridade a medalha de bronze do torneio, a Itália, a URSS desfazia-se aos poucos. Em Dezembro o país cessou, formalmente de existir, dando lugar a um iimbróglio histórico. Com a seleção qualificada para o Europeu, nem a UEFA nem a antiga federação soviética, agora reconvertida em Federação Russa, sabiam o que fazer. Formalmente as antigas repúblicas proclamaram a sua independência. Da noite para o dia apareceram novos e velhos estados, alguns resgatados no tempo como a Ucrânia, Moldávia, Bielorrusia, Geórgia, Azerbaijão ou Arménia. Todos eles vizinhos da velha Rússia, outra vez só. Mas quem tinha direito a ocupar a vaga ganha por uma seleção formada à base de todas as repúblicas soviéticas?

Inicialmente os italianos reclamaram para si o posto que não conseguiram ganhar em campo. O seu argumento era simples. A URSS tinha deixado de existir, não havia ninguém para ocupar o seu lugar. A UEFA rejeitou o argumento e convidou as novas repúblicas a encontrar uma solução. Paralelamente, o futebol prosseguia, quase imune às disputas políticas. A 11 de Janeiro de 1992 as federações reuniram-se em Moscovo e aceitaram formar parte de uma federação provisória, a Comunidade de Estados Independentes. A C.E.I. já existia, a nível político, como órgão de transição da antiga União Soviética para os novos estados. Tratava-se da forma mais democrática possível de transferir competências políticas, económicas e sociais desde Moscovo para cada nova capital, mantendo uma harmonia política na relação entre os novos estados. Mas a C.E.I. não era um país como tal. Não estava reconhecido por nenhum organismo, não fazia parte da ONU, FIFA ou UEFA. Era, simplesmente, um tampão temporal num vazio legal. Para o mundo do futebol, a C.E.I. era mais do que isso, um verdadeiro enigma.

O convidado inesperado do Euro 92

Com a nova designação, a antiga-URSS começou a preparar-se para disputar o Europeu na Suécia. O selecionador Anatoly Byshovets continuou o seu programa como se nada tivesse passado no tempo, convocando jogadores das respectivas repúblicas como se ainda fossem futebolistas soviéticos. A primeira paragem da nova seleção não podía ter sido mais irónica. A 25 de Janeiro a C.E.I. estreou-se oficialmente contra os Estados Unidos em Miami. O nome podia ser diferente mas nada parecia ter mudado. A equipa jogou com o equipamento habitual da URSS, a bandeira e o hino que tomaram parte nas cerimónias previas ao jogo mantinham-se as soviéticas e o duelo mais parecia uma caricatura futebolística da Guerra Fria. Por uma vez, ganharam os soviéticos. A tour americana prosseguiu com jogos em El Salvador, um “rematch” com os americanos (desta vez, vencedores) e um duelo em Israel. Paralelamente, para tornar a situação mais caótica, cada república começava a jogar com as suas respectivas seleções de forma oficial. Byshovets, em retaliação, decidiu começar a convocar exclusivamente jogadores russos, a única seleção que ainda não tinha disputado jogos de forma autónoma até à Primavera de 1991. Os dirigentes da UEFA perguntavam-se quem vinha, realmente, à Suécia, se a Rússia disfarçada de C.E.I ou as federações soviéticas na única reencarnação possível do império perdido.

Para apaziguar a UEFA, os dirigentes da temporária federação decidiram fazer uma lavagem de imagem pública. Trocaram todos os símbolos soviéticos por uma nova nomenclatura. A seleção passou a jogar de branco, em vez do histórico vermelho soviético. O logótipo da federação e a nova bandeira foram apresentados como três letras azuis num fundo branco. O hino do Komitern foi substituído pela Quinta Sinfonia de Beethoven. E na convocatória oficial para a competição foram integrados jogadores de varias repúblicas. Mas, ao contrario do que tinha sucedido na década anterior e na respectiva fase de apuramento, a esmagadora maioria dos futebolistas eram russos de nascimento. A URSS tinha, realmente, chegado ao fim.

A C.E.I. disputou os três jogos da fase de grupos num estado quase catatónico. A perda de identidade nacional era evidente, os jogadores pareciam disputar encontros paralelos em campo. A pesar de liderarem o jogo inaugural, com um golo do russo Dobrolovosky, contra os campeões do Mundo, a reunificada Alemanha, os jogadores da Comunidade de Estados Internacionais deixou-se empatar a três minutos do fim. No seguinte encontro, um empate a zero com a favorita Holanda abriu as perspectivas de apuramento para as meias-finais. Uma copiosa derrota com a Escócia, já eliminada, acabou com a aventura. Não haveria mais jogos para esta seleção sem estado. Tinham passado seis meses desde o jogo inaugural da seleção. A mais efémera da história A farsa podia chegar ao fim mas ainda havia um último capitulo a representar.

A supremacia russa sobre a herança soviética

Ignorando a circunstancia política, a FIFA anunciou em Junho os grupos de apuramento para o Mundial de 1994, a disputar nos Estados Unidos. Só havia uma vaga para a antiga União Soviética e foi atribuída ainda à C.E.I. Havia, dentro do órgão presidido por João Havelange, quem acreditasse que era possível manter as antigas repúblicas soviéticas debaixo de uma mesma bandeira desportiva. A realidade provou ser bem diferente. Em Agosto desse ano a Rússia quebrou o tabu e disputou o seu primeiro encontro oficial, seguindo o exemplo de todas as outras repúblicas soviéticas. No meio do caos, Moscovo proclamou que a sua recém-criada federação devia ser reconhecida como a legitima sucessora da União Soviética e, por extensão, da C.E.I., e que a vaga disponível devia ser sua. Ucranianos, georgianos e bielorrusos protestaram, mas sem sucesso.

A FIFA aceitou a integração da federação russa no seu concerto de seleções antes que as das restantes repúblicas, reconhecendo assim a Moscovo o direito de primazia. A Rússia qualificou-se para o Mundial de 1994 e estreou-se no Europeu de 1996 como estado único. Entre as restantes repúblicas que deram forma à C.E.I, o cenário foi bem diferente. Apenas a Ucrânia conseguiu quebrar o tabu e em 2006 participou no seu primeiro internacional. Por separado, rusos, ucranianos, georgianos ou bálticos jamais foram capazes de reproduzir a história de sucesso da União Soviética. No entanto, em nenhum dos países, a caótica aventura da C.E.I. é lembrada com um sorriso.

Foi o epilogo de meio século de história nos relvados de futebol europeus. Uma tragicomédia com final incerto. As cores de uma bandeira que nunca representou a nenhum país foram engolidas pela história. E ainda hoje ninguém sabe muito bem que seleção era aquela que se passeou pela Suécia com saudades do impossível.

2.215 / Por
  • Rui

    Ainda antes da Ucrânia em 2006, a Letónia partcipou num torneio Internacional, o Euro 2004.