Brigate Gialloblu, o fascismo no calcio

Há poucos clubes tão criticadas na sociedade italiana como o Hellas Verona. A sua legião de adeptos, as Brigatte Giallobllu, é também um dos grupos neo-fascistas mais ativos do país. No Bentegodi não há piedade para com ninguém e Itália é forçada a confrontar-se quinzenalmente com todos os seus fantasmas.

A extrema-direita futebolística

“Vesuvio, facci sognare”.

Um imenso cartaz preenche a curva sul do estádio Bentegodi em Verona. Um duelo entre Nápoles e Hellas Verona, um duelo quente como nenhum outro na temporada dos gialloblu. Do outro lado um clube que é mais do que um rival desportivo. As rivalidades do mais antigo clube da cidade, são os vizinhos Atalanta e Bologna. Quanto muito os clubes de Milão e Turim, relembrando os dias em que o Hellas Verona desafia os gigantes do Calcio pelo título da Serie A. Título que venceu em 1984, graças ao génio de Preben Elkjaer Larssen e uma gestão arbitral impoluta.

O Nápoles é diferente. É um clube do sul de Itália. E não há nada que os veroneses mais desprezem que o sul do seu próprio país. Para eles, tudo o que esteja a sul de Roma pode ser classificado numa só palavra: terroni.

Equivalente italiano ao saloio português, terroni é mais do que um insulto. É uma forma generalista de resumir o que o norte do país da bota sente pelo sul. Uma velha guerra cultural, política e dialéctica entre os centros culturais e industriais do vale do Pó e Tibre e o imenso país mediterrânico, as ilhas associadas ao crime organizado e os habitantes, muitas vezes apelidados de “africanos” por políticos e figuras públicas. Nápoles  a cidade mais grande do sul, representa tudo isso. A sua equipa de futebol, liderada por Diego Armando Maradona, irrompeu precisamente quando o Verona ainda se sentia parte da elite.

O primeiro jogo do argentino foi precisamente em Verona. Quando as equipas subiram ao campo os adeptos levantaram um cartaz gigante que dizia, simplesmente, “Bienvenutti a Italia”. Depois passaram 90 minutos a fazer ruídos de macacos sempre que Maradona tocava na bola. “El Diego” não esqueceu. Venceu dois títulos polémicos e ousou responder ao norte com o mesmo discurso. Em Verona o ódio aumentou e o cartaz, “Vesúvio, faz-nos sonhar”, está lá para relembrar os adeptos do clube napolitano da destruição de Pompeia e de que uma “segunda limpeza” não lhes iria nada mal. Discurso duro mas recorrente num jogo onde o futebol cai facilmente para segundo plano. É essa a natureza do Hellas Verona e dos seus homens mais ruidosos e organizados, a Brigate Gialloblu.

A cultura da Lega Nord

As origens elitistas do Verona explicam, em parte, a natureza da sua claque.

A cidade de Romeu e Julieta cresceu no coração cultural da Itália renascentista. Palco de intrigas, conflictos políticos e lar de artistas únicos, é uma das zonas do país mais posicionadas com a extrema direita desde tempos imemoriais. Durante os anos de Mussolini,  o Duce encontrou aqui alguns dos seus mais fervorosos apoiantes. A partir dos anos 70 o extremismo radical da esquerda italiana, que levou ao rapto e assassinato do primeiro-ministro Aldo Moro, despertou o lado mais violento da extrema direita do norte, aquela que hoje está por detrás do partido Lega Nord que defende a secessão do país dos territórios a norte da Toscânia.

Em 1981 o jogador brasileiro Júlio César, então a jogar pelo Cagliari, foi recebido com cascas de banana e um boneco negro enforcado na Curva Sud. A partir daí a situação piorou. À medida que futebolistas estrangeiros invadiam a Serie A e o clube perdia importância futebolista, a agressividade fez-se notar como nunca. Gullit, Rijkaard, Aldair, Ronaldo, Weah, Ince, todos eles sofreram com as viagens ao Bentedogi. E as Brigatte Gialloblu tornaram-se em sinónimo de problema. Acompanhavam a equipa pelo país, com gritos desafiantes, fazendo especialmente dos duelos na Sicilia e no sul de Itália questões de vida ou morte.

As Brigate nasceram em 1971 e rapidamente se tornaram num exemplo em Itália seguido pelos adeptos de clubes como a Lazio ou Genova. A sua influência britânica fez-se rapidamente notar não só no apoio à equipa como nas coreografias montadas para os diversos encontros de um Verona então a dar os primeiros passos em muitos anos na Série A. E foram também os primeiros a incorporar o insulto como arma de apoio.

De Heysel a Livorno

Desde o ataque aos adeptos da Juventus depois do desastre de Heysel Park até à mais recente e polemica exibição de mau-gosto num duelo contra o Livorno – um clube posicionado na extrema esquerda italiana – onde os adeptos gozaram com a morte recente de Piermario Morosini, jogador local que faleceu há meio-ano vitima de complicações cardíacas, a forma de apoiar dos veroneses transformou-se num problema nacional. A sua associação a outras claques conflictivas a nível internacional como os Ultra Sur, do Real Madrid, os Boulogne Boys do PSG ou os hooligans do Chelsea, transformaram-nos num dos referentes internacionais do fenómeno hooligan.

No entanto, ao contrário do que poderíamos pensar, os adeptos do Verona raramente transformam os seus conflictos em batalhas campais, ao contrário do que sucede com claques como as da Lazio ou Sampdoria, e por isso têm sobrevivido ao passar do tempo com certa condescendência por parte das autoridades italianas. O seu forte carácter regional, defendendo a mesma ideologia e filosofia política que as autoridades dominantes no vale do Pó permite-lhe, igualmente, manter-se em ativo apesar de várias denúncias por racismo, xenofobia e fascismo.

Naturalmente que os problemas com adeptos do sul do país e mensagens de carácter xenófobo, racista e fascista são um exclusivo do Verona. O clube, hoje a militar na Serie B, já não gera o mesmo impacto social de outras épocas, mas em Turim, Milão, Génova, Bologna ou Florença o sentimento é partilhado e seguido por várias fações de adeptos que procuram emular o trabalho dos Brigate Gialloblu.

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