“Não diria que sou o treinador número 1 mas sim que estou lá bem em cima no topo”. E estava mesmo. Ainda hoje a figura de Brian Clough paira sobre o futebol inglês com um misto de grandeza e incredulidade. Numa era onde a televisão começava a ganhar o seu espaço, Clough tornou-se na primeira figura mediática do jogo. E criou uma lenda à sua volta que nem a lenta decadência provocada pelo álcool conseguiu travar. Afinal “Cloughie” era, pura e simplesmente, inigualável.

O treinador para o qual não havia impossíveis

Quanto José Mourinho chegou ao Chelsea anunciando que era um treinador “especial” todos os jornais fizeram eco de Brian Clough. Afinal ele tinha sido o único homem que se atrevera a afirmar que era melhor do que qualquer outro sem pestanejar numa cultura onde o politicamente correcto sempre imperou. As estatísticas confirmavam-no.

Por duas vezes Clough conseguiu o milagre de fazer de uma modesta equipa de segunda divisão campeões. Com o Derby County criou uma escola de bom futebol que rompeu com a hegemonia de Leeds e Liverpool na prova. Com o Nottingham logrou o que nenhum técnico conseguiu até aos dias de hoje, a dobradinha na Taça dos Campeões Europeus com um emblema praticamente sem expressão na história do futebol moderno em Inglaterra. Talvez por isso o próprio Clough, então ainda vivo, aceitou a comparação com um reparo importante: “somos os dois bem parecidos!”, acrescentou.

Assim era o homem que ninguém conseguia domar. Como ele bem explicou essa foi a única razão porque nunca foi eleito selecionador inglês. Era incontrolável e desesperava qualquer direção. Deixou os diretivos do Leeds uma hora à espera para dar uma entrevista à televisão local antes da sua apresentação. Manteve um largo braço de ferro com a direção do Derby County, clube que tinha elevado à glória, que eventualmente o levou a ser destituído. Na semana seguinte a pequena localidade de Derby ficou paralizada em sucessivas marchas de apoio a “Cloughie”. Três anos depois apareceu a pouco mais de vinte e cinco quilómetros de distância para fazer história, relegando o mítico Robin Hood para as páginas traseiras da história de Nottingham.

O mais prolifero goleador da sua era

Nascido em Mideslborough em Março de 1935, Brian Clough mais do que ser um gentleman dos bancos era um autêntico showman. Como futebolista teve uma carreira promissora no Midlesborough e Sunderland que terminou abruptamente com uma grave lesão no joelho. Para trás tinham ficado as suas duas únicas internacionalizações e 300 golos apontados em 280 encontros disputados. Durante seis anos, Clough foi o mais destacado dos avançados ingleses. Mas o facto de ter jogado na Second Division e de possuir um caracter, já de si, problemático, levaram-no a ser preterido sucessivamente pelos comités de seleção da equipa nacional comandada por Walter Winterbottom. Foi a maior mágoa da sua vida.

Terminada a carreira nos relvados com 29 anos, o jovem promissor juntou-se a Peter Taylor, antigo colega seu no “Boro” e assumiu o destino do Hartlepool United. A modesta equipa estava na Division Four mas rapidamente o seu estilo de liderança fê-lo conhecido no país. As noticias do seu talento correram depressa e o Derby County, então a viver dias difíceis a meio da Second Division decidiu contratar a dupla. No Baseball Ground Clough começa a operar o seu primeiro milagre. Com uma série de contratações cirúrgicas e uma mudança básica no modelo de treino da equipa, Clough monta um conjunto ganhador liderado no meio campo por Dave Mackay.

O Derby manteve a sua performance de mediania no primeiro ano mas na segunda época com Clough ao leme a equipa logrou o titulo e a promoção. Entre os homens de confiança de Clough no relvado estavam as futuras estrelas Kevin Hector, Roy McFarland e John O´Hare. O titulo consagrado com uma série de 22 vitórias consecutivas abriu o livro dos recordes que tardaria mais de uma década em fechar-se. No ano seguinte o Derby County logrou um surpreendente quarto posto, o melhor da história do clube. Mas foi em 1971 que o delírio tomou conta da modesta cidade. A equipa tornou-se uma máquina de futebol e rapidamente chegou ao primeiro posto. A última jornada foi disputada em dois dias distintos. O Derby venceu o temível Liverpool e ultrapassou o Leeds Utd na classificação por um ponto. Mas isto tinha sido numa quarta-Feira e o Leeds de Don Revie, o histórico rival de Clough, jogava no sábado. Peter Taylor decide então levar a equipa de férias para Mallorca, como prémio da boa época realizada. Clough prefere as ilhas Scilly. É de férias que ambos descobrem que o Leeds perdera o último jogo. Sem o imaginarem, tinham sido sagrados campeões.

O Maldito United

O regresso a Inglaterra foi eufórico e a figura de Clough mitificada pela televisão como o novo rosto do futebol inglês. Na época seguinte o clube falhou repetir o titulo devido à ambição de Clough em vencer a Taça dos Campeões Europeus. O Derby foi eliminando todos os rivais até a uma duríssima meia-final contra a Juventus.

A equipa saiu injustamente derrotada, com uma histórica péssima arbitragem, e os italianos acabaram por apurar-se. De volta a casa a direção aproveitou para punir Clough pelos seus consequentes braços-de-ferro e destituiu-o.

A má classificação na liga e os constantes artigos críticos e entrevistas dadas pelo técnico foram a desculpa perfeita. Durante uma semana a cidade viveu em rebuliço e quando se anunciou que Mackay tomaria controlo do clube, Clough e Taylor aceitaram a promissora oferta do Brighton. Taylor ficou na costa sul mas Clough acabou por aceitar um presente envenenado: suceder ao seu eterno rival ao comando do Leeds Unitd.

Foram 44 dias de inferno retratados num livro  que se tornou filme e que popularizou ainda mais a figura de Clough. O despedimento anunciado podia ter acabado com a sua carreira. Mas acabou por dar-lhe novo impulso. Sem contrato, Brian Clough aceitou a proposta do Nottingham Forrest, então um clube da parte baixa da tabela da Division II. Taylor voltou a juntar-se ao seu staff técnico e a dupla começou um novo projeto do zero. Um projeto histórico.

Nottingham, o mais surpreendente dos campeões europeus

Em 1977 a equipa venceu a Division 2 de forma categórica e no ano seguinte confirmaram a sua natural superioridade no futebol inglês ao vencer a liga inglesa com sete pontos de avanço sob o Liverpool. O jogo que consagrou Clough como campeão – apenas um de três técnicos a vencer a liga inglesa com dois clubes distintos – seguiu-se a outra histórica vitória, a League Cup ganha ao Liverpool que se viu incapaz de contrariar a eficácia do onze do Forrest.

Na época seguinte Clough fez história ao pagar 1 milhão de libras (apesar do técnico ter passado um cheque no valor de 999,999 mil) por Trevor Francis. Era a primeira grande transferência do futebol mundial a atingir tais valores. A opção revelou-se acertada e o dianteiro foi fundamental na campanha europeia do clube. Era o calcanhar de Aquiles do técnico mas a mítica final contra o Malmo confirmou o dedo mágico do técnico. E se parecia que melhor era impossível, em 1980 o Nottingham voltou a vencer o troféu, frente ao Hamburg SV, tornando-se na única equipa da história do futebol a deter mais Taças dos Campeões que ligas. Nessa época a equipa tinha sido batida pelo Liverpool o que terminou uma histórica série de 42 jogos sem perder, algo que só o Arsenal de Wenger conseguiu superar. Só dez anos depois, em 1988, o técnico voltaria a conhecer o sabor da vitória ao vencer a League Cup.

O adeus a Taylor e a dependência do álcool

Durante essa década o clube tinha-se estabelecido a meio da tabela e Clough, cada vez mais afetado pelo alcoolismo, perdera parte do seu encanto e frescura. Entrara em conflito com o seu eterno número dois, Peter Taylor, depois que este renunciou a uma pré-anunciada reforma para aceitar treinar o Derby County sem consultar o seu amigo. Quando Taylor morreu, depois de uma longa doença, os dois homens que tinham revolucionado o futebol inglês estavam há praticamente uma década sem se falar. Clough nunca se perdoou. Dois anos depois, em 1993, depois de 17 anos aos comandos do Nottingham e cansado de lutar sozinho contra uma nova realidade, Clough abandonou o clube e os relvados. Durante anos trabalhou como colaborador de revistas e jornais, cimentando a sua figura de showman alimentada desde o primeiro dia da sua carreira profissional, até que acabou por falecer em 2004.

Clough foi um visionário, um homem que viveu a anos-luz da sua era. Antecipou o poder mediático que rodeia o futebol e a figura do Manager em particular. Bateu todos os seus grandes rivais em campo e mostrou ser perito em transformar modestas equipas em máquinas de ganhar. Sempre jogando bem. Foi um D. Quixote contra o sistema e um ídolo para os jogadores que trabalharam com ele que aprenderam a amá-lo e teme-lo em proporções iguais. O seu carácter impediu-o de trabalhar em clubes de primeira linha o que provavelmente teria ampliado o seu registo de triunfos. Não é por casualidade que ainda hoje é considerado como o maior treinador britânico dos que nunca treinaram a seleção britânica. Um verdadeiro génio dos bancos bigger than life.

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