Antes do inesperado Mundial conquistado em 1954 o futebol alemão parecia ter poucos motivos para estar orgulhoso mas a verdade é que provavelmente a mais brilhante das suas equipas históricas tenha tido uma breve mas triunfal existência anos antes. Em Wroclaw, então Breslau, a Alemanha demonstrou que podia competir com os  melhores do mundo antes que a política do regime Nazi tenha deitado por terra as suas legitimas aspirações a fazer história.

Uma cidade de dois nomes e um sonho perdido

Wroclaw é uma cidade com memória.Durante séculos foi repartida a bel-prazer entre as grandes potências da região. Hoje é uma das mais belas urbes da moderna Polónia. Nos anos trinta pertencia à Alemanha, reflexo da velha herança prussiana. O nome era outro. Breslau, chamavam-lhe os alemães. Aí, a 16 de Maio de 1937 subiu ao relvado do estádio local aquela que foi talvez a melhor seleção de sempre do futebol germânico. Maior que a do “Milagre de Berna”, maior que a seleção dos títulos mundiais de 1974 e 1990? Para o folclore futebolístico alemão não há comparação. Foi em Breslau que a “Mannschaft” nasceu verdadeiramente. Um ano depois, quando a Alemanha se deslocou a Paris para disputar o Mundial, pouco restava desse sonho. A política tinha abortado a possibilidade dos alemães vencerem o seu primeiro Campeonato do Mundo.

O fantasma de Breslau foi impossível de esquecer. Para acomodar os sonhos políticos da elite Nazi que sonhavam com um “Anchluss” em todos os aspectos da sociedade alemã, o combinado nacional foi obrigado a misturar jogadores alemães e austriacos. A sua inimizade era conhecida e o modelo foi um fracasso tremendo. Grandes jogadores alemães foram vetados da seleção para abrir espaço para grandes jogadores austríacos que não queriam lá estar. E no espaço de meio ano um genuíno candidato a interromper a hegemonia italiana transformou-se numa farsa de equipa eliminada á primeira por uma formação muito inferior no panorama internacional. Tudo isso poderia querer indicar que realmente os alemães não eram tão bons como podiam pensar mas Breslau estava lá e sempre esteve, na memória dos que sabiam que tudo podia ter sido distinto.

Herberger, o carrasco do seu próprio sonho

Foi Sepp Herberger o homem encarregue de limar asperezas e por ponto final a um sonho que tanto acarinhava. Quatro meses antes tinha tido nas mãos uma equipa fantástica, genuína candidata ao título mundial. Agora estava forçado a destruir a sua própria herança em nome de um homem que detestava tudo o que tinha relação com o desporto. Adolf Hitler não gostava de futebol. Não o entendia. A única vez que foi visto num estádio de futebol, presenciou a derrota da Alemanha contra uma modesta Noruega nas Olimpíadas de 36. Um mau augúrio. Mas a sua palavra era lei num país que tinha submetido à sua vontade-de-ferro num tempo recorde. E agora o Fuhrer exigia do selecionador nacional alemão que cumprisse os desígnios da nação pan-germânica. Unir numa super-equipa os melhores jogadores alemães com a nata do futebol austríaco. Meses antes, o exército alemão entrara sem resistência em Viena. Hitler reclamou publicamente que tinha sido convocado pelo próprio chanceler austríaco. A verdade era bem mais complexa. O homem que tinha nascido em Brannau, na fronteira limítrofe entre os dois países, há muito que sonhava criar uma grande nação germânica. Em 1933, pouco depois de assegurar o poder num golpe-de-estado interno, ameaçou invadir a Áustria.

Foi Benitto Mussolini que deteve a sua ambição então. Era a época em que o fascismo italiano ainda era mais respeitado que o ascendente poder dos nazis alemães. Quatro anos depois os papéis tinham-se invertido e agora era Mussolini quem dependia politicamente do consagrado Hitler. Os austríacos receberam resignados o seu compatriota. Mas a maioria não se mostrava entusiasmada com a possibilidade de serem anexados ao império controlado por Berlim. O “Anchluss” significou também o fim da velha cultura judaica vienense e foi um tiro no coração do orgulho da nação, a “Wunderteam”.

A seleção mais popular da sua geração estava condenada a desaparecer dentro de um projeto colectivo com jogadores que os austríacos consideravam inferiores. Sepp sabia que jamais seria possível juntar dois grupos tão diferentes. No seu diário, a genuína bíblia do futebol alemão, escreveu que “qualquer pessoa que entenda de gestão de grupos sabe que esta união não faz sentido”. Mas as suas palavras caíram em ouvidos moucos. Ninguém estava preparado para desafiar o homem que tinha a Europa em suspense. A contra-gosto, convocou para uma reunião em Munique os habituais internacionais de ambos países.

A ascensão da Alemanha de Otto Nerz

A história da seleção alemã até a esse momento não estava repleta de grandes gestas. Hoje a “Mannschaft” parte para cada competição internacional na lista de favoritos. Nem sempre foi assim. Até á chegada dos Nazis ao poder era um desporto mal visto mas depois da purga dos atletas e dirigentes judeus, começou a aparecer o dinheiro tão necessário para transformar o esqueleto das competições. A seleção nacional saiu enormemente beneficiada desta injecção de vida. Liderada pelo ambicioso Otto Nerz, um alemão de outros tempos, adepto apaixonado de uma abordagem militarista e fanático do jogo da escola inglesa, a Alemanha começou a encontrar o caminho da vitória. Nerz era um pragmático ambicioso. Estava disposto a tudo para levar a Alemanha ao topo. Um dos seus primeiros cavalos-de-batalha foi a sua tensa relação com as estrelas do Schalke 04. O clube da comunidade mineira de Gelsenkirchen era o único que praticava um modelo de jogo similar ao da escola danubiana no país. Chamavam-lhe o “Kreisel”, um jogo associativo de passe curto inspirado no modelo escocês. Com ele o Schalke tornou-se na força hegemónica do campeonato alemão durante os anos trinta. Venceram seis ligas, duas taças e onze campeonatos regionais. Mas nunca conseguiram convencer Nerz da valia do seu modelo de jogo.

O selecionador entrou em conflito aberto com Erns Kuzorra, a estrela goleadora da equipa, e Franz Szepan, o génio criativo. O primeiro jogou apenas dois encontros internacionais consigo. Szepan esteve perto de seguir o mesmo caminho. Durante dois anos forçou-se a si mesmo a um exílio voluntário. Mas os adeptos alemães sabiam que era o único jogador de classe mundial do país. E a seleção necessitava de contar com ele. Aproximava-se o Mundial de Itália e com este a ambição do partido Nazi de mostrar ao mundo que os alemães estavam num rumo ascendente. Nerz e Szepan fizeram temporariamente as pazes e a equipa germânica realizou um torneio memorável, contra todas as expectativas. Caíram nas meias-finais contra a experiente Checoslováquia mas no duelo para a atribuição da medalha de bronze bateram a célebre “Wunderteam”. Algo parecia estar a mudar quando os Jogos Olímpicos de 1936 devolveram a seleção ao seu particular pesadelo.

Com uma equipa repleta de jovens promessas escolhida a dedo pelas autoridades políticas que controlavam a federação para agradar ao Fuhrer, a Alemanha caiu com a Noruega. Antes do jogo acabar Hitler saiu do estádio. O mandato de Nerz tinha chegado ao fim. O seu braço-direito, o jovem Sepp Herberger, foi eleito para substitui-lo mas ao antigo selecionador foi-lhe permitido manter-se num comité de decisão que tinha por missão supervisionar os trabalhos da seleção. Herberger e Nerz eram amigos. Tinham também ideias parecidas relativamente ao grupo de jogadores a eleger. A grande diferença estava no modelo de jogo que queriam aplicar. Herberger era um apaixonado do futebol de origem escocesa, aplicado pela escola danubiana, por oposição ao modelo britânico de Nerz. Durante anos tinham discutido mas o jovem e obediente Sepp tinha aprendido a obedecer. Agora tinha chegado a sua oportunidade. A de mostrar que os alemães podiam ser tão bons no futebol como os austríacos, checos, húngaros ou italianos.

De Gelsenkirchen para o Mundo

Herberger começou o seu trabalho recuperando a herança do Schalke 04.

Durante os anos de Nerz, o talento individual de Szepan tinha sido acompanhado de jogadores fisicamente fortes. Era um solista no meio de uma orquestra de músculo. Para resolver o problema, Sepp convocou, pela primeira vez em vários anos, três jogadores do Schalke 04 para a linha ofensiva da seleção. Nenhum deles era Kuzorra. A idade tinha deixado a sua marca no jogador que agora pesava mais de noventa quilos. Para o seu lugar o técnico chamou o versátil e rápido Adolf Urban. Para o meio-campo, como apoio directo a Szepan, foi igualmente convocado o seu companheiro de equipa Rudi Gellesch. O génio criativo podia, finalmente, sentir-se em casa. Havia poucos jogadores como ele. Orgulhoso das suas origens humildes, Szepan era um mineiro em tudo menos na atividade profissional. Com a camisola azul ao peito sentia que representava a sua comunidade. Casado com uma das irmãs de Kuzorra, era visto regularmente nos pequenos campos de areia do bairro de Schalke, desafiando os mais novos.

Ao contrário do playboy Meazza ou do filosófico Sindelar, era o verdadeiro representante da visão mais operária e popular do futebol. E por isso, apesar da imensa rivalidade que o clube de Gelsenkirchen despertava, era também uma figura consensualmente admirada em toda a Alemanha. Para Herberger era algo mais. Um intérprete único das ideias que defendia e uma figura fundamental para a sua seleção. Ter Szepan contente era o primeiro passo. Mas não o único. Rodeá-lo de jogadores talentosos e influentes era igualmente importante. Sem abdicar totalmente do trabalho de Nerz, trouxe sangue novo à seleção e treinou-a debaixo da mesma ideia de um jogo vertical, fluido mas colectivo em que a bola devia ser o elemento protagonista. Com base nessa filosofia, o seu mandato arrancou com vários jogos amigáveis que se saldaram em vitórias. Tudo parecia indicar que a derrota com a Noruega tinha realmente sido mais um reflexo negativo de políticos transformados em treinadores do que o falhanço de uma ideia. E depois chegou o jogo com a Dinamarca.

E a história do futebol alemão mudou para sempre. O encontro amigável foi agendado para Breslau, uma cidade na fronteira com a vizinha Polónia. Não era uma escolha inocente da federação. Adolf Hitler tinha-se decidido a expandir as fronteiras da Alemanha a todas as zonas onde houvesse uma maioria de habitantes germânicos. A zona ocidental da Polónia era uma dessas áreas e levar a seleção até Breslau era um convite aos que viviam do outro lado da fronteira a  assistirem ao jogo. O rival, a também vizinha Dinamarca, não assustava mas a lembrança da derrota com os noruegueses permanecia viva. O resultado surpreendeu até o próprio Herberger.

Breslau, o jogo perfeito

A Alemanha jogou com imaginação, verticalidade e versatilidade. Os jogadores moveram-se da sua posição habitual sem complexos, surpreendendo constantemente os seus marcadores. Szepan pautou o ritmo de jogo a seu belo prazer mas o trabalho de Siffling, o avançado centro, como falso-nove foi igualmente determinante. Pela primeira vez na sua história os alemães jogavam confiantes nas suas capacidades. Ernest Lenher abriu o marcador aos sete minutos. Ao intervalo os alemães já venciam por quatro golos a zero com um hat-trick de Siffling. O veloz e letal dianteiro marcou mais dois no segundo tempo, ampliando para cinco a sua marca pessoal. Depois foi a vez dos membros do Schalke 04 darem o seu toque particular ao encontro. Urban marcou ao minuto 70 e Szepan, simbolicamente, disparou sem oposição para fechar o marcador. Os dinamarqueses apenas podiam servir de testemunhas do festival de futebol ofensivo do rival. O 8-0 final poderia parecer um marcador excessivo para qualquer um que não tivesse testemunhado a facilidade com que a Alemanha tinha passeado em campo.

O país estava eufórico. A equipa foi imediatamente catalogada como o “Breslau Elf”, o Onze de Breslau. O nome ficou para a posteridade, provavelmente a mais célebre de todas as expressões da história do futebol alemão. Herberger estava deliciado com os seus jogadores. Tinha sido uma exibição de força, eficácia e talento como a Alemanha nunca vira. Era também o quinto jogo consecutivo sem perder. A um ano do Mundial, começava a surgir a convicção que a seleção alemã podia ser genuína candidata ao título mundial em França. Os britânicos permaneciam convencidos no seu isolamento, os austríacos estavam claramente em decadência e apenas os italianos tinham demonstrado ser capazes de manter a forma que os tinha levado a vencer o Campeonato do Mundo três anos antes. A opinião não era exclusiva do staff técnico da seleção. Os jornalistas europeus que tinham testemunhado o festival de golos do “Breslau Elf” eram da mesma opinião. Era preciso ter em atenção uma seleção que, em Itália, com um onze bastante mais débil, tinha sido capaz de chegar às meias-finais. Com uma versão claramente melhorada, quem sabia qual era o seu limite? Uma pergunta que nunca teve resposta. Acabaram por ser os próprios alemães os principais responsáveis pelo fim abrupto do “Breslau Elf” e, com ele, da candidatura ao título mundial.

O desastre de Paris e o fim do sonho de Breslau

Antes do “Anchluss” a Alemanha tinha formalizado a sua participação no Mundial ganhando o único grupo de apuramento com quatro seleções. Vitórias frente a finlandeses, estónios e suecos serviram para carimbar o passaporte para França com autoridade. Os austríacos tinham logrado o seu bilhete depois de bater a Letónia por um modesto 2-1. A FIFA estava preparada para que ambas as seleções disputassem a competição apesar da anexação formal da Áustria ao Reich alemão. Herberger defendeu até ao fim essa ideia. Era a única forma de manter a sua invenção fora do controlo político. Mas Hitler foi inflexível. A equipa que viajasse ao Mundial não só teria de contar com representantes de ambas as seleções, como tinha de ser uma equipa paritária com seis jogadores de um país e cinco de outro. Preferencialmente, os dirigentes da federação fizeram saber a Herberger, a equipa devia ser rotativa para que de jogo para jogo o 6+5 fosse alterado entre austríacos e alemães. Para mais, o conselho era de que fosse dada primazia aos jogadores austríacos.

Eram mais populares e tinham chegado agora ao Reich. Um gesto de simpatia de Berlim seria positivo para cimentar a união entre os estados. E para desunir ainda mais o balneário. Sem outra opção a não ser a de acatar ordens, Herberger procurou encontrar a melhor fórmula para agradar a gregos e troianos. Szepan era a sua figura-chave e o facto de Sindelar ter confirmado a sua retirada internacional permitia-lhe, pelo menos, evitar esse debate. Mas todas as restantes posições estavam em aberto. Num amigável a semanas de arrancar o Mundial, os alemães foram derrotados por uma seleção inglesa que ficou mais célebre por ter realizado a infame saudação nazi do que pela vitória por 6-3. O jogo contribuiu apenas para Herberger confirmar que seria muito difícil sobreviver quando os próprios colegas de equipa pareciam jogar uns contra os outros.

Passaria-se exatamente o mesmo em França. Com consequências bastante mais dramáticas. A 4 de Junho a Alemanha estreou-se finalmente no Campeonato do Mundo. Os desacertos de marcações entre os atletas alemães e austríacos permitiram aos helvéticos terem algumas oportunidades de golo. Aproveitaram uma delas, mesmo ao cair do pano da primeira parte. O jogo acabou com a igualdade com que tinha arrancado e um encontro de repetição foi agendado para cinco dias depois. O jogo acabou com uma vitória para os suíços por 4-2. Um choque de proporções épicas. A soma de duas das grandes favoritas a vencer o torneio era incapaz de superar a primeira fase.

Os alemães acusaram os jogadores austríacos de facilitarem a derrota como forma de minar uma seleção que não consideravam sua. Por sua vez os jogadores austríacos afirmaram que os alemães eram incapazes de praticar o seu modelo de futebol rendilhado que tanta fama lhes tinha trazido anos antes. Qualquer um que tivesse assistido às exibições do “Breslau Elf” sabia que não era verdade. A Alemanha de Herberger entrou em hibernação. Mais de quinze anos depois renasceu, das cinzas do espirito de Breslau, para silenciar o mundo em Berna e acertar contas com a sua própria história.

 

1.534 / Por
  • Carlos Mordechai

    Ideia bem estúpida essa de misturar austríacos e alemães… só podia ser obra de Hitler