Brasil 82, a derrota do futebol arte

Levaram o samba para os relvados de Espanha. Sentiam-se superiores a tudo e todos, capazes de transformar qualquer desvantagem no marcador numa motivação suplementar para superar-se. O mundo rendeu-se ao seu espírito romântico e transformou o Brasil de 1982 no derradeiro símbolo do futebol perdido noutra dimensão.

A equipa desenhada para ganhar

Paolo Rossi.

Um nome. Um pesadelo. Um rosto anónimo que ganha cor, forma e movimento. Um fantasma tão grande como Gigghia. Capaz de irromper nos pesadelos dos brasileiros para lembrar-lhes que a vida é injusta por natureza. E que nem o samba mais belo consegue calar um trovão raivoso dos céus. Rossi foi o homem que acabou com o futebol romântico. O jogador que enterrou, para sempre, a ideia de que os jogadores tinham o poder de decidir em campo o que os treinadores passavam horas a desenhar nos seus gabinetes. Com o mítico jogo do estádio Sarriá, em Barcelona, acabou uma era. A da Hungria de Puskas, a da Holanda de Cruyff. E a do Brasil de Zico, o génio irmão de um revolucionário que acabou com a sua carreira para não prejudicar o irmão. O Brasil de Sócrates, o doutor de 1m92 que prescreveu a receita da Democracia Corinthiana para salvar a alma do país. O Brasil de Falcão, o homem que fez a viagem inversa de Colombo para conquistar Itália e tornar-se rei em Roma. O Brasil de Toninho, de Edér. O Brasil das mil e uma danças. Dos tambores da paz. Do amarelo e verde das camisolas das jovens que dançavam descalças. Do verde e amarelo dos homens que tocavam as trompetes. O Brasil que devolveu ao mundo do futebol a vontade de sonhar, de acreditar em algo diferente. O Brasil que caiu num jogo onde um empate teria sido o mesmo que uma vitória. Uma vitória que teria significado outra vida para o beautiful game. E que se transformou na derrota que acabou com o sonho dos românticos.

O 4-2-2-2, desenhado para a individualidade

Telé Santana foi o principal responsável pelo renascimento da alma brasileira nos relvados de futebol. Ao sucesso de 1970 sucedeu-se uma militarização da vida desportiva brasileira. A ditadura militar tinha bem controlado o estado brasileiro e queria fazer do seu maior símbolo mundial um fiel reflexo da sua política. O samba e o ritmo endiabrado foram substituídos pela disciplina militar e a força física. Os resultados ficaram pelo caminho, a aura de grandeza da geração de Pelé, do Tricampeonato desfez-se. E de repente, o Brasil deixou de ser aquela equipa hipnotizante de amarelo e azul, o sol e o céu, para ser mais um representante cinzento das consequências mais nefastas do pós-Futebol Total. O aparecimento de Santana mudou, por um curto espaço de tempo, o destino dos canarinhos.

O treinador do Palmeiras assumiu em 1980 o comando da seleção. Rapidamente decidiu montar um esquema fiel à tradição ofensiva do futebol do país, o futebol-samba ou arte, o futebol jogado com o coração, os pés e a cabeça. Tal como Zagallo em 1970, inspirado pelo ideário táctico de João Saldanha, o ambicioso treinador decidiu fazer da sua maior virtude a sua ausência. Eram os jogadores, os heróis dos torcedores,  quem dariam cartas no terreno de jogo.

Para isso, o Brasil abandonou a sua curta aventura no 4-3-3 para voltar ao 4-2-2-2. Um modelo táctico perfeito para o seu jogo de sucessivas combinações dos seus futebolistas mais talentosos, que permitia uma amplitude de campo oferecida pelas constantes subidas dos seus laterais. A Santana faltava-lhe apenas o que Zagallo tinha tido em excesso, jogadores com fome de golo. Procurou fazer da dupla Careca e Roberto Dinamite a sua versão de Jairzinho e Tostão. Não funcionou. Em vésperas de partir para o Brasil, Careca lesionou-se e foi descartado, tal como Dinamite, convocado mas em baixo de forma. O veloz Éder e o contestado Serginho foram as suas opções. O primeiro realizaria um torneio memorável, com dois golos espantosos. O segundo foi um dos calcanhares de Aquiles do escrete. Como Valdir Peres. O guarda-redes era um dos pontos fracos reconhecidos da equipa e na fase final voltou a desiludir. No momento decisivo, Zoff soube parar a ambição brasileira com a tranquilidade de um pescador da Sardenha. Peres transformou-se num anão aos pés de Rossi. E selou o destino final da sua equipa.

Uma caminhada tranquila

O Brasil vivia sobretudo da conexão do seu quarteto de criativos.

Sócrates e Toninho Cerezo actuavam como médios mais recuados. Organizavam o jogo, pautavam o ritmo, realizavam as coberturas. Mas apareciam regularmente na área de decisão, tal era a velocidade das trocas de posição com os médios ofensivos, Zico e Falcao. O menino do Rio tinha sido uma das revelações do Mundial 78 mas sofria na pele o facto de ser de uma família de opositores ao regime. Com Santana encontrou-se finalmente cómodo e exibiu todo o seu reportório de magia futebolística. Falcão, um dos poucos jogadores canarinhos capazes de se adaptar ao exigente futebol italiano com sucesso – algo que alguns dos seus colegas de equipa não conseguiram – era um devorador de relva, um condutor de homens preparado para ultrapassar o Evereste ao ritmo de Zeca Pagodinho.

Entre os quatro desenhou-se uma história de amor com a bola como denominador comum. Apesar de sofrer o golo inaugural nos jogos contra a União Soviética e a Escócia, o Brasil soube dar a volta ao marcador. Contra os soviéticos beneficiou de alguma decisão arbitral duvidosa, mas também da genialidade de Sócrates, esse homem capaz de se rebelar contra a própria sombra e do momento de futebol de rua de Éder. Os escoceses, uma excelente seleção que contava com Robertson, Archibald, Souness e Dalglish, foram neutralizados por uma dança hipnótica de camisolas amarelas. Ultrapassado o trâmite dos neo-zelandeses chegou a vez de Maradona e da Argentina. O número 10 tinha ultrapassado o seu limite contra Gentile e decidiu fazer de Batista o seu bode expiatório. Saiu do Mundial com a cabeça baixa e a vingança prometida. Sem Ardilles, Kempes e Maradona ao seu melhor nivel, os “ches” foram presa fácil. Nunca o samba vulgarizou o tango com tanta facilidade num palco mundial. Era o empate, esse resultado tão anti-brasileiro, o que faltava para abrir o caminho para o título. A celebração do futebol romântico absoluto. Para que o torneio, na sua essência, tivesse algum sentido emocional. Ninguém contava com Rossi. Ninguém contava com Bearzot. Ninguém contava com o demónio vestido de azul.

O jogo do século

A orquestra brasileira desafinou nos primeiros acordes.

A euforia italiana, alimentada por um espírito colectivo inspirado nas criticas da imprensa transalpina, desbordou por completo a frágil estrutura defensiva do Brasil e aos cinco minutos, Rossi tinha aberto o marcador. Rossi. Um jogador suspenso durante dois anos cuja carreira parecia destroçada. A suspensão terminava dois dias antes do estágio prévio ao Mundial. Bearzot, raposa matreira e teimosa, confiou nele quando mais ninguém seria capaz de fazer algo parecido. Durante quatro jogos, foi um fantasma na área, inócuo e inofensivo. Frente ao Brasil, cheirou sangue e atacou a jugular da presa. Os brasileiros não se mostraram impressionados. Em cinco jogos, era a terceira vez que começavam a perder e tinham sempre sido capazes de dar a volta ao marcador. O empate de Sócrates demonstrou-o. Tudo parecia estar sob controlo. Yemanjá dormia tranquila sobre as águas, alheia a qualquer desafio de uma velha divindade romana. Mas a Itália, que sabe mais por velha do que por diabo, não era a União Soviética ou a Escócia. Rossi ainda tinha os dentes cravados no pescoço de Valdir quando os colegas de equipa o abraçaram para celebrar o segundo golo. O que começava a levantar, pela primeira vez, dúvidas sobre questões de sonhos, pesadelos e dramas inesperados. Cabeças baixas ao intervalo? Nem por isso. O futebol-arte não só era fascinante no relvado, também transparecia um espirito de compromisso e desportivismo que hoje não sobreviveriam. Sorrisos, olhares cumplices e eufóricos. Trocas sucessivas de bola, espaços descobertos do nada, movimentações tão ousadas como um salto de Nureyev. E de repente Falcao. Paulo Roberto. Herói romano, deus brasileiro. Um remate que nem Zoff foi capaz de travar. Um remate de justiça, tão poético como qualquer outro canto de Homero. Suficiente?

Teria sido, se o Brasil tivesse sido Itália e a Itália não se tivesse atrevido a sentir-se Brasil. Com a faca e o queijo na mão, os canarinhos continuaram a desfrutar do momento. Como a Holanda de Cruyff, desprezeram o rival, a sua natureza competitiva. Não sabiam jogar de outra forma, essa arrogância era também consequência do seu espirito livre. Zoff não voltou a deixar-se enganar pelos céus. Rossi ainda sabia de cor o caminho para a baliza de Peres. Conhecia de memória aquela linha branca, aquelas redes, aquele olhar incrédulo do guarda-redes canarinho. O seu terceiro golo, o hat-trick que mais ninguém foi capaz de marcar, calou os tambores, fez corar as meninas bailarinas e gelou os dedos dos trompetistas. Sócrates teria um diagnóstico para a doença, mas os males da alma e do coração raramente têm cura. Os génios do Brasil foram insuficientes para salvar-se a si mesmos.

A 5 de Julho de 1982, o Mundial de Espanha chegou ao fim. A Itália decidiu continuar e acabou por ganhar o torneio que poucos tinham interesse em seguir. Santana e os seus profetas voltaram para casa com a sensação do dever cumprido. Não ganharam o metal precioso oferecido pela FIFA mas conquistaram o coração dos adeptos, entrando diretamente para o pódio dos campeões sem troféu. Para muitos, talvez a equipa mais memorável que não foi consagrada campeã mundial no relvado. Com eles perderam os românticos, os amantes de um futebol livre de espartilhos tácticos, os que acreditavam no individuo sobre o colectivo. Com eles perdeu-se parte da alma do jogo. Nas ruas do Rio de Janeiro, São Paulo ou Belo Horizonte, o samba continuou a tocar. As meninas de passo ligeiro a dançar e os meninos de palmo e meio a sonhar com uma camisola amarela. Uma camisola com vida própria nas entranhas da memória de um jogo que sente que deve algo a quatro mágicos de bola nos pés.

5.188 / Por
  • Raphael Alberti

    No segundo parágrafo do tópico “4-2-2-2 …” há um erro. Não é João Santana e sim João Saldanha, o militante do Partido Comunista que foi sacado do posto de técnico da seleção para a entrada de Zagallo.

    • Miguel Lourenço Pereira

      Exactamente Raphael, obrigado pela correcção.

      • Raphael Alberti

        O site de vocês é fantástico, indico para todos aqui no Rio de Janeiro! Indico o site do ludopédio http://www.ludopedio.com.br como fonte de inspiração futebolística e me ponho a disposição para ajudar no que for preciso. grande abraço! Parabéns!

  • João Noivo

    Na foto acima estão: Zico, Sócrates, Falcão e Reinaldo; mas o Reinaldo não esteve no elenco da referida Seleção-Arte que encantou o Mundo na Copa de 82, Reinaldo era centroavante, e os centroavantes convocados eram : Serginho Chulapa e Roberto Dinamite( este fora de forma e convocado para o lugar de Careca que estava lesionado).

    • Miguel Lourenço Pereira

      É verdade João,

      Reinaldo era o “Rei do Mineirão” e apesar de ter jogado com Telé várias eliminatórias e amigáveis prévias ao Mundial acabou por não ser convocado por problemas políticos que merecem uma história nas próximas edições!

  • Parabéns pela excelente matéria.
    Sou brasileiro, e ser brasileiro significa qualquer seleção de futebol brasileira será comparada com a de 82 pela mídia.
    Há algum tempo, fiz download de alguns jogos para assistir com meu pai, e realmente era um time fora do comum, mas aqui no Brasil pelo menos, os críticos ainda vivem muito deste passado já distante.

    • Miguel Lourenço Pereira

      Era sem dúvida uma selecção para a posteridade. A aura romântica de ter perdido alimentou ainda mais o imenso mito do Brasil de 82, muito mais do que o de 1986!

  • João Domingos Custodio

    Waldir Peres era um grande goleiro,falhou apenas no primeiro jogo (frango todo goleiro toma,faz parte da carreira).E não teve culpa nos gols da Itália,tendo jogado muito bem contra a Argentina.O jornalista que escreve que valdir era ponto fraco nada entende de futebol

    • Miguel Lourenço Pereira

      João,

      Ser o ponto fraco de uma equipa não quer, necessariamente, dizer que se é um mau jogador.
      Simplesmente, numa equipa de jogadores celestiais, dos melhores da história do futebol brasileiro, Waldir Peres destoava por não estar ao mesmo nível do que poderia ser, nessa época, Zoff, Arkonada, Schumacher ou Shilton!