Pode uma equipa modesta, sem historial ou um dono milionário arrombar as portas da liga mais rica do mundo? A campanha do Bournemouth no Championship inglês é um desafio a toda a lógica. O clube do sul de Inglaterra está prestes a emular um feito atípico dos anos da Premier League.

De 92º clube do futebol inglês à Premier League

Em 2008 o Bournemouth era o pior clube do sistema profissional inglês.
Em quatro ligas de 92 equipas ninguém tinha piores números que o último classificado da League Two. O destino do clube parecia selado. Não havia muito mais a que aspirar numa modesta cidade no sul de Inglaterra – uma zona historicamente sem grandes representantes no futebol profissional salvo pelos vizinhos de Southampton e Portsmouth – com um modesto estádio de dez mil lugares incapaz de atrair nenhum milionário estrangeiro. Com 4 milhões de libras de dividas, havia mesmo a dúvida de se o clube podia realmente continuar a existir. Dentro do esquema piramidal do futebol inglês havia milhares de equações possíveis de imaginar nesse Verão. Nenhuma delas incluía a possibilidade desse mesmo Bournemouth, sete anos depois, estar ás portas da Premier League.

Em sete anos muito mudou no futebol. A hegemonia internacional de Espanha e a ultrapassagem protagonizada pela Alemanha. A magia do futebol do Barcelona de Guardiola e a sua rivalidade com as múltiplas encarnações de José Mourinho. O fim da era Ferguson e a ascensão da era qatari em Manchester. Muito, efetivamente, mudou. Mas a Premier League continua a ser um oásis de riquezas para a esmagadora maioria dos clubes ingleses. Um clube fechado ao qual poucos podem ambicionar entrar. A exigência competitiva do Championship, um campeonato onde sobrevivem velhos emblemas históricos que se negam a desaparecer e ambiciosos projetos com financiamento á altura, é um importante filtro.

Só os mais ricos ou hábeis conseguem chegar ás portas da Premier e poucos se aguentam muitos anos se não conseguem encontrar uma conta bancária sem fim que sustente o exigente nível de vida para a elite. Para clubes modestos de cidades pequenas, a Premier League é uma mansão com paredes incrustadas a ouro em comparação com a casa de madeira onde vivem. É esse o mundo para o qual o Bournemouth olha com uma mistura de assombra e ilusão. O mundo ao qual quer aceder pela porta da frente. Está a poucas semanas de transformar em realidade o maior conto de fadas da história do futebol moderno inglês.

A revolução Howe, um novo Clough

Com 36 anos Eddie Howe é o motor da revolução.
Um treinador revolucionário como foram no passado outros homens que, desde o banco de suplentes, operaram milagres similares ao pegar em equipas modestas transformando-as em rivais duros de roer. Howe foi um jogador relativamente anónimo que viu a carreira ser interrompida por uma lesão inesperada. Um golpe, duro, mas que não o impediu de dedicar a sua vida ao futebol. Pendurou as chuteiras, realizou os cursos de protocolo e com 31 anos estreou-se como técnico principal numa equipa profissional. Um recorde absoluto que dificilmente será superado nos próximos anos. Cinco anos depois é um dos nomes próprios do ano desportivo em Inglaterra, cobiçado por clubes instalados comodamente no milionário mundo da Premier League.

Um mundo a que está prestes a unir-se a partir de uma base radicalmente distinta.
Tudo começou no pior dos cenários. Howe chegou ao banco a meio da temporada com a sua equipa a dez pontos da linha de salvação da League 2 depois de ter sido forçado a começar o ano com pontuação de 17 pontos negativos pelas dividas acumuladas. Garantiu a categoria apenas no último dia e com uma vitória agónica. Chamaram-lhe “A Grande Escapada” e foi, realmente, digno de um argumento de Hollywood. Foi também o inicio de tudo a partir de um imenso vazio. Com o clube finalmente solvente, em 2009 arrancou o projeto de Howe de forma definitiva. Do nada o clube passou de uma ponta á outra da tabela e foi promovido à League 1 com uma sucessão de inesperados mas categóricos triunfos. Howe temporalmente abandonou Bournemouth assinando pelo Burnley mas voltou em 2012.

Uma vez mais chegou com a equipa em situação de desespero, em penúltimo lugar da League 1. Estávamos a final de Outubro. Faltavam oito meses para o final da temporada e esse foi o tempo que o técnico necessitou para garantir a promoção ao Championship de forma espetacular. Era a segunda vez que operava um milagre. Não ia ser a última.
A estreia do Bournemouth no Championship – a segunda divisão inglesa – foi recebida com expectativa. Poucos imaginavam que o pequeno clube fosse capaz de sobreviver numa liga de ilustres. Um lugar meridiano a meio da tabela foi a resposta de Howe e dos seus aos que duvidam. Tudo estava preparado para o assalto á terceira promoção em cinco anos. Para o sonho da Premier League.

O regresso ao passado do futebol inglês

O clube foi adquirido a um conjunto de empresários que os resgataram da falência em 2011 pelo russo Maxim Demin mas o seu papel é infinitamente inferior à imagem do inversor estrangeiro. Em três anos ao leme do clube Demin limitou-se a manter as contas longe do vermelho. Não há gastos descontrolados nem uma ficha salarial ambiciosa. Com uma pequena base de apoio local numa cidade de apenas 180 mil habitantes, o Bournemouth é tudo aquilo o que a Premier League eliminou do futebol inglês. Um estádio funcional mas modesto – 12 mil lugares sentados – um conjunto de infra-estruturas atualizadas mas humildes e um plantel sem nomes ilustres ou grandes revelações que se beneficia de empréstimos pontuais dos clubes grandes de Londres para manter-se competitivo.

É claramente um projeto inspirado por um treinador – apesar da sua curta viagem ao norte – e que rompe qualquer possível prognóstico. Numa liga onde militavam equipas financiados por pequenas grandes fortunas como o Watford, ou históricos á procura de regressar ao seu lugar natural como o Leeds, Nottingham, Middlesborough ou Derby County a sua mera presença a disputar um lugar entre a elite do futebol inglês é, já por si, quimérica. A sua promoção à Premier League é um conto de fadas que desafia toda a lógica. A memoria dos dias do Blackburn Rovers de Dalglish ou do Nottingham Forrest de Clough são bem reais. Porque este é também o ADN mágico do futebol inglês.

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