Numa liga marcada pela constante violência das Barras Bravas, os jogadores de futebol têm também de saber driblar um outro tipo de perigo. As “botineras”, são uma das maiores tentações para os futebolistas argentinos e o ponto de partida para promissoras carreiras acabarem antes do tempo por uma questão de ambição e dinheiro.

Á procura do saque perfeito

Podem parecer menos perigosas que os líderes das claques organizadas que fazem de cada jogo na Argentina uma possível batalha campal. Mas não o são. Utilizam armas diferentes para alcançar os seus objectivos. Gostam de controlar, de sentir o poder. E de dinheiro. Sobretudo de dinheiro.

Talvez por isso o nome dado pela imprensa a estas caçadoras de fortunas do futebol sul-americano, um fenómeno que começou nos anos setenta na Argentina mas que hoje está presente em todo o continente latino. Se em Inglaterra elas são as WAGS (Wifes and Girlfriends), aqui o termo “botinera” é muito muito neutral. Uma conjugação dos botines – as chuteiras dos jogadores – com o “botin”, ou melhor dito, o saque de um roubo ou assalto. Um jogo de palavras que não permite segundas leituras. Elas vão atrás do ouro e sabem muito bem onde atacar.

Da mesma forma que os Barras Bravas se movem no seu mundo, procurando controlar as direções dos clubes e os próprios jogadores, as “Botineras” também têm o seu modus operandi. São figuras omnipresentes no espetáculo mediático. Estão em todos os lados. Televisões, revistas, filmes. E em bares, sobretudo em bares, os habituais locais de paragem de futebolistas, dirigentes e empresários. É aí onde tudo começa. De forma inocente, uma troca de sorrisos, de números de telefone, de promessas. Um espaço reduzido mas suficiente para começar a tecer a teia que se vai formando à volta do profissional. A maioria deles são jovens promessas, quase suplentes ainda. Mas com projeção. Elas sabem que são os mais sensíveis aos seus avanços. Jovens, muitos deles inexperientes de zonas pobres, que encontram na vida do luxo e do glamour um escape emocional para a sua infância. Prometem-lhes um estilo de vida reservado aos deuses. Em troca querem a sua fidelidade absoluta e a certeza de que a sua palavra conta, quando se trata de negociar o futuro.

De Carmen Yazalde a Mariana Nannis

A história das Botineras é antiga e remonta aos anos em que o tango pautava o ritmo da vida nos portos argentinos ,em particular nas quentes e sensuais noites de Buenos Aires. Nos dias de ouro de Carlos Gardel e Obdulio Varela, a paixão entre a música, o futebol e as mulheres ambiciosas serviu para escrever várias histórias que o tempo esqueceu. Nessa altura não era tanto as fortunas ganhas pelos jogadores – muitos deles ainda semi-profissionais – mas sim o status social de ser a acompanhante de uma estrela dos estádios que enlouqueciam as pampas. Até aos anos setenta, quando o dinheiro finalmente se começou a fazer notar no futebol argentino, o fenómeno manteve-se controlado e reduzido a meia dúzia de jogadores bons-vivant. Até que apareceu Hector Yazalde e a sua mulher, Carmen.

Yazalde era uma estrela em ascensão e tinha assinado em 1971 pelo Sporting de Lisboa. Na capital portuguesa, onde se afirmou como um dos melhores goleadores do futebol europeu, conheceu Maria do Carmo de Deus, recém-consagrada miss Portugal. Foi amor à primeira vista, com direito a casamento e celebração à altura. Quando voltaram à Argentina, Maria do Carmo tinha-se transformado em Carmen, controlando os movimentos da carreira do marido e dando inicio a uma notável carreira como actriz e modelo, estabelecendo o exemplo para todas aquelas que aspiravam a ser mulheres de futebolistas. Fez escola e encontrou em Mariana Nannis a sua sucessora natural.

Com uma infância obscura, Mariana salta para a ribalta quando começa a cortejar o célebre futebolista Claudio Cannigia, com quem partilha noites irrepetíveis pelos bares e discotecas de Buenos Aires. Consegue cumprir o sonho de qualquer “botinera”, casar-se com o jogador, e mudar-se com ele para o luxo da vida na Europa. A partir de aí transforma-se na sua agente desportiva e inaugura um estilo de vida de luxo que contrastava com a vida austera que muitos viviam no país das pampas nos primeiros anos após a ditadura. Publicamente não tem problemas em dizer que está de acordo a que jovens sem meios procurem futebolistas para mudar de vida e demonstra através das suas entrevistas exclusivas até que ponto é rentável ser a senhora de um jogador famoso. Dá o tiro de partida. A partir desse momento, inícios dos anos noventa, o fenómeno das “botineras” assalta as “canchas” argentinas.

Da noite para o dia aparecem várias modelos, actrizes ou jovens desconhecidas afirmando manter relações com jogadores – muitos dos casos eram falsos – para conquistar espaço mediático nas revistas cor-de-rosa e na televisão do país. Á medida que mais casos de sucesso se vão seguindo ao de Nannis, o fenómeno aumenta de forma descontrolada e muitos dos clubes do futebol profissional começam a proibir os seus jogadores de frequentar os espaços nocturnos ou as festas onde já sabem que estão expostos a mais uma “saqueadora”. Ao debate social seguem-se as negociações no submundo do futebol. Tal como acontece com os Barras Bravas, os dirigentes dos clubes entendem que é mais útil manter certo controlo da situação, permitindo a atuação das “botineras” de forma regrada. Algumas passam quase a trabalhar para os colegas, mudando de jogador à medida que estes mudam de camisola. Outras revelam-se fundamentais nas negociações para compra, venda e renegociação de contratos. São agentes alternativos, sem piedade e romantismo, que procuram apenas mais cifrões nos contratos para aqueles que depois as recompensarão com uma vida de luxo.

As nova caça-fortunas

A aprovação da lei Bosman nas ligas europeias implicou a abertura definitiva de fronteiras no futebol internacional. E significou a sangria de jogadores sul-americanos para as ligas europeias, onde a competitividade era maior e os salários mais atrativos. Uma realidade que não escapou às “Botineras” que agora davam-se conta de que já não era necessário procurar um futebolista famoso para fazer fortuna. Qualquer promessa ambiciosa e seguida pelos olheiros dos clubes europeus era suficiente.

De tal forma que a última década serviu como confirmação definitiva de um fenómeno que agora é tão intrínseco ao futebol argentino como os talentosos números 5, os novos Maradonas (ou Messis) e a violência nas bancadas. Criaram-se novelas inspiradas em botineras célebres, ídolos para as adolescentes femininas e exemplos que muitas estão preparadas para seguir. Para os clubes tornaram-se numa dor de cabeça constante, capazes de destroçar a carreira de jovens jogadores com um ritmo de vida louco ou de propiciar a fuga de talentos a idades cada vez mais precoces com a ilusão de uma vida entre as elites mediáticas do país. Muitos foram os promissores futebolistas que se perderam pelo caminho à custa de estas predadores sem perdão. Jogadores como Maxi Lopez, Franco Zuculini, Diego Buonanotte, Marcelo Gallardo ou Martin Palermo. Todos os meses saltam à ribalta novas pretendentes ao trono de “Botinera de Ouro”, a mais célebre, rica e popular entre todas. Desde a adolescência que procuram cumprir todos os requisitos físicos para captar a atenção dos jogadores, com operações de estética, roupa de moda e olhar provocante omnipresente. A imprensa publica regularmente as aventuras de vários internacionais quando voltam a casa e dão relatos sórdidos de como pode ser uma noite de arromba entre estrelas do nível de Sergio Aguero, Martin Demichelis, Lionel Messi e Gonzalo Higuain com botineras do perfil de Claudia Ciardone, Evangeline Anderson, Karina la Princesita ou a paraguaia Larissa Riquelme. Todas elas procuram ser as novas estrelas, as novas rainhas do futebol argentino. Talvez sem se dar conta que são um dos maiores perigos para as estrelas de amanhã do futebol “che”.

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