Durante quase quarenta anos o futebol francês sonhou com reinar nas competições europeias de clubes sempre sem êxito. O título, polémico, do Marseille, em 1993, colocou ponto final à agonia deixando pelo caminho a lenda negra de super-equipas como o Stade Reims ou o Saint-Etienne. Talvez nenhuma, no entanto, tenha tido um sonho europeu tão intenso como o Girondins de Bordeaux de Claude Bez, o homem que abriu os olhos a Bernard Tapie e ajudou a mudar o futebol francês.

Reis da Europa em sonhos

Um milionário com conexões políticas dedica-se a pegar num clube a viver anos negros e transformá-lo numa potência continental e no dominador hegemónico nacional. Um clube de uma grande cidade, chave no seu enquadramento geográfico, e com uma importante base de adeptos capaz de recrutar jogadores lendários e treinadores de alto nível. Este podia ser o resumo da etapa de Tapie em Marseille, um período entre meados dos anos oitenta e princípios dos noventa que fez do Velodrome e do clube marselhês uma referência. Mas não. O presidente polémico do Olympique, mais tarde condenado a pena de prisão por corrupção ativa no seguimento do caso Valenciennes, não estava a inventar nada de novo quando aplicou esse modelo de gestão ao clube da Cote D´Azurre mas sim a seguir a estrela do radical dirigente que transformou para sempre a vida do Bordeaux, Claude Bez, anos antes.

Com Claude Bez o Girondins transformou-se num clube histórico que roçava regularmente com a despromoção á Ligue 2 numa potência inquestionada tanto dentro como fora das fronteiras gaulesas. Fê-lo com astúcia, dinheiro mas também utilizando as suas importantes conexões políticas dentro do Partido Socialista francês dos anos de domínio presidencial de François Mitterand e com importantes desfalques financeiros nas contas do clube que precipitaram a sua queda. Uma queda terrível, rápida e sem qualquer piedade tão parecida ao fim do seu grande sonho, o de levar o clube gascão a transformar-se no primeiro emblema francês a reinar na Europa.

Jacquet, Giresse e a armada atlântica

O bigode era inconfundível. Os seus gestos também. Durante quase dez anos foram o símbolo mais evidente do dirigismo desportivo francês. Tempo suficiente para conhecer os nectares do Olimpo e os cheiros sulfúricos do Inferno. Em 1978 Bez, que já fazia parte da estrutura diretiva do Girondins como tesoureiro, foi convidado pelo presidente em funções, Jean Roureau, a assumir o cargo máximo de um clube que tinha ficado a um ponto e muitas gotas de suor de cair no precipício da segunda divisão.

Senhor indiscutível do futebol francês em toda a costa atlântica, clube sem rivais á altura a mais de quatrocentos quilómetros de distância em cada direção, de uma zona rica e politicamente relevante, parecia a Bez incrível que o Bordeaux estivesse a lutar pela sobrevivência e não pelos títulos. Desde 1950 que o clube não celebrava um título nacional apesar de quatro segundos lugares conquistados nos anos sessenta. Muito pouco para tamanho potencial.

Bez dedicou os seguintes anos a remodelar profundamente o Girondins. Utilizou cada uma das suas ligações políticas para conseguir fundos da câmara municipal – onde trabalhava anteriormente como contabilista – que sustentassem a renovação da instituição sob a base de que o êxito no campo do Girondins seria também o êxito da cidade a distintos níveis. Graças aos seus milhões pessoais e ás ajudas camarárias, o clube começava a recrutar jogadores de nível para ombrear com as grandes potências á época, sobretudo o Nantes Atlantique e o AS Saint-Etienne que vivia os seus últimos anos de glória depois de quase duas décadas na cúspide do futebol francês.

O processo, no entanto, é lento. Durante três largos anos o Girondins oscila entre metade da tabela e os postos europeus. Chegam ao clube futebolistas como Lacombe ou Sahnoun – que tragicamente faleceria meses depois, com apenas 25 anos, vitima de uma síncope cardíaca num treino – e treinadores de prestigio como Lucas Carniglia e Raymond Goethels. É no entanto em 1980 que o cenário se altera definitivamente com a chegada de um jovem técnico quase desconhecido vindo do Lyon, Aimeé Jacquet.

Com Jacquet Bez encontra a peça do puzzle que lhe faltava, um treinador com um domínio táctico superlativo, uma grande capacidade de potenciar jogadores e um homem com apetite de glória. A desgraça do Marseille – despromovido – é a glória do Bordeaux que pesca na cidade mediterrânica duas estrelas como Tresor e Fernandez que se unem assim a duas petições expressas de Jacquet, René Girard e François Bacci.

A equipa começa pouco a pouco a formar um esqueleto sólido e a escalar posições na tabela do campeonato e nos dois anos seguintes chegam igualmente internacionais como Alain Giresse, Jean Tigana, Raymond Domenech, Battiston e o alemão Dieter Mueller. Poucos plantéis na Europa têm tanto talento como o do Bordeux e o título finalmente chega em 1983/84, ano de glória para o futebol francês coroado com o título europeu de seleções conquistado em Paris semanas depois com vários jogadores do clube. Mas o sonho não era apenas reinar em França. Era necessário conquistar a Europa. E seria outro francês a colocar um ponto final na ilusão de Bez, Jacquet e companhia.

O sonho estatelado contra Platini

Em 1984 o clube estreia-se na Taça dos Campeões Europeus. Pela primeira vez em quase uma década o futebol francês tem um sério aspirante a um troféu que nem o grande Stade Reims dos anos cinquenta – duas vezes finalista vencido – nem sequer o Saint-Etienne dos anos sessenta e setenta – finalista vencido em 1976 – foram capazes de conquistar. O Bordeaux queria quebrar a malapata e entrou determinado na competição superando um dificilíssimo Athletic Bilbao, campeão espanhol, com um triunfo por 3-2 no Parc Lescure a que se seguiu um duro empate a zero em San Mamés.

As credenciais estavam apresentadas. Era preciso contar com os gauleses que nas seguintes rondas ultrapassaram o Dinamo de Bucareste e o Dniepr soviético graças a uma sequência de cinco grandes penalidades perfeitas, encerrada com o golo da última grande estrela a juntar-se á constelação, o herói português do Europeu disputado meses antes em território galo, Fernando Chalana. As meias finais ditavam um duro duelo com a Juventus, finalista vencida em 1983 e equipa da máxima estrela europeia, o francês Michel Platini. Era a antecâmara de uma final esperada com o campeão em título, o Liverpool, que no primeiro jogo das meias-finais tinha humilhado o Panatinaikhos por 4-0 em Anfield Road. O jogo grande, no entanto, estava marcado para Turim. E o choque de realidade foi duro.

A “Vecchia Signora“, muito mais experiente em duelos continentais, foi imensamente superior ao conjunto francês e impôs-se com um 3-0 claro com golos de Boniek, Briascchi e o inevitável Platini. Mas o Bordeaux não estava pronto a atirar a toalha ao chão. O ambiente criado para a segunda mão foi totalmente electrizante. O Parc Lescure estava lotado e a Juventus encontrou-se com um Girondins ambicioso e dominador que encostou os italianos ao seu guarda-redes, Taconni. Mueller abriu o marcador aos 25 minutos e quando Lacombe ampliou, aos 80, a vantagem, o sonho de uma reviravolta ganhou contornos de realidade. Faltavam dez minutos, dez largos minutos de um massacre ofensivo dos franceses que se encontraram com a tenaz resistência dos homens de Trapattoni. Faltou um golo, apenas um golo para perpetuar o duelo meia hora mais. Bez sabia que tinha tocado de raspão a glória europeia.

A decadência do modelo de Claude Bez

O Bordeux, já eliminado pela futura campeã da Europa, fechou as contas do campeonato e manteve o título nacional o que lhe permitia voltar a tentar o assalto ao trono continental no ano seguinte. Com os ingleses suspensos das competições continentais no seguinte do desastre de Heysel Park, o Bordeaux estava no lote de favoritos a vencer a competição mas de forma estrepitosa caiu na primeira ronda contra os desconhecidos turcos do Fenerbache. Foi um tremendo balde de água fria num ano para esquecer, com a derrota na corrida ao título apenas paliada com a conquista da primeira final da Taça de França depois de cinco perdidas de forma consecutiva nos anos anteriores.

Seguiu-se uma campanha de novo decepcionante na Taça das Taças, caindo nos quartos de final com o futuro finalista, o Lokomotiv Leipzig, em grandes penalidades mas compensada pelo triunfo, pela primeira e única vez na história do clube, da dobradinha título-taça nas competições nacionais. Era a última oportunidade de assaltar a Europa para uma envelhecida geração de internacionais a quem Jacquet não tinha dado sequência com caras novas. A aventura arranca bem, com a eliminação do Dinamo de Berlim e do Lillestrom, mas tropeça contra o PSV Eindhoven nos quartos-de-final. Como sucederia em todas as eliminatórias dos holandeses até á final, o duelo decide-se depois de dois empates com a vantagem dos golos fora a beneficiar os homens de Hiddink. O golo de Wim Kieft no Lescure colocou definitivamente o ponto final á história de Bez que agora tinha em casa um rival temível na figura de Bernard Tapie.

O Marseille tinha imitado o seu modelo e com uma nova e flamante geração de talentos. O onze dos gascões, profundamente envelhecido, era incapaz de competir de igual para igual e á medida que as grandes estrelas se retiravam ou abandonavam o clube, no caso de Giresse e Tigana para o próprio Marseille, o Bordeaux ia tropeçando na tabela classificativa.

Em 1991 o clube acabou por ser despromovido, depois de uma investigação da federação que condenou igualmente Bez, demitido do cargo presidencial e acusado de desfalque financeiro. O homem que tinha sido pioneiro em defender a venda dos direitos televisivos em pack caía agora em desgraça, depois de confessar aos crimes de que era acusado além de assumir que oferecia regularmente a árbitros europeus o acesso livre a prostitutas de luxo antes dos jogos disputados em casa com a ajuda do empresário jugoslavo Ljubomir Barin, um dos homens de confiança mais tarde do próprio Tapie.

Em 1994 Bez é finalmente condenado a dois anos de prisão, saindo a tempo de ver o Bordeaux marcar presença na sua única final europeia – a Taça UEFA, contra o Bayern. O seu legado marcou profundamente a história do futebol francês mas o sonho de levar o Bordeaux á glória continental ficou por cumprir.

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