Foi o último treinador inglês a vencer uma competição europeia e a levar a seleção inglesa ás meias-finais de um torneio internacional. Triunfou nas ilhas e no continente, com clubes e seleção e ainda assim poucos se atrevem a colocar-lhe ao nível das grandes lendas dos bancos ingleses. Os números, no entanto, não mentem e Bobby Robson foi, sem dúvida, o último herdeiro da geração mítica dos managers.

O inesperado rei de Ipswich

Robert Robson provavelmente um dos maiores gentlemans da história do desporto-rei. Durante quase quarenta anos provou que o seu estilo, sempre correto e educado, tinha lugar num desporto cada vez mais envolto em picardias e confrontos. Começou a brilhar numa era de treinadores guerreiros como Brian Clough ou Bob Pasley, herdeiros diretos da escola de Bill Shankly. Eram os jogos psicológicos, tão de moda nas ilhas britânicas, que então atraiam o público. Mas não o jovem Robert “Bobby” Robson, chamado então a converter-se num dos mais bem sucedidos treinadores da história do futebol inglês. Foi jogador durante os anos 50 e 60 no West Bromwich Albion e mais tarde no Fulham londrino, tendo sido internacional pelos Pross por várias vezes, incluindo uma participação nos Mundiais de 1958 na Suécia e 1962 no Chile, um avançado versátil, rápido e com boa execução. No entanto foi como treinador que Bobby Robson começou a fazer-se notar . O seu primeiro grande projeto foi o Ipswich Town, um clube modesto da zona de East Anglia, que vivia uma época tranquila quando chegou o jovem treinador para dar inicio a uma nova era. Esteve em Ispwich 14 temporadas e no final da sua etapa como técnico chegou o seu triunfo mítico na F.A. Cup (1978), seguido quatro anos depois pela sua primeira vitória europeia, na Taça UEFA, numa final contra o AZ Alkmaar. Daí passou para o banco da seleção inglesa, orfã de triunfos há quase duas décadas.

Travado pela mão de um Deus e um ressalto inesperado

O fracasso estrepitoso da Inglaterra na segunda ronda do Mundial de 1982 – dois jogos, dois empates – marcado sobretudo pela falta de coragem do selecionador Ron Greenwood em abdicar de um Keegan em evidentes problemas físicos, o posto de selecionador voltou a ficar vazio. A maioria dos adeptos voltou a pedir a Brian Clough para o cargo mas a Football Association preferiu um perfil muito mais de acordo com o seu historial e elegeu Robson. Depois de falhar o apuramento para o Euro 1984 – as primeiras vitimas da ascendente Danish Dynamite – Robson conseguiu levar a Inglaterra aos três torneios seguintes, uma serie triunfal que o futebol inglês não vivia desde o reinado de Alf Ramsey entre 1966 e 1970.

A primeira aventura internacional do selecionador foi o Mundial de 1986. Na prova azteca, os ingleses começaram com o pé esquerdo, superados por Portugal, mas graças aos golos de Liniker, triunfaram no grupo e depois eliminaram com autoridade o Paraguai nos oitavos de final. Na ronda seguinte, Robson preferiu focar o desenho da equipa em bloquear o génio de Maradona e apostou claramente num 3-5-2 que deixou no banco os seus jogadores mais criativos, John Barnes e Glenn Hoddle. O esquema parecia funcionar até que El Pibe soltou todo o seu arsenal de truques, primeiro num golo ilegal com a mão e, minutos depois, com o maior exercício a solo da história do futebol. Com as mãos na cabeça – como anos mais tarde faria com Ronaldo, agora ao seu serviço – Robson entendeu que não havia nada que pudesse fazer. Ainda devolveu algo de orgulho aos Pross lançando Barnes e Hoddle que ajudaram Liniker a marcar um golo para maquilhar o marcador final.

Dois anos depois os ingleses chegaram á Alemanha no grupo da morte com elevados expectativas mas a campanha acabou por ser decepcionante e a equipa da Rosa caiu inclusive com a vizinha Irlanda para ficar no último lugar do grupo. Estava claro que a era Robson tinha chegado ao fim e antes do Mundial de Itália já se sabia que o técnico ia abandonar o posto. Talvez essa sensação de inevitável destinado transformou por completo os ingleses que venceram o grupo com dois dos seus rivais do ano anterior – irlandeses e holandeses – para depois superarem Bélgica e Camarões, de forma in extremis, no primeiro caso com um oportuno golo de Platt e nos quartos-de-final com dois penaltis anotados por Liniker quando os africanos dominavam claramente o jogo. O génio á solta de Gascoigne, os golos de Liniker e a solidez defensiva do 3-5-2 de Robson parecia estar a resultar e pela primeira vez desde 1966 os ingleses voltavam a uma meia-final de um Mundial. Em Turim, no jogo decisivo, foram melhores que a Alemanha de Beckenbauer mas acabaram por ser vitimas de um golpe desastrado em Parker que enganou o veterano Shilton após um livre de Bremhe. Forçados a decidir o futuro nos penaltis, os ingleses claudicaram – foi a sua primeira eliminação desde a marca de grandes penalidades, o inicio de uma larga saga de desastres – mas ainda assim o questionado Robson terminou por conseguir o segundo melhor resultado da história do futebol inglês ao lograr o quarto posto. Tinha saído com a cabeça bem alta.

Senhor absoluto na Holanda e Portugal

Finalizada a notável carreira como selecionador saiu das ilhas para orientar o PSV Eindhoven onde esteve dois anos conquistando as duas ligas lançando para o estrelato o jovem Romário. Os holandeses tinham vivido anos antes uma era de apogeu da mão de Guus Hiddink, conquistando em 1988 a Taça dos Campeões Europeus ao mesmo tempo que afirmavam a sua hegemonia interna num duelo contra o Ajax de Johan Cruyff. Eindhoven era uma cidade a fervilhar de emoção e Robson encontrou rapidamente o modo de recuperar a sensação de treinador no dia a dia que tinha perdido durante os oito anos anteriores. As duas ligas consecutivas da equipa da Philips foram o coroar de um biénio de hegemonia indiscutível mas que não voltou a traduzir-se em sucesso europeu e em 1993 o técnico trocou a Holanda pelo futebol português.

Sousa Cintra foi buscá-lo para o liderar o projeto mais ambicioso do seu Sporting mas uma derrota em Salzburg afastaram-no de uma das melhores equipas leoninas da história. O Sporting era líder do campeonato e contava com argumentos suficientes para colocar ponto final a uma década sem títulos mas a saída abrupta de Carlos Queiroz do posto de selecionador precipitou a mudança. Sousa Cintra pensava que o treinador português era o homem certo para liderar o futuro leonino. Despedido de forma amarga, Robson acabou por ficar em Portugal, substituído a Ivic no FC Porto, uma decisão certeira de Pinto da Costa que estava a aguentar o treinador jugoslavo á espera de encontrar uma alternativa sólida para o lugar.

Com ele levou parte do seu staff técnico onde estava já o seu inseparável tradutor, José Mourinho. Nas Antas arrancou para um notável final de época -logrando ultrapassar os próprios leões de Carlos Queiroz no final de uma temporada de loucos que terminou com o Benfica campeão – e montou a base da equipa que ia conquistar o primeiro Penta. Entre 1994 e 1995 venceu dois títulos de campeão e uma Taça de Portugal. Lançou as bases de uma era dourada para os dragões com uma geração única mas foi também na Invicta que viu a carreira ser interrompida pelo cancro que lhe tinham diagnosticado anos antes. Durante meses esteve em tratamento e foi Augusto Inácio que acabou por orientar os campeões rumo ao bicampeonato. No final da época foi seduzido por Josep Luis Nuñez e partiu para Barcelona. Dez anos antes os blaugrana tinham vivido dois anos inesquecíveis com outro treinador inglês, Terry Venables, agora selecionador inglês e depois de enterrar o Cruyffismo contavam com outro técnico insular para recomeçar o projeto.

Três títulos num ano não foram suficientes

Na cidade Condal Robson esteve apenas uma época mas viveu-a repleta de títulos.

Do Porto levou consigo Vitor Baía, Fernando Couto e José Mourinho. E com Figo, Ronaldo, Luis Enrique, Guardiola e companhia terminou a época no segundo posto, venceu a Taça do Rei e a Taça das Taças, diante do PSG bem como a Supertaça espanhola. Titulos insuficientes para a direção blaugrana que o substituíram por Louis van Gaal. A derrota contra o Real Madrid de Fabio Capello precipitou a queda do inglês que, no entanto, tinha demonstrado estar a montar uma equipa temível, guiada sobretudo pelo génio de Ronaldo Nazário que viveu nesse ano a sua explosão definitiva. Robson montou a base que van Gaal, no ano seguinte, aproveitaria para levar o Barça a um bicampeonato inquestionado. A Robson restou-lhe começar o caminho inverso. Voltou para o PSV mas sem o mesmo sucesso da primeira etapa. A doença começava a miná-lo e depois de vários anos parado, acabou por tomar as rendas do seu Newcastle, onde treinou até 2004 passando posteriormente a diretor técnico, devolvendo a ilusão e esperança aos Magpies depois da atribulada era de Ruud Gullit ao leme do clube de Tyneside. Finalmente, de forma trágica, a doença triunfou e o treinador abandonou definitivamente os relvados, passando os últimos anos numa luta inglória e épica.

De Bobby Robson ficam conferências de imprensa marcadas pela absoluta sinceridade em todos os países por onde passou (incluindo a mítica conferência na Luz onde declarou que o derby, que então deu o titulo aos encarnados, tinha sido um “Mozer 2-0 Fernando Couto”), as sempre corretas palavras com os seus rivais e o seu estilo de general tranquilo. Foi o mentor desportivo de José Mourinho, do qual se queixou mais tarde que nunca o reconheceria, e o exemplo do futebolista gentleman britânico que nos bancos não deixou de ter o comportamento perfeito que exibiu em campo. Numa era onde os símbolos escasseiam cada vez mais, onde os técnicos se matam numa refrega constante, sir Bobby Robson ficará sempre na história como um dos maiores nomes que nos deu este desporto tão belo a que o próprio Bobby sempre se referia como “the beautiful game”.

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