Blazevic e a origem do 3-5-2 Há muitos que reclamam a paternidade do 3-5-2 mas entre eles há um homem com razões para sentir-se o principal protagonista desta saga táctica

Nos anos oitenta o futebol reagiu ao fim do Futebol Total e à estagnação do 4-4-2 de inspiração britânica com um regresso ao passado e à época dos três centrais. Num curto espaço de tempo começaram a brotar distintos projectos que colocavam o ênfase na importância de um novo modelo adaptado a um mundo sem extremos clássicos. Contra o que muitos podiam imaginar o pioneiro da metamorfose não chegou do futebol nórdico ou argentino. Foi na velha Jugoslávia que o 3-5-2, hoje tão de moda, verdadeiramente deu sinais de vida.

A consagração do 3-5-2 em França

Em 1998 a selecção da Croácia tornou-se na grande sensação do Campeonato do Mundo.

Não era novidade que o jovem país dos Balcãs tinha potencial, algo que o Europeu de Inglaterra, dois anos antes, já tinha claramente demonstrado, mas no torneio em solo gaulês ficou claro que os croatas tinham armas e argumentos para ambicionar fazer parte da elite continental. Mais além do enorme talento individual de alguns dos seus internacionais, com Davor Suker, Zvonimir Boban, Robert Prosinecki ou Robert Jarni à cabeça, os croatas contavam igualmente com um modelo táctico que encaixava perfeitamente nas debilidades mais evidentes dos modelos tradicionais dos anos noventa, onde os pontas-de-lança de elite começavam a escassear e o jogo, cada vez mais, se disputavam no miolo. Depois de uma difícil fase de grupos, onde se viram superados pela Argentina – os croatas colocaram em prática o seu particular modelo de jogo e graças a ele foram eliminando os favoritos romenos e alemães até alcançar as meias-finais onde ficaram a um breve suspiro de dar uma das maiores surpresas da história do futebol, não fosse a presença salvadora de Lilian Thuram nessa noite quente de Paris. Para não deixar dúvidas, o terceiro lugar conquistado contra uma, isso sim, desmotivada Holanda, confirmava o êxito prático da teoria. E reivindicava, definitivamente, a polémica figura de um pioneiro, o seleccionador Miroslav Blazevic.

O pai espiritual do futebol croata tinha sido determinante na aplicação táctica, em 1993, quando se fez com o cargo de seleccionador, de uma versão francamente ofensiva e vertical do 3-5-2 que tinha conhecido o seu auge nos anos oitenta mas que, depois da explosão do modelo de Arrigo Sacchi em Milão e da progressiva passagem do velho 4-4-2 para um mais moderno 4-2-3-1, parecia estar em declive. Blazevic não acreditava nessa tão anunciada morte e desde o principio inculcou esses princípios à sua talentosa geração de jogadores – muitos deles parte da equipa campeã mundial de sub-20 com a Jugoslávia, em 1989 no Chile – formando assim um conjunto sólido, compacto e com vontade de vencer. Em 1996 a equipa croata aterrou em Inglaterra silenciosamente, como underdogs num grupo onde os favoritos eram os campeões em título, a Dinamarca, e a geração dourada portuguesa.

Os lusos acabaram por vencer o grupo – incluindo uma vitória por 3-0 na última jornada contra os balcânicos – mas as vitórias croatas sobre dinamarqueses e turcos foram suficientes para selar o apuramento que esbarrou contra uma dura e crua Alemanha. Blazevic não atirou a toalha e dois anos depois conseguiu a desforrar frente aos germânicos. A medalha de bronze no Mundial foi o apogeu dessa geração, já demasiado cansada para repetir a dose no Europeu de 2000, para o qual nem sequer se classificaram, e a anos luz da sua melhor versão nos torneios seguintes, já com outra geração e com outra liderança técnica. O que no entanto o Mundial de França confirmou foi a ideia pioneira de um homem, quase duas décadas depois de que essa visse a luz por primeira vez.

A viagem táctica de Blazevic

Carlos Billardo reclamou em diversas ocasiões a paternidade do 3-5-2.

O argentino, efectivamente, popularizou o modelo graças ao seu triunfo no Mundial do México e em 1984 a equipa argentina que comandava, sem grande êxito, desde o Mundial de Espanha, começou efectivamente a utilizar o modelo para potenciar o génio de Diego Armando Maradona. No período entre 1984 e os terrenos de jogo tórridos do México, a Albiceleste disputou um total de seis jogos com o esquema inovador em que os laterais tinham uma controlada projecção ofensiva e um terceiro central, exercendo de libero, reforçava as funções defensivas do colectivo, permitindo a Maradona tempo e espaço para colocar em campo todo o seu génio. Também a Dinamarca de Sepp Piontek popularizou nesse torneio o seu modelo inspirado no 3-5-2 mas no caso dinamarquês essa variação tinha chegado, dois anos antes, da metamorfose de um 1-3-3-3 inspirado na escola holandesa e actualizado pela ausência de Allan Simonsen, lesionado gravemente durante o Europeu de França e que nunca mais conseguiu alcançar o nível estelar dos anos anteriores, provocando que o seleccionador alemão encaixasse atrás de uma dupla de ataque móvel com Michael Laudrup e Preben Elkjaer, um quinteto de centro-campistas de distintas características. Nenhum deles, no entanto, foi o genuíno pioneiro no modelo que tinha nascido, efectivamente, quatro anos antes, em Zagreb.

Em 1982 Blazevic voltou a casa depois de uma passagem pelo futebol suíço. Internacional e jogador consagrado no futebol croata dos anos sessenta, o agora técnico decidiu ficar-se pela Suiça, onde terminara a carreira de jogador assumindo primeiro o cargo do Vevey e logo do Sion e Lausanne antes de se converter em seleccionador helvético seguindo a estela de Karl Rappan, quatro décadas depois. Tal estava enraizada no futebol suíço a cultura de Rappan que foi aí que Blazevic começou a tomar contacto com a dimensão do jogo a partir de um modelo sem tantas peças de ataque, redistribuídas entre defesas e médios. Se a isso se somava a larga tradição jugoslava no papel do libero – imortalizada por Vasovic, capitão do Partizan e figura fundamental do Ajax de Michels mas também pelo técnico Zlatko Cajkovski que a transportou para o Bayern de Munique e com ela ajudou a imortalizar a figura de Beckenbauer como omnipresente Kaiser – e começavam a juntar-se as peças do puzzle que ganharia forma anos depois. De regresso à sua Croácia natal, Blazevic começou em 1979 por treinar o Rijeka mas no ano seguinte assumiu o controlo de um histórico em horas baixas, o Dinamo de Zagreb, e levou a equipa no primeiro ano ao quinto posto da exigente liga jugoslava. No ano seguinte conquistou o título nacional e a Taça com uma equipa de forte projecção ofensiva mas que começava a obviar o papel do extremo reconvertendo os seus alas ofensivos em centro-campistas.

Vendo que a maioria dos seus rivais cada vez se rendia ao 4-3-3 ou ao 4-4-2, Blazevic entendeu que o papel do lateral como marcador de extremos bem abertos estava datado e optou então por operar uma metamorfose no desenho do colectivo. Recuou um dos médios defensivos para a posição de libero, atrás dos centrais, entregando o papel ao veterano Zejic, dando-lhe autorização para assumir o papel de construtor de jogo desde a defesa, operando atrás ou à frente dos dois centrais, uma vez com a bola nos pés. Ao seu lado actuavam Cevktokic e Hadzic, mas ao contrario do velho WM, os três defesas moviam-se num triângulo que não abandonava a grande área, deixando a zona lateral vazia de ocupação fixa mas patrulhada pelos dois alas, inspirados nos tornantes do catenaccio, que tinham como missão mover-se por toda a ala em missões de ataque ou de defesa, consoante a situação de jogo. À frente da defesa Blazevic instalou um médio defensivo, para permitir manter o equilíbrio táctico, e à sua frente dois centro-campistas mais criativos atrás da dupla de ataque que habitualmente se movia entre um jogador mais livre e um avançado mais fixo. Deste modo a equipa alinhava, na prática, a três defesas, cinco centrocampistas e dois avançados mas o modelo permitia-lhe jogar com o desenrolar da partida, ora basculando para o ataque através do papel do libero ora recuando os alas a ponto de formar um 5-3-2.

De Zagreb ao Mundo, o êxito do novo modelo

A experiência de Blazevic começou a ganhar forma progressivamente em 1981/82 com o título conquistado pelo Dinamo de Zagreb, principalmente porque as equipas rivais, pouco habituadas a este novo posicionamento dos jogadores, começavam invariavelmente os jogos a perder o que permitia a Blazevic jogar na segunda parte com o recuo dos médios ala à função mais defensiva de laterais e assim consolidar a vantagem da equipa. Na seguinte temporada, as equipas já sabiam o que esperar, mas ainda assim o Dinamo chegou à última jornada com opções de ser campeão, um título que acabou nas mãos do Partizan ainda que tivessem tido a oportunidade de desforrar-se ao vencer a Taça da Jugoslávia. Problemas com a direcção levaram Blazevic a abandonar o clube, regressando ao futebol suíço, onde repetiu a fórmula ganhadora e levantou os títulos de campeão helvético com o Grashopers.

Cinco anos depois, já depois do 3-5-2 como sistema ter passado de ser uma exótica novidade no México 86 a estar absolutamente datado no Europeu de 1992, o técnico assumiu os destinos da selecção croata operando um renascimento inesperado do 3-5-2 e lançando as sementes para que vários técnicos, ao longo dos vinte anos seguintes procurassem de novo explorar as suas virtudes a ponto de converter-se, trinta anos depois da sua concepção original, num dos novos sistemas tácticos em voga. Se a Argentina de Billardo demonstrou a sua eficácia e a Dinamarca de Piontek a sua expressão mais ofensiva, será sempre no entanto a Croácia de Blazevic a equipa que melhor soube exprimir as virtudes e os atractivos do sistema que o próprio técnico, no segredo dos deuses, para lá de um muro invisível, ajudou a nascer muito tempo antes da sua consagração definitiva.

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