Blakenburg, o libero que o Kaiser não deixou brilhar Durante os anos 70 a Alemanha teve os dois melhores centrais do mundo mas poucos se lembram do génio que comandou a defesa do Ajax

Um dos melhores defesas dos anos setenta nunca jogou pelo seu país. Durante quase uma década a presença imponente de Franz Beckenbauer marcou o apogeu da era dourada do futebol germânico mas, ao mesmo tempo, afastou da Mannschaft o único jogador que se encontrava à sua altura no panorama internacional na mesma posição, a do libero reinventado. Nem vencer tudo o que havia para ganhar no gérmen do Futebol Total foi suficiente para Horst Blakenburg poder triunfar com as cores da sua nação.

A revolução do líbero

A reinvenção do Futebol Total a final dos anos sessenta, ainda alguns anos antes da sua definitiva consagração internacional, partiu de três conceitos absolutos e inovadores. Por um lado a aceitação do pressing como elemento fundamental do futebol moderno, inovação praticada ao mesmo tempo nos perfeitamente desenhados relvados holandeses aos campos de dimensões espaciais da Kiev soviética. Por outro a aceitação definitiva da importância do controlo do espaço, encurtando o terreno de jogo desde uma linha de quatro jogadores de características defensivas mas com funções de ataque ao mesmo tempo que se transformava os dianteiros nos primeiros jogadores com ordens defensivas. Ambas condições foram igualmente potenciadas pela emergência do libero ofensivo, uma reinterpretação do papel do libero defensivo italiano mas com o poder de marcar o ritmo de jogo e os desequilíbrios ofensivos ao conduzir o esférico de forma autoritária e consciente ao mesmo tempo que procurava explorar as sucessivas superioridades geradas pelo seu movimento. Rinus Michels entendeu essa necessidade com a contratação, inesperada, do melhor jogador com esse perfil táctico durante a década de sessenta, o jugoslavo Velibor Vasovic, para dar forma ao seu Ajax no final dos anos sessenta. Na vizinha Alemanha o também jugoslavo Zlatko Cajkovski decidiu ir um passo mais longe e transformar um interior de dimensão profundamente criativa e ofensiva que começava a brilhar no seu clube na epitome absoluta da posição, fazendo-o recuar no terreno de jogo, de uma baliza à outra. O seu nome era Franz Beckenbauer e essa metamorfose, mais do que qualquer outra, marcou profundamente o matiz do Futebol Total e todas as suas potencialidades tácticas. Cajkovski não liderou o Bayern Munich nos seus melhores anos – foram os seus sucessores, Branko Zebec e logo Udo Lattek quem colheram os frutos do seu trabalho de gestação de uma geração de ouro – mas foi ele quem preparou Beckenbauer para o seu papel de lider absoluto no terreno de jogo e juntamente com a afirmação triunfal de Vasovic em Amesterdão, ajudou a desenhar o que seria o papel do libero moderno ofensivo nos anos setenta. Sem o saber estava também a preparar um jovem central de Heidenham para uma carreira brilhante ao popularizar a sua posição mas, inevitavelmente, também o estava a citar para um desencontro histórico com a posteridade. 

O outro rebelde da Baviera

Horst Blakenburg nasceu a 10 de Julho de 1947 no sul da Alemanha. Quando começou a jogar futebol, no Nuremberga, vizinho do Bayern, ainda Beckenbauer era uma figura eminentemente ofensiva e o papel de libero ofensivo, quase um enigma dificil de decifrar. Max Merkel, o seu treinador, um profeta do futebol de toque da escola danubiana e antigo jogador daquela Áustria dos anos trinta, rapidamente entendeu que a sua capacidade técnica lhe permitia abordar a posição de uma forma particular mas também que a dinâmica triunfal da equipa – o Nuremberga foi campeão no seu ano de estreia como profissional com uma das melhores linhas defensivas da Bundesliga – ia limitar a sua progressão. Merkel utilizou os seus contactos no futebol austríaco e recomendou a Blakenburg viajar até Viena para assinar pelo Wiener SC. Foi um gesto valente apesar da proximidade geográfica e cultural já que a finais dos anos sessenta a emigração de futebolistas promissores, excluindo aqueles que procuravam grandes contratos, sobretudo em Itália e Espanha – mercados que já estavam fechados por limitações administrativas em 1968 – era extremamente rara. Foi também um gesto que marcou a carreira do jogador e que lhe deu a liberdade de movimentos no futuro para romper barreiras. A experiência em Viena foi curta mas bem sucedida e depois de regressar à Alemanha, para assinar pelo 160 Munich. Sem o saberem, os dois maiores liberos da era dourada do futebol germânico começaram a temporada de 1969-70 a jogar a poucos kilómetros de distância. Nunca mais voltariam a estar tão perto um do outro.

De Munique a Amesterdão para reinar

A temporada não foi a melhor – o 1860, até então a grande equipa da cidade bávara – acabou despromovida, precisamente ao mesmo tempo que o seu rival começava a sua gloriosa ascensão e numa situação de perfeita desorganização apareceu a figura de Rinus Michels. O treinador holandês tinha estado atento à sua evolução e apreciava, sobretudo, as suas condições técnicas e leitura de jogo. O mesmo homem que, quatro anos antes, tinha dado um passo arriscado incorporando Vasovic para exercer a função de libero, começava agora a imaginar quem podia herdar a posição já que o futebolista jugoslava entrava no ocaso da sua carreira. Como era previsivel o capitão servio e Barry Hullsthoff começaram a temporada como titulares numa linha de quatro que incluía ainda Suurbier e Haan em que Vasovic regularmente subia no terreno de jogo para forjar o que era, na prática, um 3-4-3. Blakenburg, desde o banco, ia aprendendo com o melhor mentor possível e pouco a pouco foi-se incorporando na equipa. Depois do Ajax perder a Eredivise a equipa focou-se na sua segunda final europeia em três anos e no mítico Wembley conquistou finalmente a sua primeira Taça do Campeões Europeus. O central alemão entrou ao intervalo e tomou parte ainda das celebrações no terreno de jogo. Quando Vasovic levantou o troféu marcou-se nos céus londrinos a mudança geracional. Na época seguinte, quando o Ajax repetiu a caminhada gloriosa para bater o Inter na vizinha cidade de Roterdão, já Blakenburg era titular indiscutível ao lado de Hullsthoff e figura fundamental em coordenar com mestria aquela que era, provavelmente, a mais eficaz linha defensiva da formação ajacied. Já orientados por Stefan Kovacs, o sucessor de Michels, os holandeses exibiram a sua melhor versão e Blakenburg fez rapidamente esquecer uma figura tão fundamental como Vasovic exercendo a posição com autoridade, talento e uma leitura de jogo tão exacta que permitiu que a linha de fora de jogo habitualmente ensaiada pelo treinador romeno fosse executada a ritmo milimetrico. Aos triunfos sobre Panatinaikhos e Inter seguiu-se um terceiro titulo europeu frente à Juventus e ainda duas Eredivise e duas taças da Holanda para o memorável currículo do central. Mas a espinha continuava bem cravada na garganta de Blakenburg. A espinha chamada Mannschaft. 

O génio entre os centrais que nunca foi internacional

Em 1970 a Alemanha Ocidental de Helmut Schonn saiu do Mundial do México com o terceiro lugar e uma nova geração para afirmar-se como a grande potência mundial das décadas seguintes. Entre 1970 e 1998 os alemães marcaram presença em quatro de seis finais de um Mundial, cinco de sete finais de um Campeonato da Europa e somaram um total de cinco títulos. E fizeram-no debaixo de um conceito de jogo perfeitamente assente numa ideia colectiva criada à volta de um plano original onde a figura primordial era a de Franz Beckenbauer. Após a retirada do “Kaiser”, em 1976, a selecção germânica procurou durante duas décadas replicar o papel do seu histórico líder e de vários dos papeis ocupados pelos seus principais parceiros naqueles primeiros anos da era dourada. Uma realidade que evidenciava não só a sua relevância histórica mas também a importância desses internacionais na viragem para os anos setenta. Em 1972 a Alemanha conquistou de forma autoritária o Campeonato da Europa. Dois anos depois superou um bloqueio emocional tremendo que levou o seleccionador a encerrar-se no quarto após perder com a vizinha RDA e entregou o controlo da equipa ao próprio Beckenbauer como lider de um comité de jogadores, e venceu o seu segundo Campeonato do Mundo. Em nenhum desses dois triunfos, no entanto, estava presente a figura de Blakenburg. 

O convite de Cruyff e a mágoa de Munique

Apesar de se ter convertido numa estrela internacional, num dos centrais mais reconhecidos e admirados, figura chave na equipa de moda, o jogador continuava ofuscado pela gigantesca sombra do Kaiser. Durante os seis anos que mediram a sua passagem pelo clube holandês e que coincidiram com o apogeu de Beckenbauer, Horst Blakenburg não conseguiu somar um só jogo como internacional alemão. É talvez a história do jogador mais reconhecido e titulado a nível internacional sem ter vestido a camisola do seu país. Blakenburg jogava também com a política habitual de muitas selecções de não contar com jogadores que actuavam fora do seu país – o que, no seu caso, não era um pretexto sólido tal era a proximidade geográfica de Amsterdão com o habitual local de concentração dos internacionais alemães. O que sucedia era, pura e simplesmente, que Beckenbauer não queria sentir concorrência à sua volta e numa era em que as convocatórias raramente contavam com mais de dezasseis jogadores, já que as substituições eram uma novidade recente, a Schon parecia-lhe pouco necessário incorporar outro libero às concentrações da Mannschaft.

 

O ostracismo a que foi vetado foi tal que o próprio Johan Cruyff, em vésperas do Mundial de 1974, tentou persuadi-lo a solicitar a nacionalidade holandesa para jogar com a “Laranja Mecânica” no torneio disputado no seu país natal. Blakenburg recusou, ainda com a expectativa que mais um grande ano com a camisola ajacied fosse suficiente para persuadir Schon da sua utilidade. Meses antes o próprio Schon – que o tinha treinado num desses jogos amigáveis do Resto da Europa – tinha-lhe dito que não perdesse a esperança e que havia possibilidades de viajar com os restantes internacionais alemães rumo à conquista do Mundial. Não foi o caso. Nem sequer quando em 1976 Blakenburg voltou à Bundesliga, assumindo um papel fundamental no emergente Hamburgo – com quem ganhou a Taça das Taças e a Taça da Alemanha – e rompendo assim o tabu do futebolista emigrante foi considerado como apto para a Mannschaft. A retirada definitiva de Beckenbauer da equação coincidiu também com o seu abandono do futebol europeu para, tal como o Kaiser, provar sorte nos Estados Unidos.

Os dois voltaram a cruzar-se nos campos da NASL como rivais. Nunca jogariam juntos. Com nenhuma camisola, em nenhum projecto. Duas existências paralelas de dois dos maiores centrais da história do futebol que marcaram um antes e um depois de como a posição era interpretada e que acabaram por ter se ver reflectidos um no outro a cada suspiro. O homem que hoje ainda tem uma ponte em Amesterdão com o seu nome nunca teve a oportunidade de jogar com a águia imperial germânica ao peito.

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